Tamanho do texto

Ritmo desacelerado em desenvolvimento e produção de medicamentos pode culminar em falta de novos tratamentos

Fábrica de medicamentos: fim da era dos medicamentos
Getty Images
Fábrica de medicamentos: fim da era dos medicamentos "blockbuster"?
A chegada de novos medicamentos ao mercado mundial enfrenta um desafio inédito na história da indústria farmacêutica. Enquanto o custo para desenvolver novas moléculas aumenta rapidamente, o ritmo para aprovação delas se mantém estável.

Entre 1998 e 2008, as farmacêuticas se viram obrigadas a multiplicar investimentos em pesquisa e desenvolvimento no território norte-americano, elevando o montante de 11 para 50 bilhões de dólares. Apesar disso, o número de medicamentos aprovados por ano quase sempre esteve entre 15 e 30.

“Com a perda de patentes importantes em vista, as indústrias estão em busca de novos modelos para se manter”, afirma Kenneth Kaitin, diretor do centro de pesquisas para desenvolvimento de novas drogas da Tufts University, em Boston, EUA, em entrevista ao iG Saúde.

Leia: Dividir custos e conhecimento pode ser a solução

O processo de inovação enfrenta exigências cada vez maiores do FDA. O órgão regula o setor de alimentos e medicamentos nos Estados Unidos e cobra amplos estudos para comprovação da eficiência e segurança dos medicamentos.

“O problema é que muitos remédios falham no caminho”, aponta Kaitin.

Uma parcela expressiva dos fracassos tem acontecido na terceira fase dos estudos, justamente a mais cara de todas, por agrupar centenas de voluntários.

“Isso tem feito os investidores perderem fé no setor”, avalia o pesquisador. Investir em novos medicamentos, de fato, tem se mostrado um negócio arriscado.

“Em média, um medicamento custa US$ 1,3 bilhão e leva 15 anos para chegar ao mercado”, revela Kaitin. “E apenas três de cada dez conseguem pagar seus custos de desenvolvimento e pesquisa.”

Pacientes sem tratamento

Se não houver uma mudança brusca no processo de inovação no setor farmacêutico, o pesquisador projeta um cenário de crise com a falta de medicamentos para doenças relacionadas à obesidade e ao envelhecimento, como diabetes tipo 2 e mal de Alzheimer.

Não só doenças ligadas à idade, mas quase todas as enfermidades cérebro e do sistema nervoso, inclusive as psiquiátricas, reúne uma combinação perigosa de fatores. A necessidade de novos tratamentos e medicações deve mostrar sua urgência em poucos anos, conforme a população de muitos países envelhece – um fenômeno também vivido no Brasil. Em contrapartida, o índice de aprovação para esses medicamentos é o pior entre todos.

“Apenas 46% deles chegam e passam da terceira fase de estudos, enquanto outras categorias têm até 80% de aprovação”, compara Kaitin. Esse tipo de remédio, quando bem-sucedido, leva uma média de 18 anos para alcançar o mercado final.

Faltam voluntários

Fora os desafios regulatórios, a indústria farmacêutica enfrenta uma crise de imagem. Filmes de sucesso no cinema, como “Jardineiro Fiel” (2005) e “O Fugitivo” (1993), retratam o setor de forma negativa. Na imprensa, as maiores repercussões são das notícias negativas.

“Tudo contribui para a formação de uma imagem desfavorável”, considera Ken Getz, pesquisador e professor da Escola de Medicina da Tufts University.

O reflexo de toda essa publicidade negativa se manifesta na dificuldade em conseguir voluntários para testar novos medicamentos, especialmente quando são necessários pacientes saudáveis.

“Apenas um em cada quatro completa o processo de estudo”, afirma Getz.

O número está em queda. Entre 1999 e 2003, o percentual de sucesso era duas vezes maior. “Uma das principais barreiras é a falta de confiança geral do público”, aponta o médico e pesquisador.

Segundo Getz, os voluntários em potencial estão preocupados com a possibilidade de receber o princípio ativo em vez do placebo (48%), com os efeitos colaterais (35%) e com o acesso ao medicamento após a fase de pesquisas (29%). O último item, ressalta o médico, revela uma questão ética.

“O custo das pesquisas em alguns países, como a China, é menor e isso tem sido atraente. Mas a comercialização do medicamento no local nem sempre recebe a devida atenção, e alguns voluntários correm o risco de perder o acesso ao tratamento”, afirma.

* O repórter viajou a convite da Interfarma

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.