Campanha anual do Outubro Rosa foi criada na década de 90 para conscientizar as mulheres sobre o câncer de mama
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Campanha anual do Outubro Rosa foi criada na década de 90 para conscientizar as mulheres sobre o câncer de mama

Outubro chega ao fim nesta segunda-feira (31) e, com ele, também se encerra a campanha de conscientização do câncer de mama deste ano. Apesar de muito se falar sobre a doença nessa época do ano, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que 57.960 novos casos sejam registrados só em 2016. Junto com o diagnóstico, surgem também muitas dúvidas.

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Será que vou suportar isso?

Therezinha de Jesus Rodrigues, de 53 anos, e Fabiana Monte, de 38, são pacientes de câncer de mama e afirmam que só quando uma pessoa recebe o diagnóstico e encara a doença é que vai saber quão forte é.

“Em relação à doença, a gente não tem escolha. Ou a gente encara ou ele (câncer) ganha”, contou Fabiana. O diagnóstico veio após uma brincadeira com o filho, que não tinha nem dois anos na época. Ela o jogou para cima e, quando ele desceu, pôde sentir um caroço.

Não foi fácil, ainda mais porque ela ainda é jovem para um carcinoma na mama. A doença é relativamente rara antes dos 35 anos, e a incidência cresce progressivamente a partir dessa idade, especialmente após os 50.

Já Therezinha descobriu um caroço no seio uma semana depois de ter ido em sua ginecologista. “Os exames deram normais, mas eu achei melhor voltar na médica”, disse.  Após receber o diagnóstico, ela ficou perdida. “Fala-se muito de câncer, mas a gente não se aprofunda.”

Vou precisar tirar minha mama?

De acordo com o Dr. Evandro Fallaci Mateus, do Hospital 9 de Julho, os tratamentos evoluíram muito nos últimos anos. “Hoje, quando se faz um diagnóstico precoce, até 90% das mulheres não precisam retirar as mamas.”

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Hospital 9 de Julho/ Divulgação

Para Therezinha, pior dia é o do diagnóstico, depois, a pessoa entra em uma "maratona"

É possível, agora, retirar apenas a parte onde está o tumor, evitando até grandes alterações estéticas na mulher.

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Nos outros casos, são vários fatores que podem indicar a necessidade de retirada total do seio, como o tipo do câncer, o estágio da doença ou alterações genéticas. “Mas varia muito. O tratamento é quase personalizado agora.”

Tratamentos

O paciente com câncer pode passar por três tipos de tratamentos: quimioterapia, radioterapia e a cirurgia. Mas como são diferentes tipos de câncer na mama, diferentes tamanhos e estágios, cada caso é diferente.

Fabiana brinca que teve o “pacote completo”. Primeiro, passou pela quimioterapia para que fosse possível reduzir o tamanho do tumor. O método atinge todas as células do corpo, inclusive as do tumor, e, por isso, acaba gerando efeitos colaterais em muitos pacientes.

“Foi mais tranquilo do que o normal. Eu passei a me sentir mais cansada e inchada só no final, daí eu pensava: se isso está me deixando cansada, imagina o que está fazendo para o tumor.”

A jornalista não deixou de ir para o trabalho e só faltava quando precisava ir ao hospital. Isso foi essencial para que mantesse o pensamento de que sua vida iria continuar. Fabiana chegou a perder os cabelos por conta da quimio, mas decidiu usar uma prótese capilar para que não fosse “olhada de forma diferente”.

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Em seguida, ela passou pela cirurgia e radioterapia, que, diferente da quimioterapia, afeta apenas a região onde está o tumor e não o corpo todo. Nessa fase, a paciente sentiu sua pele um pouco irritada.

No caso de Therezinha, os médicos acharam melhor fazer primeiro a cirurgia para retirada do tumor, e a quimioterapia foi dispensada. “Foi tudo muito rápido. Estava com medo do procedimento, mas tudo que eu queria é que tirasse o tumor logo.”

Depois disso, foram três meses de “vida de madame”, como brincou seu médico. Ela também fez a radio e, a partir de agora, vai tomar remédios ao longo de cinco anos para controle da doença.

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Hospital 9 de Julho/ Divulgação

Fabiana Monte passou por uma quimioterapia, cirurgia na mama e radioterapia após diagnóstico

Dra. Bárbara Murayama, coordenadora de ginecologia do Hospital 9 de Julho, explica também que a equipe responsável pelo cuidado com o paciente não se restringe apenas ao mastologista ou oncologista, mas também é formada pelo ginecologista, que em muitos casos é o primeiro a verificar que há algo de errado com a mama, os radiologistas, psicólogos, enfermeiros e até o porteiro e os atendentes do hospital, que vão receber os pacientes.

Tratamentos alternativos

Os especialistas afirmam que nenhum tratamento pode substituir os três métodos principais: quimioterapia, radioterapia e cirurgia. O que é saudável é complementar estes cuidados médicos com terapias e atividades que podem até ajudar a minimizar os efeitos colaterais.

De acordo com Dr. Evandro, não há estudos que comprovem a eficácia disso, mas a prática de meditação, por exemplo, pode ajudar o paciente a passar por essa fase de vida de uma forma mais tranquila.

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Além disso, a fé também pode ajudar neste momento – no caso das pessoas que seguem uma religião ou crença. Por isso, o médico que vai acompanhar o quadro deve ter a consciência de que precisa aceitar as crenças do paciente.

