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Após 20 anos de fumo, contador conseguiu abandonar vício de uma só vez, quando foi pai, mas sucesso de cada método varia de pessoa para pessoa

Tabagismo, além de ser uma dependência química, também causa dependência comportamental e psicológica
Pixabay
Tabagismo, além de ser uma dependência química, também causa dependência comportamental e psicológica


Marcio Oliveira, de 56 anos, começou a fumar aos 17. Era moda na época, ele buscava autoafirmação e seu próprio grupo social acabava discriminando quem não era fumante. Após duas décadas, eram mais de dois maços de cigarro por dia. Até que chegou o primeiro filho.

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O pequeno Daniel vivia com problemas na garganta, e sempre que Marcio e a mulher o levavam para o médico, era a mesma pergunta: quem fuma em casa? “Eu me sentia bastante culpado por isso. Também teve um aumento na mensalidade da escola do meu filho que, na época, não cabia no orçamento. Precisava cortar alguma despesa. Foi quando tomei a decisão de parar de fumar .”

A primeira coisa que fez foi planejar a data para encerrar o hábito que estava prejudicando a própria família. Para Rosangela Vicente, psicóloga e coordenadora do Núcleo de Prevenção e Cessação do Tabagismo (PrevFumo) da Universidade Federal de São Paulo , o mais importante é a própria pessoa querer parar. “A mulher ou os filhos pedirem, por exemplo, é um incentivo, mas a pessoa precisa realmente querer.”

O grande dia de Marcio seria 31 de dezembro de 1993. O ano novo se aproximou, a festa reuniu toda a família e o contador fumou o derradeiro cigarro diante de todos. Seria o último, ele prometeu. E assim foi, de uma só vez.  “Nos primeiros dias, sofri muito com a ausência de cigarros. Ficava muito nervoso, não conseguia me concentrar em nada, dormia e sonhava que estava fumando.”

O tabagismo, além de ser uma dependência química causada pela nicotina, também é uma dependência comportamental e psicológica, por isso é tão difícil de largar.

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De acordo com a Dra. Jaqueline Scholz, cardiologista e diretora do Programa de Tratamento ao Tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (Incor), a maior parte das pessoas que decidem parar por conta própria fazem isso de forma imediata, assim como Márcio. “De cem que fazem uma tentativa como essa, porém, só cinco vão conseguir. É mais sofrido e a pessoa tem de estar muito motivada.”

O contador venceu o vício sem recaídas, mas não foi fácil: “O sofrimento foi tão grande que só de pensar em passar por tudo novamente é que eu tive forças para resistir à tentação de fumar novamente.”

Marcio Oliveira, de 56 anos, deixou de fumar porque seu filho Daniel passou a ter diversos problemas na garganta
Arquivo pessoal
Marcio Oliveira, de 56 anos, deixou de fumar porque seu filho Daniel passou a ter diversos problemas na garganta


Formas de parar

Mesmo aqueles que escolhem reduzir aos poucos a quantidade de cigarros por dia precisam, uma hora, interromper o vício e passar pela abstinência. Mas, caso não dê conta de fazer isso sozinho, é possível pedir ajuda a profissionais.

No PrevFumo, por exemplo, que é um tratamento gratuito, a equipe avalia o histórico do paciente, a motivação, as tentativas já feitas, se ele sofre de ansiedade ou depressão e até o estilo de vida que leva para escolher o melhor tipo de tratamento, com medicamento via oral ou adesivos. Na fase final, as pessoas são convidadas a frequentar encontros em grupo.

"No tratamento em grupo, trabalhamos todas as dificuldades do paciente. Mostramos como mudar o pensamento na hora que ele tem vontade de fumar. Porque, mesmo usando uma medicação, essa vontade vai continuar. O dia a dia dele continua igual, a única diferença é que ele não vai mais acender o cigarro”, afirma a psicóloga Rosangela.

“O mais difícil, desconsiderando a dependência química, é desvincular seu dia a dia do hábito de fumar. O fumante vincula certas coisas ao cigarro. Por exemplo, tomar um cafezinho e não fumar em seguida é quase impossível”, conta Marcio.

Já o tratamento do Incor contra tabagismo usa até mesmo a genética do paciente para escolher o melhor medicamento. “O uso de remédio dura, em média, 12 semanas. É o período em que a pessoa vai fazer a redução até a parada, e, no segundo e terceiro mês subsequentes, fazemos um reforço”, explica a cardiologista Jaqueline. A especialista alerta que não se recomenda a automedicação e que a orientação médica é essencial.

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Jaqueline ainda aponta que, apesar de muitos adotarem o método, cigarro eletrônico não é uma forma de tratar o tabagismo. “O indivíduo simplesmente fica viciado e dependente de outra forma de nicotina, no caso, o vapor. Ele apenas substitui o cigarro convencional pelo eletrônico. As pessoas falam que não têm monóxido, mas tem nicotina em alta concentração e isso também está relacionado a doenças.”

Os métodos são cada vez mais variados e simplesmente depende de cada um encontrar o melhor para seu organismo e seus hábitos. O mais importante mesmo é o resultado, que é parar de fumar. Que o diga Marcio, que, mais de 20 anos depois de ter passado por todo o processo para largar o tabagismo, hoje não precisa mais do cigarro como uma autoafirmação. “Minha autoestima ficou muito elevada", comemora. "Foi muito bom pra mim e para todos os que convivem comigo.”

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