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O professor Pedro Luis Zen mudou o comportamento após o infarto durante um mês. A volta à rotina, porém, anulou a postura exemplar

Minha alimentação sempre foi um veneno ao coração
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Minha alimentação sempre foi um veneno ao coração
Carnes grelhadas, frutas e legumes expulsaram as gorduras e os açucares da mesa durante 30 dias após o infarto do professor de física Pedro Luis Zen. Em maio de 2010, a doença e morte do pai, seguida ao falecimento de um sobrinho e a rotina estressante multiplicaram a alimentação recheada de bombas ao coração  e a força da herança genética.

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Aos 52 anos, o professor foi submetido às pressas a um cateterismo. O coração tinha seis entupimentos reversíveis. O emergencial foi feito no dia do infarto para, um mês depois, enfrentar a cirurgia: uma mamária, duas pontes de safena e dois stents deram nova vida ao coração do físico.

Com as duas filhas já criadas - uma delas médica residente - a rotina era pautada no trabalho e cuidado com o pai. A vida emocional extremamente fragilizada foi o estopim de um completo descaso com a saúde. “Eu só comia besteira mesmo. Não fumava, não bebia, mas minha alimentação era um veneno. Muita carne, gordura, fritura. Nunca comi salada na vida.”

Prazo de validade?

Durante um mês, o susto foi transformador. A família cobrava e o ajudava a manter a linha. Zen perdeu 10 quilos, fazia caminhadas diárias e sentia-se novo, mais novo. De volta à rotina, restou apenas o medo latente e o comportamento exemplar foi para escanteio. Qualquer sintoma que remeta à vespera do infarto é motivo de pânico, mas não munutenção da postura saudável.

“Sou uma pessoa extremamente ansiosa. Morro de medo de sofrer um segundo infarto. Mas quando você não tem sintoma nenhum, esquece o drama. Sei também que esse medo é baseado na minha negligência. Eu levantava de manhã e comia direitinho.  Hoje eu já como pão com manteiga novamente, e faço tudo que não deveria.”

Para o professor, um dos grandes problemas é que a vida pós infarto é exatamente igual a anterior. O coração está recuperado, sem sequelas sintomáticas. “Você não muda o meio em que vive. Isso é o mais difícil. As pessoas fazem a mesma coisa que faziam antes de eu infartar. Não consigo, na hora do intervalo no trabalho, enquanto os outros estão comendo pão, descascar uma fruta e comer no meu canto. Somos tentados a todo momento.”

Embora a vigilância seja constante, quando a família não incorpora o ideal de qualidade de vida, combater o sedentarismo e manter a disciplina alimentar tornam-se fardos pesados para conduzir sozinho. O 'faça o que eu digo, mas não o que faço' virou imperativo no relacionamento com amigos e parentes. Todos os dias ele se permite comer um pouquinho a mais, ou carregar o pão na manteiga, sempre estabelecendo a meta de que "amanhã será diferente".

“No começo, o açúcar sumiu, o pão também. Só carne branca, sem gordura. Hoje não é mais assim. Não tem salada para jantar? Então vamos pedir uma pizza. E ai a coisa degringola. Não é por falta de vigilância. É ansiedade da minha parte e vagabundagem, mas quando o meio não ajuda, é sempre mais difícil.”

O 'só hoje' de Zen, porém, parece agora ter uma data limite. A idéia é mudar-se para um bairro mais próximo ao local de trabalho, investir em caminhadas e natação, seu esporte preferido, abandonado há anos. Comidas saudáveis também entram nos planos de reformulação.

"Espero conseguir colocar em prática. Quando eu saí do hospital a médica me disse que eu voltaria a fazer tudo errado novamente. Eu só não passaria a fumar, por que nunca o tinha feito. No dia, fiquei com muita raiva. Depois, entendi. Espero contradizer a previsão dela em breve."

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