Tamanho do texto

Em menos de um ano, equipe médica ressuscitou 915 pacientes. Atendimento que salva vidas dura menos de cinco minutos

As mãos dos médicos que fazem massagens cardíacas podem salvar a vida dos pacientes
Getty Images
As mãos dos médicos que fazem massagens cardíacas podem salvar a vida dos pacientes

A primeira vez que Lázaro Pedro Diniz nasceu foi em 1939, num quartinho em um sítio na cidade mineira Coromandel, depois de horas de trabalho da parteira mais famosa das redondezas. O segundo nascimento do mesmo homem se deu em fevereiro de 2011, com auxílio das mãos do enfermeiro Daniel, em um procedimento vital que durou menos de 5 minutos.

Saiba como é o infarto dentro do corpo

Os dois aniversários de Lázaro são separados por mais do que 72 anos. Quando menino, o mineirinho viu dez irmãos nascerem no mesmo quartinho que ele. Cresceu, virou vendedor, saiu para o mundo oferecendo chaveiros. Apaixonou-se por Maria de Fátima, foi morar com ela em São Paulo, tiveram 9 filhos, inúmeros netos (perdeu as contas) e 5 bisnetos. Foi então que Lázaro descobriu uma doença no coração e uma parada neste músculo cardíaco que poderia ter colocado um ponto final na história. Aí entram as mãos do enfermeiro...

Daniel do Carmo integra uma nova equipe médica do Hospital Beneficência Portuguesa, que atua bem no centro da capital paulista e tem a missão de vencer a corrida contra o relógio. Ao todo, são 12 profissionais acionados sempre que algum paciente internado na instituição – ou acompanhante, visita, profissional de saúde – tem uma parada cardíaca.

Treinada pela médica Viviane Cordeiro Veiga, a equipe precisa chegar ao local do socorro e iniciar as massagens de reanimação em, no máximo cinco minutos, segundo o estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A área total do hospital é de 143 mil metros quadrados e os 300 segundos são impostos como meta, não importando a distância entre a equipe e a vítima.

“Desde que começamos a atuar no hospital (em abril do ano passado) temos o tempo médio de atendimento de 2,8 minutos”, orgulha-se Viviane.

Entre abril e janeiro deste ano, 1.027 pessoas precisaram deste atendimento. A taxa de sobrevivência alcançada até agora é de 89%, mais de 80 pontos porcentuais acima da média da cidade de São Paulo que é só de 5%. Isso indica que 915 pessoas, assim como Lázaro Pedro Diniz, viveram a sensação de o coração parar por alguns momentos e voltar a bater após as massagens da equipe especializada.

A briga contra o relógio é uma necessidade porque, de acordo com estudos feitos pela Associação Americana do Coração, cada minuto que o paciente fica em parada cardíaca sem atendimento reduz em 10% a chance de sobrevivência.

Levando em conta que as vítimas atendidas pela equipe da Beneficência já estão hospitalizadas, o quadro de saúde dos atendidos é ainda mais frágil.

No dia em que as mãos do enfermeiro Daniel massagearam o peito de Lázaro ele já estava internado havia 15 dias. O coração adoecido pelo mal de Chagas  parecia estar em plena recuperação. Tanto que a fiel escudeira do paciente, a companheira Maria de Fátima Silva, tinha decidido dar uma voltinha e almoçar fora do ambiente hospitalar.

“Quando retornei, quase não acreditei que o pai dos meus filhos tinha tido uma parada cardíaca. O susto foi grande”, lembra Maria de Fátima.

“Almocei e senti umas palpitações diferentes. Parecia que meu coração estava batendo no ritmo errado. De repente ficou tudo preto, as vozes ficaram mais distantes, mas não doeu nadica de nada. Pensei na hora que a morte era rápida e indolor”, relata Lázaro.

O paciente caiu para trás e um grito fez o enfermeiro Daniel começar as massagens de reanimação. Na mesma hora, com uma mensagem pelo bip, a equipe da médica Viviane foi acionada e todos os elevadores do complexo hospitalar ficaram disponíveis para os profissionais. Após dois minutos, eles chegaram para completar o atendimento, munidos com um carrinho especial que contém medicamentos como adrenalina e glicose. A máquina de choque (aquelas sempre mostradas em filmes e seriados médicos) também está sempre pronta para ser usada, caso necessário.

O paciente reanimado, por vezes, volta a conversar no mesmo instante. A metade deles, no entanto, é entubada e precisa ir para Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Foi o que aconteceu com Lázaro.

O perfil dos socorridos

Desde abril de 2010, equipe especializada atendeu 1.027 pessoas. 89% delas sobreviveram apesar do quadro frágil de saúde

Gerando gráfico...
Hospital Beneficência Portuguesa

Maria de Fátima não estava presente no momento em que seu companheiro foi reanimado, mas em geral os acompanhantes estão no local quando as paradas cardíacas acontecem.

“Lidar com a família também é uma de nossas funções e precisamos controlar as aflições dos parentes para que elas não comprometam o trabalho da equipe médica”, conta a gerente da unidade de enfermagem da Beneficência, Vanessa Faustino Eugênio.

Este atendimento é feito por, no mínimo, três pessoas e uma delas fica responsável só por controlar o tempo. As novas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) orientam que é preciso fazer 100 compressões por minuto no peito da vítima, intercaladas pelo respirador colocado na boca do paciente (na rua e sem o equipamento, a respiração artificial é feita pelo "boca a boca").

Uma curiosidade: a música do grupo australiano Bee Gees, "Staying Alive" (ah, ah, ah, staying alive, staying alive) tem o ritmo preciso para a “coreografia” da reanimação, já concluíram os médicos da Associação Canadense de Cardiologia.

No Brasil, o médico Sérgio Timerman busca uma trilha que tenha o mesmo efeito . O fato é que não importa o som (ainda que mental) o esforço físico de quem faz a reanimação exige que a presença de outro especialista para fazer o revezamento.

“Ficamos esgotados”, define a chefe da Beneficência Viviane.

“E precisamos de alguém com o cronômetro em mãos, porque simplesmente não vemos o tempo passar. Infelizmente, temos consciência de que após 20 minutos de tentativa de reanimação, as sequelas neurológicas são muitas. Por vezes, temos de cessar o trabalho. Ainda bem que a maioria dos nossos socorridos sobrevive.”

Panorama nacional

As causas cardíacas , mostra o último levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são as que mais matam os brasileiros. Fora do ambiente hospitalar, 72% não sobrevivem às paradas do coração. Dentro dos hospitais o cenário melhora um pouco mas ainda está longe do ideal, já que 54% dos atendidos também não têm uma nova chance.

Casamento

Lázaro e Maria de Fátima oficializaram a união de 45 anos dentro do hospital Beneficência Portuguesa
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Lázaro e Maria de Fátima oficializaram a união de 45 anos dentro do hospital Beneficência Portuguesa
Lázaro Pedro Diniz era só sorrisos quando ficou sabendo que driblou a morte e não confirmou esta estatística. Ele voltou da UTI para o quarto em apenas dois dias e também ficou emocionado ao reencontrar o enfermeiro Daniel, peça fundamental nesta sua segunda chance.

Os corredores da Beneficência – que agora serão lembrados como local do segundo nascimento de Lázaro – também estarão na memória como palco de mais um acontecimento importante na vida do vendedor mineiro. Uma semana antes de ser reanimado, ele decidiu oficializar a união de 45 anos com Maria de Fátima. Ele ouviu a voz do coração, chamou o padre e casou dentro do próprio hospital que tanto cuidou de seu músculo cardíaco.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.