Já a prática de esportes pode ajudar até mesmo a evitar algumas dores. Se a pessoa praticava alguma modalidade antes do tratamento, o melhor é voltar o quanto antes. Quem não tinha o hábito deve procurar uma atividade física que goste. É aconselhado também conversar com o médico para saber se não há alguma contraindicação.

Segundo o mastologista Bruno Mancinelli, já está comprovado que as mulheres que conseguem manter um peso adequado, com a prática de exercícios e uma dieta equilibrada,  após o tratamento têm duas vezes menos chance de recidiva, que é o reaparecimento da doença.

Como manter a positividade?

Quem conversa com Fabiana ou Therezinha consegue perceber uma alegria muito grande nas pacientes, independentemente da doença. Mas Fabiana afirma que nem sempre é possível manter a positividade.

“Não dá para ser hipócrita. Nós também ficamos com medo. Mas eu tive a sorte de encontrar médicos com quem o ‘santo bateu’. Todos me deram os esclarecimentos necessários e nada além do que eu precisava no momento. Eles souberam dosar as coisas”, explicou a paciente, que também tinha a família como “luz no fim do túnel”.

Fabiana e Therezinha fizeram parte de uma websérie disponível no YouTube em que contam suas histórias
Hospital 9 de Julho/ Divulgação
Fabiana e Therezinha fizeram parte de uma websérie disponível no YouTube em que contam suas histórias

Para Therezinha também foi importante encontrar um médico em quem confiasse. Ela afirma que o pior dia é o primeiro, quando se recebe o diagnóstico, mas depois a pessoa começa uma “maratona”.

Dr. Evandro concorda que encontrar um profissional em quem a pessoa confie é muito importante para o tratamento. Além disso, ter uma segunda opinião é até mesmo saudável. Mas o paciente com câncer deve saber que, quanto antes inicia o tratamento, maiores são as chances de cura. “Se o tumor está só na mama, as chances são de até 90%. Já quando se espalha para a região da axila, cai para 50%. A pessoa tem que ter em mente que o tempo é um grande aliado.”

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No caso da modelo Flávia Flores, que foi diagnosticada com um câncer de mama em outubro de 2012 e criou o projeto "Quimioterapia e Beleza", a segunda opinião foi essencial. “O primeiro médico me passou um cenário aterrorizante, queria tirar uma mama minha e me orientou a usar uma prótese de silicone por dentro do sutiã. Já a médica que deu a segunda opinião me falou sobre a reconstrução imediata e isso mudou minha vida”, contou Flávia. “A ideia de não ser mutilada mudou a forma que eu via o tratamento, me fez perceber que eu ia passar pelo câncer de uma forma melhor.”

Como a mãe de Flávia Flores foi junto com ela no dia do diagnóstico, ficou encarregada de contar à família sobre a doença. A modelo falou diretamente apenas para o filho, que na época tinha 20 anos. “A resposta dele foi: ‘Ah mãe, o Gianecchini teve um câncer pior do que o seu e já está fazendo novela de novo, vai dar tudo certo’.”

Vou perder meu cabelo?

Pode ser que sim, tudo depende do tratamento escolhido pelo médico.  E não tem problema ficar triste por isso, já que o cabelo é algo muito importante para feminilidade e autoestima de muitas mulheres.

Depois do choque inicial, a primeira coisa que Flávia quis saber era se o cabelo ia cair. Hoje, é fundadora de um banco de lenços. O Instituto Quimioterapia e Beleza recebe os produtos e, em seguida, os envia para mulheres que os solicitam pela internet.

Para que o momento seja menos traumático, muitas pacientes estão escolhendo reunir amigas e familiares para o momento de cortar os fios. E esta pode ser a hora de abusar dos lenços, que ainda estão super em alta na moda.

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Flávia Flores/ Divulgação

Flávia ficou com medo de ficar careca por conta do câncer, mas conseguiu fazer uma revolução com o projeto "Quimioterapia e Beleza"

Não há problema também em ostentar a careca, caso isso deixe a mulher feliz. Quem não se sente à vontade, assim como Fabiana, pode optar por uma prótese capilar ou então uma peruca.  Hoje, já existem também bancos de perucas para pacientes com câncer.

Pós-tratamento

Algumas mulheres vão ainda ter que manter uma medicação para controle da doença por um determinado período, normalmente entre cinco e dez anos, mas, depois de todo susto e da maratona de tratamentos, Fabiana só tem uma coisa em mente: cuidar do próprio corpo.

Ela entendeu a importância do autoconhecimento e tem uma maior preocupação com o próprio organismo agora. “Claro que dá preguiça de acordar cedo e ir fazer exercícios, mas a gente não tem que trabalhar todo dia? Então, se exercitar também.”

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Além disso, a jornalista passou também a dar maior valor para as coisas “simples da vida”. O trabalho acabou deixando de ser prioridade.

Já Flávia Flores descobriu que o tratamento não é um “bicho de sete cabeças”. “Isso vai passar e sua vida vai voltar ao normal. Fique perto da família e das pessoas que você ama. Isso é muito importante! Obedeça a  seu médico e não deixe de se arrumar. Perdemos os cílios, os cabelos, mas nunca podemos perder a autoestima.”

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