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A história do urologista Mark Litwin, que enfrentou a dura tarefa de fazer a circuncisão em um bebê morto

Minhas mãos tremiam enquanto eu agarrava o pequeno pedaço de pele com meu fórceps, e o separava do pálido pênis. Ele estava estranhamente imóvel sobrea mesa, que eu havia forrado com uma toalha azul da sala de operações. A alguns metros estavam os pais dele, abraçados. Diversos familiares e amigos caminhavam silenciosamente pelo pequeno quarto de hospital, cujas paredesa cinzentadas nos guardavam imparcialmente.

A gravidez havia sido tranquila. Um mês antes do parto eu havia recebido umaligação relutante, mas ansiosa, a respeito de organizar um “brit milá”, o ritual judeu de circuncisão realizado no oitavo dia de vida dos bebês meninos. Os pais prometeram telefonar após o parto para confirmar data e horário, de forma que pudessem encomendar os pratos de comida.

Como muitos pais de hoje em dia, este casal preferiu uma circuncisão médica, respeitando a tradição, mas realizada por um médico – com a anestesia local e a esterilização suavizando a angústia do ritual padrão. Foi aí que entrei na história.

Como oncologista urológico, meu foco está geralmente naqueles afligidos pelo câncer, muitas vezes ao final da vida. Assim, há 17 anos, me tornei um “mohel” licenciado, unindo minhas habilidades cirúrgicas à aptidão para acalmar nervos com o esperançoso otimismo das famílias crescendo. O ritual da circuncisão proporciona uma íntima e revigorante visão do início de uma vida.

Os nove meses se passaram, mas o telefonema feliz nunca aconteceu. Uma semana após a data do parto, conforme descobri, o coração do feto havia desacelerado de forma alarmante e foi realizada uma cesariana de emergência. Nascido fraco e ofegante, ele foi ressuscitado e levado à unidade de tratamento intensivo neonatal.

Porém, três dias de heroísmo médico do século 21 fracassaram em gerar mesmo uma centelha de esperança. Um eletroencefalograma plano confirmou o terrível prognóstico: sua breve vida estava chegando ao fim. A melhor amiga da mãe me ligou para dar a notícia.

“Eles ainda querem que você faça a circuncisão, mas não querem submetê-lo aqualquer dor desnecessária”, disse ela.

“Você poderia fazê-lo depois que ele morrer?” Sim, eu poderia. Meu rabino me garantiu que a tradição judaica permite isso, diante das circunstâncias. A cerimônia é diferente, claro; não há dizeres sobre um bar mitzvah ou um casamento, e as preces pela cura são redirecionadasà família em luto. Uma circuncisão post-mortem permite um momento denormalidade antes que a imensa perda precise ser enfrentada. O rabino me ensinou o que dizer para tornar a cerimônia kosher: a frase hebraica “Ani huha, Elohim” (que pode ser traduzida como “acima de tudo, existe Deus”), repetida sete vezes.

A equipe do hospital retirou o bebê do respirador, removeu os tubos intravenosos, o enrolou numa coberta e entregou aos pais. Eles foram conduzidos ao quarto do hospital, onde se sentaram, ninando gentilmente seu recém-nascido por cerca de uma hora.

Então, como uma vela subitamente apagada por uma brisa, a vida o abandonou. Um triste vazio permaneceu, como se o ar fosse perfurado por uma nuvem defumaça negra, surgindo e desaparecendo rapidamente. Ele estava morto. Sem futuro, apenas um passado.

Explicando àqueles agora reunidos o significado do que estávamos prestes apresenciar, iniciei o procedimento que havia feito mais de mil vezes. Pegueio bebê de seu pai, desenrolei a suave coberta e o coloquei gentilmente sobrea mesa. Hoje, porém, não havia pernas se debatendo, injeções de lidocaína, avós sorrindo e se recordando de circuncisões passadas. Havia somente uma gota de sangue púrpura.

Eu devo ter tateado os instrumentos por tempo demais. “Não precisa serperfeito, doutor”, disse o jovem pai, quebrando a tensão que se instalara sobre o quarto. Um certo alívio acompanhou as risadas abafadas.

Na verdade precisa, pensei; tudo aqui precisa ser mais do que perfeito. Este era seu único momento imaculado com o filho, tudo que eles poderiam recordar. Sem uma vida pela frente onde colocar seus sonhos, ele havia feito uma pausa por um intenso e efêmero instante – antes de ser envolto pela antiga tradição de seus ancestrais.

“Ani hu ha, Elohim... Ani hu ha, Elohim...” Eu mal reconhecia minha voz ecoando a frase, as palavras entremeadas por choros contidos no quarto. Enquanto balbuciava, retirei forças diretamente dos jovens pais. Por mais perdidos que pudessem se sentir, seus rostos permaneciam estranhamente calmos. Eu podia sentir sua aprovação, seu encorajamento, seu vigor. Refleti isso para apoiá-los. Eu era o instrumento, e eles não permitiriam hesitação. Amém.

Dois anos depois, eles telefonaram novamente: “Vamos ter um menino, egostaríamos que você realizasse o brit milá”. A gravidez não apresentara problemas. Me esparramei na poltrona, quase dominado por emoções divididas. Meu coração pulsava com a lembrança de sua dor, mas essa dor era abrandada por sua determinação e pelo renovado entusiasmo. Eu me sentia como água numa temperatura extrema, que poderia ser quente ou fria.

Um mês depois, tivemos uma alegre conversa sobre data e horário. Passados mais oito dias, o sol da primavera iluminou um céu azul e brilhante na casa do casal. Os aromas de café fresco, pães quentes e salmão curado cobriam aconversa dos convidados que chegavam. Coberta pela luz matinal, a sala de estar se preencheu lentamente com cada um dos participantes anteriores.

Ostentando sorrisos eufóricos e estimulados por novos sonhos e esperanças, os jovens pais me entregaram, mais uma vez, seu filho recém-nascido.

Mark S. Litwin é professor de urologia e saúde pública na Universidadeda Califórnia, em Los Angeles.

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