Tamanho do texto

Turismo de saúde trouxe 180 mil “gringos” em três anos; eles exigem consulta de qualidade, passeios típicos e até lençol egípcio

A espanhola Luisa Garcia veio ao Brasil fazer três implantes dentários e ainda aproveitou a viagem para conhecer um pouco do País. “Paguei menos da metade do preço no tratamento e também pude passear bastante”, afirma ela.

Atendimento a preços menores e combinados aos passeios de lazer. Essa tem sido uma oferta de turismo cada vez mais comum no exterior, que consegue conquistar principalmente pacientes em busca de procedimentos eletivos (não urgentes).

Hospitais se especializam no atendimento de estrangeiros
Getty Images
Hospitais se especializam no atendimento de estrangeiros
É justamente por isso que cirurgias plásticas e tratamentos odontológicos lideram o ranking do turismo de saúde no país. Eles são seguidos pelos atendimentos ortopédicos, cardiológicos e neurológicos. Ao todo, o setor registrou a visita de 180 mil pacientes nos últimos três anos, de acordo com o Ministério do Turismo.

Em São Paulo, esses pacientes passam 3,3 dias em média e gastam US$ 8 com turismo para cada US$ 1 gasto com saúde. Segundo o São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPCVB), o turista de saúde já representa 18% dos hóspedes da cidade.

Os números impressionam e têm chamado a atenção dos setores público e privado, que se encontraram neste semana, em São Paulo, para discutir o assunto no I Medical Travel Meeting Brazil.

Hospitais unidos

De olho neste mercado, alguns hospitais estão unindo forças para buscar mais pacientes no exterior. São eles: Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Hospital do Coração – Hcor, Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Samaritano, Hospital Sírio-Libanês e Hospital Moinho de Vento.

A estratégia de trabalho está sendo negociada há cerca de um ano. Os hospitais querem atuar como um grupo, destacando as áreas de excelência de cada unidade e compartilhando pacientes nas especialidades em comum.

Para isso, todos estão investindo em departamentos específicos de turismo médico e também em certificados internacionais. A certificação comum no grupo de hospitais é emitida pela JCI (Joint Comission International), uma organização não-governamental que verifica determinados padrões para o atendimento de pacientes estrangeiros.

No Hospital Albert Einstein, por exemplo, um novo espaço exclusivo para o atendimento de estrangeiros deve ser lançado nos próximos meses. Lá, serão concentrados todos os serviços. Em 2009, o hospital recebeu 4.500 pacientes estrangeiros, sendo a maioria dos Estados Unidos, América Latina e Angola.

Logística especial

Mas não é só o atendimento médico que conta. “É preciso pensar em toda a logística da viagem”, resume Gilberto Galleta, gerente de relações internacionais do Hospital Sírio-Libanês.

É como se fosse uma viagem de passeio, que precisa ter planejado itens básicos como translado, estadia e alimentação. Mas no turismo médico existem agravantes. A realização de exames e a recuperação do paciente após a cirurgia podem impedir uma previsão precisa do tempo de estadia. “Geralmente, nossos pacientes precisam ficar de uma semana a 15 dias. Mas isso pode variar”, alerta Galleta.

Mesmo depois de ter alta, o paciente pode ter que aguardar alguns dias antes de voltar ao seu país. E, neste período, ele também pode precisar da ajuda do hospital para se organizar. “Já levamos um paciente até para fazer compras”, recorda.

Galleta explica que é preciso dar segurança ao paciente que se sente duplamente fragilizado: pelo tratamento delicado de sua doença e por estar fora de seu país, muitas vezes sem acompanhante. “Temos uma pessoa com o celular 24 horas por dia disponível”, afirma.

Às vezes, um pouco de luxo também é necessário. “Um paciente disse que queria dormir num lençol de fios egípcios. Fomos atrás e conseguimos o tal lençol”, conta.

Sensação de segurança

Para conquistar pacientes estrangeiros, o principal desafio dos hospitais e clínicas particulares é garantir uma sensação de segurança desde o primeiro contato. “Na agência de turismo, me deram uma lista de dentistas, com a experiência e a formação deles detalhada”, recorda Luisa, que veio em busca de implantes odontológicos.

Além disso, foi oferecido serviço de intérpretes e hospedagem juntos. “O preço dos procedimentos era fixo, mesmo antes dos exames. Isso foi me dando mais segurança”, comenta.

Setor promissor

No Hospital Sírio-Libanês, a maioria dos pacientes busca tratamentos de alta complexidade como oncologia, cardiologia, neurologia, urologia e ortopedia. No Hospital Albert Einstein, há procura também na área de transplantes.

“Cerca de 20% vem dos Estados Unidos, mas temos pacientes também da Argentina, Uruguai, Paraguai e Angola”, revela Galleta. O hospital já recebeu até um paciente da Ucrânia. “Usamos um notebook com software de tradução para se comunicar com ele”, recorda.

Já no Hospital Samaritano, há muita procura de estrangeiros por implantes cocleares, uma especialidade da instituição. Mas também são realizados atendimentos nas áreas de ortopedia e cirurgia cardíaca infantil. Ao todo, os estrangeiros representam 3% dos atendimentos.

A cardiologia também é bastante procurada no Hospital Oswaldo Cruz, onde 1% das internações é de pacientes estrangeiros. A maioria vem dos Estados Unidos, Alemanha, Venezuela, Chile e Angola. No HCor, que também possui a cardiologia como carro-chefe, teve 40% de aumento na procura por estrangeiros em 2009, e projeta para 2010 um aumento ainda maior, de pelo menos 50%.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.