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Levantamento do Hospital das Clínicas de SP sugere relação entre as doenças

O risco de problemas ósseos pode ser mais grave em pessoas com aids. Uma pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas de São Paulo sugere uma relação inédita entre as doenças, que seria consequência do próprio avanço no combate ao vírus.

“Como os pacientes estão vivendo mais com o HIV, novos problemas estão surgindo”, aponta Priscila Rosalba Domingo de Oliveira, infectologista do Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT) do HC.

O instituto revela que 17% dos pacientes em tratamento contra aids sofrem de problemas ósseos. “É uma incidência alta, que tem nos chamado a atenção”, comenta a médica.

Os especialistas suspeitam que alguns fatores influenciem essa relação, mas ainda é preciso investigar mais. “Pode ser que o vírus esteja se escondendo nos ossos”, sugere Priscila.

Esse comportamento do vírus já havia sido observado em outros momentos. É sabido que o HIV “se esconde” no sistema nervoso dos portadores, como forma de sobreviver aos tratamentos com antiretrovirais.

Com o vírus nos ossos, explica a médica, há suspeita de que ele altere o metabolismo natural de renovação deste tecido.

Outra possibilidade investigada é a influência dos próprios tratamentos antiretroviais. “Alguns efeitos nocivos desses tratamentos já são conhecidos, como a lipodistrofia (alterações da massa de gordura em algumas partes do corpo) e o aumento da incidência de problemas do coração”, afirma a infectologista. “As alterações ósseas podem ser outra consequência, algo que se manifeste em um prazo maior."

Sedentarismo e questões genéticas também podem influenciar a incidência do problema, acredita a médica.

Fêmur afetado

A grande maioria dos problemas ósseos acontece em pacientes que estão há mais de dez anos em tratamento contra o HIV. Há registro de osteopenia (diminuição da densidade mineral), osteoporose e osteonecrose.

A osteonecrose é a morte de determinadas regiões do tecido ósseo. “Em 61% dos casos de dor no quadril há osteonecrose”, revela a médica. Esse problema se caracteriza pela necrose na extremidade do fêmur (osso da perna) que se conecta à bacia.

“Com o tempo, a articulação vai sendo prejudicada e torna-se necessária uma cirurgia para implante de prótese (articulação artificial) no local”, explica. A cirurgia, contudo, é delicada.

As cirurgias são realizadas no Centro Cirúrgico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. “As dores iniciais não devem ser relevadas e sim investigadas”, a infectologista Ana Lúcia Munhoz Lima, também do IOT.

Os pacientes são encaminhados pela Casa da Aids do HC ou pelo Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP. Eles são atendidos por um ambulatório do IOT criado em março de 2006, local em que já foram realizadas cerca de 2.200 consultas. Hoje, são 400 pacientes fixos.

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