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Os dois filhos da inglesa Sara Hunt tinham a doença tema do filme "O Óleo de Lorenzo", mas apenas um conseguiu se tratar a tempo

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Em 2001, a inglesa Sara Hunt foi informada de que seus dois filhos sofriam de uma doença genética rara, que ataca o cérebro e o sistema nervoso e pode resultar em deficiência severa e morte.

A doença, adrenoleucodistrofia (ALD), foi tema do filme "O Óleo de Lorenzo" estrelado por Susan Sarandon em 1992. O filme conta a história verdadeira de Lorenzo Odone, diagnosticado com ALD aos seis anos de idade.

Alex antes de ser afetado pela doença: um menino normal
BBC
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Ignorando opiniões de médicos que diziam que o menino morreria dentro de cinco anos, seus pais criaram uma fórmula - uma combinação de ácido erúcico e ácido oléico - que permitiu que Lorenzo vivesse até a idade adulta. Ele morreu recentemente, aos 30 anos.

Anos mais tarde, estudos científicos finalmente comprovaram que o óleo, patenteado pelo pai de Lorenzo, Augusto Odone, diminui significativamente as chances de que portadores da anomalia genética desenvolvam a condição na infância.

Sintomas

Lorenzo começou a apresentar os sintomas de ALD aos seis anos de idade. Sua fala começou a ficar enrolada e ele caía inexplicavelmente. O filho mais velho de Sara Hunt, Alex, tinha sete anos quando foi feito o seu diagnóstico. Os médicos disseram a Sara que a criança viveria apenas um ano. Na época, o irmão de Alex, Ayden, era apenas um bebê.

Como acontece com famílias afetadas por doenças raras, Sara se viu isolada. Havia pouquíssimas pessoas capazes de compreender e compartilhar de sua difícil realidade. E o prognóstico era terrível: assistir, paralisada, enquanto os filhos eram lentamente devorados por uma doença incurável.

"Em um período de nove meses, Alex passou de menino saudável, que andava e falava, para um estado semivegetativo. Ele não conseguia andar, falar, engolir ou ver", disse Sara, que mora em Londres.

Pouca gordura

A deterioração na saúde de Alex foi tão rápida que Sara mal podia assimilar os acontecimentos. E era tarde demais para usar o óleo de Lorenzo, que quando administrado antes de que a doença se manifeste, atrasa ou reduz os sintomas em crianças portadoras da anomalia genética. O óleo não parece ser muito efetivo após o surgimento dos sintomas.

Alex com 18 anos: dependência total e cuidados 24 horas por dia
BBC
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"A devastação só me atingiu após as coisas terem se acalmado um pouco. Eu estava tão ocupada tentando manter as coisas dentro da normalidade, com um bebê sapeca para cuidar, que liguei o piloto automático."

Quando os exames comprovaram que Ayden também tinha a anomalia genética, Sara e o parceiro puseram suas esperanças no Óleo de Lorenzo como forma de evitar que a ALD se manifestasse. Aos 18 meses de idade, Ayden passou a seguir uma rigorosa dieta de pouca gordura. Durante anos, bebia colheradas do óleo diariamente.

"Ele se acostumou, mas o (sabor do) óleo é horrível. Não é gostoso de beber e Ayden não pôde comer chocolates ou outras guloseimas durante a infância."

Pessoas que sofrem de ALD não produzem uma proteína essencial, necessária para fabricar uma enzima que quebra ácidos graxos saturados de cadeias muito longas (VLCFAs na sigla em inglês) ingeridos como parte da dieta . Estudos indicam que o Óleo de Lorenzo talvez ajude a diminuir os índices desses ácidos graxos. No entanto, quando exames revelaram que a ALD havia começado a se manifestar no cérebro de Ayden, a única opção para ele era um transplante de medula de alto risco, que acabou sendo bem-sucedido.

"Todas as células do doador foram assimiladas, então ele não vai mais desenvolver ALD", disse Sara Hunt.

"Ele é um adolescente atrevido, fazendo o nível secundário na escola. Quem o vê hoje não sabe que ele teve um problema."

Doença rara

Alastair Kent, presidente da entidade beneficente britânica Rare Disease UK, dedicada a auxiliar pessoas que sofrem de doenças raras, disse que 3,5 milhões de pessoas são afetadas na Grã-Bretanha por cerca de 6 mil doenças raras.

Por definição, uma doença rara é aquela que afeta menos do que cinco em cada 10 mil pessoas. A grande maioria, no entanto, afeta menos de uma em cada 100 mil pessoas. O grande desafio, ele explica, é obter o diagnóstico correto rapidamente e depois acessar o tratamento certo.

"O treinamento de um médico pode fazer com que ele pense que uma doença rara é uma manifestação um pouco estranha de uma coisa comum, em vez de uma manifestação comum de uma doença estranha".

Leia: Portadores de doenças raras convivem com a falta de especialistas e tratamento caro

Kent disse que famílias afetadas por doenças raras acabam tendo de se apoiar em recursos próprios e em pessoas que estão na mesma situação. Sara concorda. Por isso, em 2004, criou sua própria ONG, a ALD Life. A entidade oferece apoio e aconselhamento sobre a Adrenoleucodistrofia.

Seu filho Alex tem hoje 19 anos de idade. A ALD deixou-o completamente dependente e com grande dificuldade em se comunicar, mas a doença está estabilizada. Ele recebe cuidados de uma equipe de enfermeiros e faz atividades que lhe permitem manter uma certa rotina e dão estrutura à sua vida.

"Ele só pode se comunicar piscando. Duas piscadas para sim, uma piscada para não. Ele deixa muito claro quando não gosta de algo", disse Sara, rindo.

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