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Membro do estudo que baseou decisão europeia e americana de banir emagrecedor diz que decisão seria injusta com alguns pacientes

Para um dos coordenadores do estudo que baseou a decisão de proibir o uso de um dos remédios mais populares no tratamento da obesidade na Europa e nos Estados Unidos, foi radical demais.

Christian Torp-Pedersen, cardiologista do Gentofte Hospital e professor na Universidade de Copenhagen, na Dinamarca, defende que a sibutramina continue sendo comercializada. Na opinião do pesquisador, banir o medicamento significa privar muitos pacientes de benefícios que não poderiam ser obtidos de outra forma.

O dinamarquês apresentou os resultados do estudo “Sibutramine Cardiovascular Outcome Trial – SCOUT”, publicado em setembro do ano passado, para médicos brasileiros e técnicos da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) na manhã desta terça-feira (14) em Brasília.

Durante todo o dia, a eficácia e a segurança dos inibidores de apetite serão alvo de debates no órgão, que quer banir a comercialização desses medicamentos no País. Ainda não há data definida para a decisão final da entidade, mas especialistas no tratamento da obesidade já se posicionaram contra a medida.

A polêmica iniciada no Brasil se baseia nos resultados que assustaram as autoridades de outros países e no consumo de emagrecedores no País – o maior consumidor da substância no mundo. Dados da Anvisa mostram que quase duas toneladas de sibutramina foram comercializadas no País em 2010, número que se repete desde 2009. Para a agência, os pacientes brasileiros correm riscos.

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O SCOUT, estudo realizado com mais de 10 mil pacientes, mostrou que houve aumento de casos de infarto e derrame em pacientes que possuíam doenças cardiovasculares e usavam o remédio. Torp-Pedersen esclarece, no entanto, que o perfil dos pacientes analisados pela equipe que coordenou o SCOUT não é o mesmo daqueles que deveriam tomar o medicamento.

“A população do estudo era formada por pessoas que tinham doenças cardiovasculares. A sibutramina não deve ser utilizada por esses pacientes. O uso prolongado do remédio nesses pacientes aumentou a chance de infarto em 16% dos casos”, afirmou.

“O médico deve avaliar cuidadosamente a indicação da sibutramina e tentar outras alternativas antes da prescrição, mas tirá-la do mercado é injusto com os pacientes que têm um risco pequeno e não conseguiram emagrecer de outras formas”, analisa.

Consumo exagerado

Para Torp-Pedersen, a Anvisa está certa em se preocupar com o consumo do inibidor no País, que ele concorda ser exagerado. No entanto, o pesquisador defende que os médicos tenham a liberdade de avaliar riscos e benefícios para cada paciente.

“Para o paciente com o perfil analisado no SCOUT, o risco de ter infarto depois da sibutramina aumenta 0,2% ao ano. Esse risco pode ser menor que os benefícios em pacientes mais saudáveis”, diz. O pesquisador dinamarquês lembra ainda que outros medicamentos disponíveis nas farmácias – e sem controle – são tão prejudiciais quanto a sibutramina e não se discute suspendê-los.

“O diclofenaco oferece um risco muito maior e é vendido sem receita, está no mercado mundial. Se quiserem proibir a sibutramina, deveriam remover outros medicamentos do mercado também”, defende. Na opinião do cardiologista, os resultados do estudo realizado durante seis anos em 11 países permitem que, hoje, médicos e pacientes possam discutir melhor riscos e benefícios para cada caso.

Se houvesse financiamento, Torp-Pedersen conta que repetiria o estudo, excluindo os pacientes que não perderam peso da amostra. Em um tratamento contra a obesidade, a recomendação é que o medicamento seja suspenso caso não demonstre resultados. No SCOUT, os participantes da pesquisa continuaram tomando o remédio. Além disso, as diretrizes de tratamento brasileiras limitam o uso dos inibidores de apetite por dois anos. A pesquisa mostrou que a perda de peso média dos pacientes foi de 2,6 kg em 3,4 anos de estudo.

Outros inibidores

O painel científico promovido pela Anvisa também debate a proibição da venda de outros remédios usados nos tratamentos para emagrecer: femproporex, mazindol e dietilpropiona. Na opinião do médico dinamarquês, as anfetaminas não devem ser usadas contra a obesidade, por causa dos efeitos colaterais psíquicos e o aumento do risco de problemas cardíacos.

Após as discussões, um relatório será produzido e enviado à diretoria colegiada da Anvisa, que decidirá o futuro dos inibidores de apetite no Brasil. Ainda não há data para que uma conclusão seja apresentada, mas a Anvisa quer uma definição rápida sobre o tema.

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