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Valdir Soares perdeu 170 quilos (ainda sobram 160) com dieta e só agora pode fazer cirurgia.

A balança já chegou a registrar 330 quilos. Em uma casa de três cômodos em Goiânia (Goiás), Valdir Soares, 35 anos, só conseguia ficar sentado e mexer o maxilar para mastigar repetidas vezes o arroz, feijão, lingüiça frita e farofa. Estava preso em sua condição mais do que mórbida, chamada pelos médicos de superobesidade.

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Foram 8 anos sem colocar o nariz para fora do quarto, ao som de música sertaneja, sem poder usar uma calça jeans, tomar banho sozinho e amarrar o tênis. Agora, 12 meses após o início do tratamento no Hospital Geral de Goiás (HGG), Valdir pode ter acesso às evoluções da medicina que facilitaram a batalha de quem luta contra a doença dos quilos extras.

“Pude fazer a minha primeira cirurgia plástica. O bisturi retirou quatro quilos de pele de uma perna só. Começo a voltar a vida”, conta.

Em um ano, este paciente perdeu 170 quilos só com dieta e reeducação alimentar. Agora, o homem de 1,75 de altura e ainda 160 quilos pode ser submetido às técnicas cirúrgicas. Para isso, ficou internado 9 meses já que todo seu organismo estava comprometido pelo peso exagerado. No hospital, as refeições tinham no máximo 800 calorias diárias e ensinaram o paladar de Valdir a gostar de legumes em vez de lingüiça, receita que ele não esqueceu nestes seis meses que está em alta hospitalar.

Valdir Soares antes e depois de perder mais de 100 quilos. As fotos foram tiradas por sua amiga nutricionista que agora o ajuda a continuar emagrecendo
Reprodução
Valdir Soares antes e depois de perder mais de 100 quilos. As fotos foram tiradas por sua amiga nutricionista que agora o ajuda a continuar emagrecendo

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Epidemia nacional

Enquanto Valdir emagrecia para virar obeso, um número cada vez maior de pacientes no País era internado por causa exclusiva da obesidade. Entre 2008 e 2010, mostram os dados do Ministério da Saúde levantados pelo iG Saúde , o aumento foi de 43%, passando de 4.856 casos para 6.947 pacientes.

Cláudia Cozer, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), explica que as internações por obesidade, em geral, precisam tratar de uma série de outras doenças. “São as complicações ou agravamento das comorbidades da obesidade, como diabetes , pressão arterial elevada , infarto , angina , câncer , acidente vascular cerebral , trombose , problemas ortopédicos, depressão , insuficiência cardíaca, arritmias ”, lista.

Todos estes agravos são ainda mais freqüentes, graves e descontrolados em pessoas que, como Valdir Soares, têm o índice de massa corpórea (IMC) acima de 55 – calculado por meio do peso dividido pela altura ao quadrado .

Enquadrados no conceito de superobesos – já que para ser obeso o IMC é de 35 - eles cresceram estatisticamente, no encalço da epidemia de obesidade que assola o mundo, e impuseram novos desafios aos cirurgiões especializados em redução de estômago (bariátrica).

“Todas as pesquisas realizadas no Brasil não classificam o paciente por grau de obesidade, sendo todos denominados obesos mórbidos. Em nossa experiência pessoal, em mais de 14.000 pacientes operados, o número de superobesos é de cerca de 6%”, afirma o cirurgião Luiz Vicente Berti, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e estudioso da hiperobesidade.

As diferenças

Segundo Berti, não há diferença em relação à técnica cirúrgica bariátrica empregada nos superobesos, mas há sim mudanças na preparação pré-operatória destes pacientes que não podem ser negligenciadas.

“Eles precisam primeiro perder peso (muito peso), melhorar suas condições respiratórias, cardiovasculares, metabólicas e psico-emocionais para então serem operados.” O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes e chefe do setor de endocrinologia do Hospital de Goiânia, Nelson Rassi acrescenta que “muitos têm infecção urinária e problemas de pele severos, porque a higiene fica comprometida por causa da superobesidade”.

“Todas estas situações precisam ser sanadas antes da operação para diminuir os riscos de complicações. Os superobesos precisam ficar internados para que o controle seja mais rígido e efetivo.”

4 pacientes e 800 quilos

Este tratamento de choque no pré-operatório dos superobesos, além de diminuir os danos físicos causados pela superobesidade, também tem de ser vacina para um efeito colateral após a bariátrica.

“Se durante esta dieta rígida e preparo para transformar a hiperobesidade em obesidade não for feito um trabalho nutricional e psicológico eficiente, eles voltam a engordar meses após a cirurgia”, afirma a nutricionista bariátrica Carina Rossoni, que atua em clínicas em Chapecó, Santa Catarina. “Não há fórmula mágica. A bariátrica é um instrumento do emagrecimento, não a garantia dele.”

Os superobesos, complementa o cirurgião de aparelho digestivo Ivanor Alba, têm uma vida pregressa de tantos traumas que todo o hospital precisa ser mobilizado para atendê-lo, diz ele que só este ano atendeu 4 pacientes que juntos pesavam 800 quilos. “Atendo uma adolescente de 17 anos e 200 quilos. Tenho o caso uma senhora de 55 anos e IMC 67. Antes de pensar em cirurgia, há de ser feito um trabalho importante com fisioterapeutas, psiquiatras, nutricionistas, assistentes sociais e com toda a família.”

Os números nacionais endossam mesmo o alto custo da obesidade que exige a internação. Em dois anos, a verba para custear os leitos ocupados pelos obesos aumentou 64%, de R$ 17,1 milhões em 2008 para R$ 28,1 milhões no ano passado.

Nesta conta só estão os custos da saúde, mas é sabido que o alcance do prejuízo da obesidade é maior. Uma das evidências é que a maior parte dos internados (36%) tem entre 30 e 39 anos, fase que em tese está a maior força produtiva de trabalho. Outro fato é que muitas vezes, para chegar aos hospitais, eles exigem a presença até do corpo de bombeiros, como conta o tenente Leonard Farah, do primeiro batalhão de Belo Horizonte (Minas Gerais).

“Somos acionados frequentemente para levar estes pacientes com mais de 160 quilos ao hospital. Eles exigem não apenas um resgate como se estivessem em áreas de difícil acesso, como uma delicadeza e sensibilidade no trato”, conta Farah. “Você deve imaginar o constrangimento de precisar de uma viatura para sair de casa, não é?”.

Três metas

Valdir Soares, enquanto tentava sustentar os seus 330 quilos, também andou na viatura dos bombeiros para chegar ao médico e temeu nunca mais sair de casa sem ajuda de outras pessoas. “Tinha medo da comida. Enchia o prato e ficava olhando para ele por horas, tentando resistir. Quando dava 16h, estava faminto e comia até não agüentar mais”, lembra.

Os 14 quilos que eliminou todos os meses em que ficou internado deram a segurança para ele aumentar o número de refeições e reduzir drasticamente as calorias. Ainda faltam 70 quilos para chegar ao peso que considera ideal, mas ele já comemora as três metas alcançadas com a nova forma. “Fiz muitos amigos (os primeiros verdadeiros de sua vida), voltei a andar sozinho e também já consigo tomar banho sem ajuda de ninguém”.

Ele - que parou de estudar aos 19 anos quando a balança bateu 142 quilos -  pretende voltar ao colégio e ter uma profissão. Não são só estes os sonhos. As modas de viola que tanto embalaram a sua solidão imóvel imposta pela obesidade agora incentivam o futuro pé de valsa a aprender a dançar.

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