Risco de epidemia de dengue em 2011 é alto em 19 Estados

Após análise, Ministério antecipa em 45 dias plano contra surto; Situação pode ser revertida com prevenção, dizem especialistas

Fernanda Aranda, iG São Paulo | 01/09/2010 16:52

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O Ministério da Saúde elaborou uma nova ferramenta para projetar os casos de dengue no próximo ano e encontrou um cenário alarmante: 19 Estados estão com risco alto ou muito alto de epidemia da doença em 2011.

Além de mostrar que 70,3% da população do País moram em regiões com possibilidade de surto por infestação do mosquito Aedes aegypt –  transmissor da dengue – o mapeamento indica que em outros cinco Estados e no Distrito Federal a situação de risco de contaminação é moderada. Só estão fora da zona de perigo o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que historicamente têm apresentado situação controlada de transmissão de casos (veja abaixo).

Após a análise, o governo federal decidiu antecipar em 45 dias a mobilização nacional de combate à infecção.

Normalmente, os Estados e municípios são convocados em novembro, já que o verão costuma ser a época de maior incidência de contaminações pelo Aedes. Segundo o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, o inverno com dias quentes, as chuvas mais intensas e a expectativa de aumento para 2011 anteciparam as ações, que incluem repasse de verba de R$ 1 bilhão para ações de prevenção.

“Esperamos não acertar nesta previsão. A ferramenta que projeta cenários deve ser usada, justamente, para que os planos preventivos evitem a confirmação de epidemias”, afirmou o secretário de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, Gerson Penna.

“Os municípios que não estão contemplados como áreas de risco hoje, se deitarem em berço esplêndido, podem surpreender e entrar para a lista de risco”, afirmou o secretário.

Recordes

Para ser decretada situação de surto ou epidemia, o Estado ou município precisa registrar mais de 100 casos de dengue por 100 mil habitantes. O ano de 2010 já será conhecido como recorde de notificações. Desde julho, o boletim epidemiológico não é atualizado, mas os 482.284 casos confirmados no primeiro semestre superam em 158,7% o número do mesmo período de 2009, o maior desde 2003.

Os estados com maior incidência da doença durante o período foram o Acre (3.619,5 casos por 100 mil habitantes), Mato Grosso do Sul (2.521,1 casos por 100 mil habitantes), Goiás (1.353,1 casos por 100 mil habitantes) Rondônia (1.256,4 casos por 100 mil habitantes), Roraima (1.146,9 casos por 100.000 habitantes) e Mato Grosso (1.095,5 casos por 100 mil habitantes). Os Estados de São Paulo e Minas Gerais também se destacam pelo total de 187.460 e 182.789 casos, com incidência de 453 e 912,4 casos por 100 mil habitantes, respectivamente.

Um outro fato negativo que marca 2010 foi o reaparecimento do tipo 4 do vírus da dengue, que potencializa o risco de epidemias. Segundo os infectologistas, quando uma pessoa é picada pelo mosquito transmissor e é infectada por um tipo de vírus, ela fica imune apenas a ente tipo de contaminação. A circulação de uma nova variação, portanto, faz com que um maior número de pessoas fique suscetível.

No mês passado, o tipo 4 da doença foi confirmado em Roraima. De acordo com Temporão, todas as providências foram tomadas e não há indícios de que o tipo 4 tenha se espalhado na região.

“A situação é de controle, mas estamos em alerta, já que os casos foram importados da Venezuela e a relação deste país com o Brasil é intensa, tanto no fluxo de pessoas quanto no comércio”, afirmou o ministro.

Aprendizado

O vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Estado de Saúde (Conass), Hebert Motta de Almeida, diz que a antecipação de ações em 45 dias pode fazer com que a situação de dengue registrada no primeiro semestre não seja repetida nem agravada no próximo ano.

“Para isso, precisamos de uma articulação efetiva entre governos federal, estadual e municipal, além da participação da população”, avaliou. “Da mesma forma que precisamos envolver outros ministérios já que a ampliação do saneamento básico e da coleta de lixo são imprescindíveis para melhorar os casos de contaminação, o povo brasileiro precisa se conscientizar a não jogar lixo na rua, completou.

A Sociedade Brasileira de Infectologia cita como atitudes principais para evitar a dengue, além de não jogar lixo na rua, evitar água parada em recipientes, garrafas, pneus, além de fechar bem caixas d’água e psicinas.

Nova ferramenta

A situação da coleta de lixo e da cobertura de esgoto, pela primeira vez, foram levadas em conta para a elaboração do risco de dengue. A nova ferramenta usada pelo ministério, além destes dois fatores, leva em conta também a incidência de casos de dengue das regiões na última década, a presença de criadouros e ovos do mosquito, verificada por meio das visitas dos agentes de saúde, além da circulação dos tipos de vírus da dengue na região.

Até o ano passado, o mapeamento só era feito com base na presença do Aedes, procedimento feito por amostragem. Até 2009, 179 municípios faziam este controle e, diz o Ministério, agora serão 356. Com este aplicativo, é possível monitorar a situação não apenas de cidades, como de bairros e quarteirões. Em novembro, o índice de infestação estará pronto e o ministro Temporão não descarta recrutar exércitos e bombeiros para ajudar no combate do Aedes.

“Já capacitamos mil homens das forças armadas e no Rio de Janeiro fizemos parcerias com os bombeiros. Se for necessário, vamos contar com esta mão de obra”, declarou.

Esperança na vacina

A participação popular e “a lição de casa” dos gestores são as únicas armas disponíveis hoje, disse assessor do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems), Marcos da Silveira Franco. No futuro, as autoridades esperam contar com uma vacina antidengue. Artifício que, acreditam, deve mudar radicalmente a transmissão da doença. Por ora, os testes para a imunização estão em andamento. A Fundação Oswaldo Cruz informou que, ainda este ano, começam os testes das doses em humanos. A Fundação Butantan também estuda uma vacina.

 

Projeção de dengue para 2011

Risco muito alto de epidemia

Amazonas, Amapá, Maranhão, Piauí, Ceará, Bahia, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro

Risco alto de epidemia

Alagoas, Rio Grande do Norte, Pará, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Tocantins, Espírito Santos

Risco moderado

Rondônia, Acre, Roraima, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal

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