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Comitê de gestores brasileiros foi formado para traçar estratégias de prevenção de doenças e desastres

Médicos
Edu Cesar/Fotoarena
Médicos "treinaram" ontem no Corinthians táticas para socorrer vítimas na Copa de 2014
Dentro de 1001 dias, vírus e bactérias dos mais variados cantos do mundo devem entrar em território brasileiro. Elas virão com os milhares de turistas esperados para o maior evento futebolístico do planeta, e muitas são pouco conhecidas pelos médicos brasileiros. O número de pacientes em hospitais, públicos e particulares talvez aumente. Acidentes em estádios de futebol, como queda de arquibancadas também podem acontecer.

É assim, pensando no que pode acontecer, que a saúde faz a contagem regressiva para o Mundial de 2014, a copa brasileira. Um plano tático de atendimento já começa a ser traçado pelos gestores nacionais. Nas áreas estudadas, o Ministério da Saúde analisa até a necessidade de recomendar vacinas especiais aos turistas que virão para cá – eles podem trazer na bagagem doenças já controladas por aqui, como sarampo (circulante em alguns locais da Europa) e poliomelite (ainda ativa na África).

Veja o vídeo : Ministério estuda substituir a vacina contra poliomelite

Atualmente, no protocolo internacional, apenas a imunização contra a febre amarela é uma exigência para a entrada em algumas nações, em especial para viajantes com destinos onde há alta concentração de casos, como o Norte brasileiro.

“A programação de vacinação de turistas estrangeiros segue os protocolos de controle epidemiológico existentes no País. Para o período da Copa, em decorrência da expectativa de movimentação de visitantes de diferentes partes do mundo, nas cinco regiões do País, está sendo avaliada a necessidade de adequações nos atuais protocolos”, afirma Adriano Massuda, secretário-executivo adjunto do Ministério da Saúde e coordenador da Câmara Temática da Saúde para a Copa.

Saiba mais: Vacinas do futuro: menos dor e mais versatilidade

 Para o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), Renato Kfouri, o ideal seria o Ministério particularizar as recomendações para cada país, com base em um estudo sobre a incidência de patologias mais frequentes nestes locais e que têm doses preventivas.

“Traçar uma regra única de vacinação é muito difícil. Da mesma forma, criar muitos empecilhos para a vinda de estrangeiros também não é correto”, diz Kfouri.

“Acredito que a linha a ser adotada é de recomendação de vacinas e não de exigências delas. A população adulta precisa estar em dia com o calendário básico de vacinação e nem sempre faz isso. Se estiver imunizada contra sarampo, caxumba, rubéola , coqueluche , tétano, tuberculose, difiteria, poliomelite, hepatite B e gripe já é um bom começo.”

Mortes e parto súbitos

Além das bactérias e vírus, outra preocupação é com a rede de atendimento disponível – e diversificada – nas 12 cidades que sediarão jogos. “O Ministério tem trabalhado, em conjunto com as cidades-sede, para fortalecer todas as estruturas que compõem a rede de urgência e emergência”, garante Massuda.

Efraim Kramer, da África do Sul, responsável pelo departamento médico de Joanesburgo, conduziu o treinamento médico para a Copa de 2014
Edu Cesar/Fotoarena
Efraim Kramer, da África do Sul, responsável pelo departamento médico de Joanesburgo, conduziu o treinamento médico para a Copa de 2014
Januário Montone, secretário municipal de saúde de São Paulo acrescenta que, neste sentido, os hospitais particulares também precisam ser chamados a aperfeiçoar suas estruturas. “Precisa ser um esforço dos setores públicos e privados. Os estrangeiros, em geral, pagam seguro saúde e quando precisam de atendimento médico durante a viagem costumam recorrer à rede particular”, diz Montone, acrescentando que os responsáveis por estes hospitais já foram convocados para participar do esquema de organização da saúde na Copa.

Morte súbita, torções e fraturas dos jogadores também são responsabilidade dos profissionais de saúde que vão atuar na Copa, lembra o instrutor da FIFA, Efraim Kramer, médico que atua na África do Sul e responsável pelo departamento médico de Joanesburgo, na última Copa (2010). Além dos profissionais da bola, diz Kramer, também precisam ser socorridos por esta mesma equipe as mulheres que entram em trabalho de parto no meio da torcida, os diabéticos que esquecem do remédio e passam muitas horas sem comer para ver suas seleções jogarem e os cardíacos que sofrem com o gol perdido e desmaiam na numerada.

Saiba como socorrer uma mulher em trabalho de parto

“Seleção de jaleco”

Estas especificidades e generalizações de atendimento foram apresentadas por Kramer nesta quarta-feira (14/09) a um grupo de 50 médicos dos principais serviços de emergência e de medicina do esporte do País. São os primeiros escalados para a “seleção de jaleco” que deve entrar em campo em 2014. No Centro de Treinamento do Corinthians, ele ministrou um curso rápido com simulações de problemas cardíacos com jogadores em campo, equipamentos médicos necessários em cada estádio e formas de agir em caso de tumultos envolvendo torcedores.

“A FIFA vai indicar um oficial médico para cada cidade-sede. Mas já começamos o treinamento para que estes profissionais passem adiante o conhecimento”, afirmou o médico do Hospital das Clínicas de São Paulo, André Pedrinelli – ele é um dos coordenadores do curso e já atuou em outras Copas do Mundo.

“No torneio da África, por exemplo, só as equipes de saúde que trabalhavam nos estádios eram compostas por 120 pessoas e mais 3 mil voluntários. Aqui no Brasil, precisaremos de pessoal não apenas para trabalhar nos estádios oficiais, mas também nos locais de treino e em outros pontos de alta concentração de pessoas, como o Vale do Anhagabaú, em SP.”

Entre os participantes do curso estava o diretor de divisão e modernização do Serviço Móvel de Atendimento de Urgência (Samu) de São Paulo, Claus Zeefried. Ele nunca trabalhou em uma Copa, mas tem larga experiência em eventos esportivos. É ele quem traça as estratégias de atendimento da Fórmula 1, da Parada Gay e de grandes shows que ocorrem na capital paulista.

Leia a entrevista com ele

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