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Com 96% de álcool, bebida apreendida em São Paulo é altamente tóxica e compromete fígado e cérebro

Uma perigosa mistura artesanal de etanol (o mesmo vendido em postos de gasolina), pigmento e doçura similar à groselha e corante tentou ganhar as ruas de São Paulo durante a Virada Cultural, no último final de semana. Felizmente, boa parte da bebida foi apreendida por fiscais da prefeitura .

Mais de 17 mil litros do chamado vinho químico foram encontrados com vendedores ambulantes, apesar da prefeitura ter proibido o comércio de bebidas alcoólicas no evento . A bebida era oferecida em garrafas de plástico com valor entre R$ 1,5 e R$ 10.

O que assusta é a quantidade elevada de etanol, que representa 96% da mistura. Esse índice supera o teor alcoólico de bebidas fortes como a cachaça, que tem de 38% a 54% de álcool no Brasil. A graduação máxima permitida por lei, de acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), é de 54%.

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“Isso é uma bomba para o organismo”, afirma a gastroenterologista Mônica Valverde Viana, do Hospital do Servidor Público Estadual (Iamspe).

Se comparada a outras bebidas, a discrepância é ainda maior. Vodca e uísque variam o teor alcoólico entre 40% e 50%. Um vinho de verdade apresenta em torno de 12%, enquanto uma cerveja pilsen, o tipo mais consumido no país, contem entre 4,5% e 5% de álcool.

Parada gay

Não é a primeira vez que o vinho químico é apreendido pela prefeitura de São Paulo. Ano passado, na Parada GLBT, a polícia apreendeu dezenas de litros da bebida e parte dela foi encaminhada ao Instituto Adolfo Lutz para análise.

O instituto constatou a elevada graduação alcoólica e confirmou seu poder destrutivo ao organismo. Ele pode causar convulsões, desmaios e até morte, mesmo se ingerido em pequena quantidade.

A graduação alcoólica elevada, superior a algumas marcas de álcool de limpeza, é disfarçada com corantes e groselha. “A toxicidade é muito alta e pode danificar fígado e cérebro”, alerta Mônica. Uma lesão no fígado, por exemplo, requer o consumo de 40g de álcool por dia, durante cerca de cinco anos.

“Isso equivale a uma dose (50ml) do vinho químico”, mostra a médica. Mas o estrago deve aparecer muito antes, por vários motivos como ingestão elevada e presença de impurezas na bebida".

“A resistência das mulheres é muito menor, metade da resistência de um homem saudável”, aponta Mônica. Isso porque, no caso das mulheres, a presença de determinadas enzimas é menor no organismo – elas são responsáveis por metabolizar a bebida alcoólica.

Quem tem gordura no fígado também está mais vulnerável aos estragos do vinho químico. “A gordura no fígado atinge pessoas com síndrome metabólica, aquelas que estão acima do peso, tem níveis altos de triglicerídeos, circunferência abdominal elevada, baixo índice de colesterol ruim ou glicemia em jejum alta”, aponta a médica.

Parte do produto apreendido pela prefeitura foi encaminhada para análise. O restante do conteúdo foi descartado.

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