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Estudos se multiplicam pelo País e prometem ser nova arma de defesa contra a doença

Pele artificial (em solução cor-de-rosa) e pele em emulsão fotoativa (verde): esperança contra o câncer
Chris Bertelli/iG São Paulo
Pele artificial (em solução cor-de-rosa) e pele em emulsão fotoativa (verde): esperança contra o câncer

As nanopartículas, moléculas 90 mil vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo, são a grande aposta da ciência para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais de uma das doenças mais temidas da atualidade: o câncer.

Aliando a fotodinâmica – aplicação de luz no combate às células cancerígenas, uma técnica largamente utilizada desde 1970 em outros países – à nanotecnologia, cientistas brasileiros têm obtido índices de cura de 95% em testes com animais tratados por câncer de pele. A associação entre essas duas terapêuticas têm sido a chave do sucesso.

A previsão do Instituto Nacional do Câncer (INCA) é de que, só este ano no País, 113.850 brasileiros desenvolvam câncer de pele não melanômico – uma forma menos agressiva da doença, que é mais comum em pessoas com mais de 40 anos e em brancos.

“Já estamos em fase clínica, mas esse tratamento, para ser administrado, depende da autorização do Comitê de Ética em Pesquisa", explica Antonio Claudio Tedesco, coordenador do Centro de Nanotecnologia da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto.

"Seu tamanho ínfimo permite que as partículas penetrem com maior especificidade e seletividade usando quantidades infinitamente menores de remédio, com menos danos aos tecidos normais", diz.

Com isso, ganha-se eficiência já que é possível atuar em uma área maior. “Fazendo um paralelo com grãos de areia, quanto menor for o tamanho, maior será a quantidade de grãos possível de inserir em algum lugar”, explica Tedesco. “O resultado é maior e não há efeitos adversos”, afirma Cassilda da Silva de Souza, coordenadora de dermatologia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

A primeira etapa está no composto fotoativo, que pode ser feito quimicamente ou, de acordo com novas pesquisas, extraído da clorofila de plantas como o espinafre, por exemplo. A matéria-prima é encaminhada ao Centro, onde recebe tratamento nanotecnológico e é transformada em creme.

Essa emulsão é aplicada no local da lesão cancerígena. Duas horas depois, as moléculas viram fotoativas, ou seja, passam a ser capazes de absorver luz. Neste momento, a região é irradiada com laser (luz vermelha), a molécula reage com o oxigênio formando um radical livre, que vai desencadear a morte da célula doente.

“O que a terapia fotodinâmica descobriu é que produzir grande quantidade de radical livre em uma única célula com câncer vai levá-la a morte”, relata Tedesco. “O efeito é o de uma queimadura solar. A célula sofre um edema e o processo inflamatório mata aquela célula, que é removida, dando lugar a uma nova.”

O mecanismo de ação não consegue migrar de uma célula para outra, tornando esse método seguro e sem efeitos colaterais. As células sadias vizinhas têm um funcionamento próprio de proteção e não morrem. A única recomendação é que o paciente evite a exposição ao sol nas 24 horas após a aplicação e que faça um acompanhamento frequente da lesão.

Mas o tratamento tem suas limitações e a principal delas é o estágio em que o câncer se encontra. “Não é indicado para câncer com metástase, nem para tumores com mais de três centímetros. Além disso, não tem efeito se utilizado sobre o melanoma. A cor preta dessas lesões, tonalidade que absorve todos os comprimentos de onda, torna impossível ativar o fármaco”, diz Tedesco.

Segundo Cassilda Souza, a gama de tumores de pele tratáveis por esse método é de no máximo 30%. “Há essa limitação porque nós utilizamos a droga mais a luz e a pele tem um bloqueio natural contra a ação da luz. Dessa forma, temos uma parte controlada, que é a do medicamento, e outra não, a da luz.” Outro ponto salientado pela dermatologista é a questão do tratamento único. “Acho complicado usar uma terapêutica localizada em uma doença que pode estar também em outros lugares do corpo”, afirma.

Outras aplicações

A Universidade de Brasília estuda a mesma técnica, mas para o tratamento do câncer bucal. A metodologia e os utensílios são os mesmos, só muda o objetivo. A pesquisadora Maitê Cevallos Mijan há cinco anos faz parte dos estudos, que logo serão testados em humanos.

"Estamos tentando autorização com o Comitê de Ética em Pesquisa para introduzir o atendimento nos hospitais universitários", diz.

"In vitro (em tubos de ensaio, no laboratório), a terapia reduz 99% das células cancerígenas. In vivo (no organismo vivo), a resposta é muito boa. Cerca de 80% das células morrem e as células de defesa são estimuladas a trabalhar a longo prazo", relata.

Em 10 anos de estudo foram tratados cerca de 600 pacientes nos ambulatórios localizados em São Paulo, Brasília e o mais recente, na Amazônia. O número é considerado pequeno. “É pouco. Aqui, consigo desenvolver toda a parte de produção, caracterização e desenvolvimento de novos fármacos. Depois disso, faço os estudos pré-clínicos, valido em animais e in-vitro, mas preciso de uma parceria para desenvolver a área clínica. Sem essa parte, a pesquisa não vale”, explica o coordenador.

Futuro

Os bons índices alcançados e uma nova parceria com uma empresa de São Carlos, no interior paulista, vão permitir o início dos estudos da utilização dessa técnica no tratamento dos cânceres de próstata, útero e bexiga. O remédio é injetado no local, aguarda-se um tempo determinado e aplica-se a luz com o auxílio da fibra ótica.

Outra linha que começa a ser pesquisada pretende dar conta dos grandes tumores. “Algumas substâncias, quando em escala assim tão pequena, passam a apresentar características muito interessantes como o superparamagnetismo (transformam-se em pequenos imãs na presença de um campo magnético). Esses nanoimãs unidos a um corante fotossensível, em vez de produzir radical livre para matar o tumor, produzem calor, que terá o mesmo efeito”, relata Antonio Claudio Tedesco. Os estudos estão em fase animal.

Outra pesquisa semelhante prevê a injeção desses nanoimãs via intra-venosa. Um campo eletromagnético externo é criado e reúne o remédio em um único local. Depois disso, a luz é aplicada e o remédio faz efeito. Essa área vem sendo desenvolvida pela UnB.

“Nossa função é fazer pesquisa e não industrializar isso. Sempre tem alguma coisa nova na área da pesquisa e precisamos continuar, seguir adiante”, diz Tedesco.

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