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Especialistas revelam que 50% do comportamento de risco dos pacientes é negligência médica. "Sem jogar junto, não muda"

Dois fatores igualmente proporcionais, segundo o cardiologista chefe do Hospital Dante Pazzanese e do Hospital Oswaldo Cruz, Marcelo Sampaio, estão diretamente ligados à falta de disciplina dos infartados no Brasil.

Segundo ele, 50% do problema reflete o descaso e vontade individual em construir uma vida com mais qualidade. O restante é (ir)responsabilidade dos médicos, que precisam informar corretamente quais as medidas necessárias para blindar o coração.

“É preciso que os médicos sejam como técnicos de seus pacientes, joguem juntos. Essa relação de parceria precisa estar sempre muito clara. Hoje, os profissionais fazem visitas muito rápidas, passam a receita do remédio e esquecem de falar sobre a vida pós o infarto. A falta de diálogo é um dos grandes entraves para a mudança comportamental.”

Quando a dobradinha funciona, fica mais fácil reestruturar a vida. A chance de um novo infarto reduz em 80% caso a preocupação com a saúde seja prerrogativa na vida do paciente.

“O risco triplica a cada ano se o paciente voltar a fumar, quadruplica caso o colesterol permanece desregulado e quintuplica se a diabetes não for controlada”, assevera.

Velhas pesquisas, dados atuais

Em 2000, Sampaio foi responsável por replicar uma pesquisa feita em diversos países da Europa dentro do Instituto Dante Pazzanese. Na época, a proposta era entender como os médicos tratavam o paciente após o incidente cardíaco. Os resultados foram bem alarmantes: a falta de orientação chegava a 80% dos casos de infarto.

Embora os dados mensurem um comportamento registrado há 11 anos, são úteis para simbolizar um problema crônico no País. Para o cardiologista, a realidade, em pleno século 21, é ainda pior.

“O erro começa no hospital, depois do procedimento cirúrgico, e é reforçado durante as consultas periódicas. É claro que os pacientes ficam desestimulados. Os profissionais não perguntam nada, não investigam. Obviamente o infartado perde a força. O poder dos medico é transformador, mas é preciso ter confiança e empatia”, defende.

Dentro desse diálogo, é fundamental que os cardiologistas deixem claro a importância de uma atividade física. O coração é músculo e precisa ser trabalhado, endossam os médicos. Tal exercício deve ser compatível também com a rotina dos paciente.

"Ajudar a escolher um hobby, explicar a importância de manter disciplina ao tomar os remédios  e uma alimentação saudável, estabelecendo limites - o que pode ou não compor o prato. São orientações básicas, essenciais que devem ser feitas e refeitas a cada nova consulta."

Jorge Ilha, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia corrobora com a avaliação de Sampaio. Na visão dele, o atendimento pós-infarto é absolutamente falho no Brasil. “O foco não deve ser apenas em tecnologia. É preciso inteligência emocional para salvar a vida dos pacientes."

Dados de uma recente pesquisa encomendada pela Sociedade Brasileira de Cardioligia reforçaram o que Ilha já previa: a maioria dos brasileiros não sabem como agir após o susto do infarto . Em hospitais públicos, a realidade é ainda mais agressiva. As longas filas de espera pautam a demora no atendimento e rapidez das consultas. "O tempo escasso e a falta de investimo no serviço de saúde brasileiro comprometem o controle da doença no longo prazo", defende o presidente.

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