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Segundo estudo, as mulheres são quem mais tentam tirar a própria vida, mas são os homens as maiores vítimas do suicídio – ele anunciam menos que elas

Mortes por suicídios no Brasil aumentaram 12% em quatro anos; campanhas de prevenção ao suicídio são necessárias
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Mortes por suicídios no Brasil aumentaram 12% em quatro anos; campanhas de prevenção ao suicídio são necessárias

O número de mortes por suicídios no Brasil aumentou 12% em quatro anos, subindo de 11.736 casos em 2015, frente aos 10.490 registrados em 2011. Em um valor total, entre os anos de 2011 e 2016, 62.804 pessoas tiraram suas próprias vidas no País – sendo 79% homens. Logo, é evidente que o avanço do problema e a prevenção ao suicídio precisam ser repensados no Brasil.

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Os dados são do primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio, divulgado nesta quinta-feira (21) pelo Ministério da Saúde. A divulgação é uma das diversas ações decorrentes do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção ao suicídio .

O estudo revela ainda que, no Brasil, os idosos, de 70 anos ou mais, apresentaram as maiores taxas, com 8,9 suicídios para cada 100 mil habitantes. No entanto, segundo a diretora do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis e Promoção da Saúde, Fátima Marinho, em números absolutos, a população idosa vem aumentando.

Fátima lembra ainda que eles sofrem mais com doenças crônicas, depressão e abandono familiar e esse índice alto de suicídio entre idosos é observado no mundo todo.

No estudo, foi apontado que 62% dos suicídios foram causados por enforcamento. Entre os outros meios utilizados estão intoxicação e arma de fogo. 

Além disso, a proporção de óbitos por suicídio também foi maior entre as pessoas que não têm um relacionamento conjugal. Sendo que 60,4% das vítimas são solteiras, viúvas ou divorciadas e 31,5% estão casadas ou em união estável.

“Os homens casados se suicidam menos. O casamento é um fator de proteção para os homens e de risco para as mulheres”, disse Fátima, explicando que existe uma associação das tentativas de suicídio das mulheres com a violência intradomiciliar.

Alerta para o povo indígena

Entre 2011 e 2015, a taxa de mortalidade por suicídio no Brasil foi maior entre a população indígena, sendo que 44,8% dos suicídios indígenas ocorreram na faixa etária de 10 a 19 anos. A cada 100 mil habitantes são registrados 15,2 mortes entre indígenas; 5,9 entre brancos; 4,7 entre negros; e 2,4 morte entre os amarelos.

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Para Fátima, o alto risco de suicídio entre jovens indígenas compromete o futuro dessas populações, já que elas também há um alto risco de mortalidade infantil.

Segundo a secretaria especial de Saúde Indígena, Lívia Vitenti, existe um número alto de indígenas em sofrimento por uso álcool, disputas territoriais e conflitos com a família e com a população não indígena. Entre os jovenes, então, há falta de perspectivas de vida. Entretanto, o problema do suicídio indígenas não está distribuído por todo o território, sendo mais frequente entre os Guarani Kaiowá, Carajás e Ticunas.

Elas tentam mais, eles anunciam menos

As notificações de lesões autoprovocadas tornaram-se obrigatórias a partir de 2011 e elas seguem aumentando. Entre 2011 e 2016, foram notificadas 176.226 lesões autoprovocadas; 27,4% delas, ou seja, 48.204, foram tentativas de suicídio.

Outro dado levantado é de que as mulheres tentam mais o suicídio e os homens, que anunciam menos, são os que mais morrem tirando a própria vida.

Das 48.204 pessoas que tentaram tirar a própria vida entre 2011 e 2016, 69% era mulheres e 31% homens. A proporção de tentativas de suicídio, de caráter repetitivo também é maior entre as mulheres. Entre 2011 e 2016, daqueles que tentaram suicídio mais de uma vez, 31,3% são mulheres e 26,4 são homens.

O meio mais utilizado nas tentativas de suicídio foi por envenenamento, 58%. Seguido de objeto pérfuro-cortante, 6,5%; enforcamento, 5,8%.

Fatores de risco e proteção

Entre os fatores de risco para o suicídio estão os transtornos mentais, como depressão, alcoolismo, esquizofrenia; questões sociodemográficas, como isolamento social; psicológicas, como perdas recentes; e condições incapacitantes, como lesões desfigurantes, dor crônica e neoplasias malignas.

No entanto, o Ministério da Saúde ressalta que tais aspectos não podem ser considerados de forma isolada e cada caso deve ser tratado de forma individual.

Ainda de acordo com a pasta, a existência de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no município reduz em 14% o risco de suicídio. Existem hoje no Brasil 2.463 Caps em funcionamento.

Como a ocorrência de suicídio é grande entre os indígenas, ser indígena por si só já é um fator de risco, explicou Fátima. Pessoas que trabalham na agropecuária, que tem acesso a pesticidas, também são vulneráveis a cometerem suicídio por intoxicação.

Três estados concentram 23% dos casos

Os casos acontecem em quase todo país, mas a Região Sul concentrou 23% dos suicídios, entre 2010 e 2015. De acordo com Fátima, o alto nível de renda, a pouca desigualdade social e baixo índices de pobreza são características de municípios que concentram mais suicídios.

Ela explica, entretanto que, no caso da região Sul, existe a associação dos casos de suicídio com a agricultura, especificamente a cultura da folha do tabaco. Segundo Fátima, a folha verde do fumo pode causar uma intoxicação neurológica em quem mantém um contato muito próximo, “o efeito dessa intoxicação é chamada bebedeira da folha verde do fumo”.

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Além da região Sul e de áreas indígenas, esse levantamento sobre a prevenção ao suicídio revelou ainda que a região da divisa de São Paulo e Minas Gerais e o estado do Piauí também são pontos em que muitas pessoas tiram a própria vida.

* Com informações da Agências Brasil.

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