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Sequelas da radioterapia na voz têm tratamento. Fonoaudiologia recupera as cordas vocais prejudicadas por tumores na região

Nilton fez da fonoaudiologia diária uma forma de vencer o isolamento social. Com apoio da mulher
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Nilton fez da fonoaudiologia diária uma forma de vencer o isolamento social. Com apoio da mulher
Aos 8 anos de idade, no interior de Pernambuco, ele deu a primeira pitada no cigarro de palha. Com a mesma idade, provou uns tragos de pinga oferecidos pelo próprio pai. Teve os dois maços e meio litro da bebida alcoólica como companhias diárias até apagar as velas do aniversário de 50 anos.

O câncer na garganta, língua e esôfago – consequências do duplo vício – quase condenaram Nilton Armando dos Santos ao silêncio e à solidão.

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Quando atinge alguma região da cabeça ou do pescoço – boca, língua, garganta, faringe, laringe e esôfago – o tumor maligno não é a única sequela do tabagismo e do hábito de beber cotidianamente.

O tratamento para a doença – que consiste principalmente em quimioterapia e radioterapia – pode enrijecer os músculos responsáveis pela voz e pela deglutição. A cirurgia, se necessária, pode mutilar os mecanismos que participam destes processos.

O paciente, sem fala e sem conseguir comer direito, precisa de terapia específica de fonoaudiologia para vencer a doença e também para superar as barreiras do isolamento.

“A nossa sociedade é habituada a eventos sociais relacionados à fala e à alimentação”, define a fonoaudióloga Isabella Neto, especializada em tratar pacientes com câncer.

“Bolo de aniversário, sair para tomar um cafezinho, almoços de domingo, tudo isso pode ficar comprometido sem a terapia vocal, com severos efeitos psicológicos.”

Nilton, hoje aos 70 anos e ainda em tratamento para um recém descoberto câncer na próstata , sabe descrever com expressões faciais a angústia que foi ficar quase três meses sem conseguir emitir um único som. E hoje, após três anos de tratamento intenso com a fonoaudióloga Isabella, ele já consegue falar em bom tom a importância da ciência da voz para o tratamento do câncer.

“Só posso dizer que é ótimo e vital. Eu voltei a viver depois que consegui falar de novo para a minha Helena – sua mulher há 47 anos – que ela é a joia da minha vida”, completa, com olhar apaixonado.

Estudo: Seis mil devem ter o mesmo câncer de Lula em 2012

O tratamento

Ba-be-bi-bo-bu (repete três vezes); Ra-re-ri-ro-ru (quatro vezes); “Manda um beijo com os dois lábios apertados”; “Imagine que comeu algo bem azedo e faça uma careta”.

Não são tarefas simples para quem apresenta paralisia facial, rouquidão, voz robótica e atrofiamento da língua, descreve o presidente da Academia Brasileira de Laringologia e Voz, José Eduardo Cardoso, se referindo a alguns sintomas nocivos do tratamento anticancerígeno para as áreas da cabeça e do pescoço.

“A primeira meta após o tumor maligno ser diagnosticado é a cura deste problema. Mas após a quimioterapia, a radioterapia ou a cirurgia reverterem ou controlarem o câncer, é preciso cuidar do rastro de sintomas que a terapêutica deixa”, explica o especialista.

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Helena fez um altar em casa para a recuperação do marido:
Tricia Vieira / Fotoarena
Helena fez um altar em casa para a recuperação do marido: "Rezeva todos os dias para ter o Nilton de volta. Queria ouví-lo mais uma vez"
“Sabendo que as taxas de sobrevivência do câncer estão cada vez mais altas, tratar a doença se tornou importante como cuidar dos efeitos colaterais”, acrescenta a especialista em voz do Hospital AC Camargo, referência em oncologia, Elisabete Carrara.

O pernambucano Nilton, sobrevivente do câncer há duas décadas, reuniu todos estes efeitos colaterais.

“Ele não sorria mais porque não conseguia mexer uma das partes da boca. Não contava mais as piadas que tanto alegravam o nosso quintal. Parou de frequentar o salão da igreja por vergonha da voz de pato que surgiu depois dele ficar mudinho por tanto tempo. Eu tinha muita saudade do marido que se perdia naquela solidão”, lembra dona Helena.

“Eu agradecia diariamente por ele estar vivo. Mas nas orações no meu altar, pedia à Nossa Senhora e ao São José para trazer um pouquinho do meu Nilton de volta.”

Ginástica e cantoria

O sotaque típico de Pernambuco, aos poucos, voltou a ecoar na casa da zona sul paulistana onde o casal Nilton e Helena mora desde que se apaixonou – à primeira vista. Ele, depois que passou a fazer a ginástica da voz prescrita pela fonoaudióloga, foi recuperando o timbre, o jeito de sorrir e a forma de falar. Mesmo após descobrir tumores em outras partes do corpo, não deixou de lado a fonoaudiologia.

“Os exercícios são estipulados de acordo com o perfil de cada paciente. Além disso, ajudamos na escolha dos alimentos. Principalmente quem é submetido a radioterapia e quimioterapia sem cirurgia (como é o caso de ex-presidente Lula) precisa reaprender a engolir e, inicialmente, ter uma dieta mais pastosa. Um dos riscos, por exemplo, é a comida não seguir o caminho correto e ir para o pulmão, o que pode resultar em engasgos sérios e até a morte”, alerta a fonoaudióloga Isabella.

Para os pacientes do AC. Camargo, a especialista Elisabete usou a música como forma de recuperar a voz e também de resgatar alguns macetes que seus pacientes usavam para engolir antes do tratamento.

“A ideia deu tão certo que montamos um coral. Hoje participam 10 pacientes. A meta é chegar a 50 participantes este ano, inclusive com pacientes que tiveram que retirar toda a laringe.”

Asa Branca e Paixão

No final do ano, o coral de pacientes apresentou ao público a canção “Como é grande o meu amor por você”, uma das preferidas de Nilton. Ele agora também se arrisca a voltar a cantar – ele conquistou Helena dançando Asa Branca em uma festa junina. Hoje, ele entoa baixinho os versos da cantiga "Paixão" no ouvido dela. Arrisca, em especial, os seus versos prediletos: “Tens uma beleza infinita, e a boca mais bonita que a minha já tocou.”

Hoje Nilton já consegue até cantar e recitar versos de música para a esposa Helena
Tricia Vieira / Fotoarena
Hoje Nilton já consegue até cantar e recitar versos de música para a esposa Helena

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