Rio
Roberto Moreyra / Agência O Globo
Reabertura acelerada da economia pode explicar o aumento no número de casos entre os mais jovens

Morador de Campo Grande, Thiago Monteiro, de 37 anos, seguiu à risca as recomendações contra a Covid-19 . Só após a desaceleração da pandemia no Rio e a flexibilização do isolamento social, foi que ele se sentiu mais confiante para retomar algumas atividades, como comprar um lanche na rua ou se exercitar, munido de máscara e álcool em gel. Na segunda metade de julho, no entanto, começou a ter febres intermitentes, e não hesitou: pagou por um exame na rede particular. O diagnóstico foi o que ele temia: positivo para o novo coronavírus (Sars-Cov-2).

Microdados do município do Rio mostram que, no último mês, a Covid-19 atingiu, sobretudo, adultos mais jovens, na faixa de 30 a 39 anos: eles foram 23,9% dos que adoeceram. E espalhou-se com diferenças significativas entre as regiões da cidade.

"Houve uma mudança no perfil da doença . No início, víamos a população mais idosa, um número maior de infectados e quadros mais agudos. Agora, começamos a ver mais jovens, achando que não são vulneráveis e estão nos bares, nas praias... E também aqueles que voltaram a circular, muitos a trabalho, seja num emprego formal ou informal. Com as pessoas mais expostas, a transmissão se mantém ativa, o que deve perdurar por algumas semanas ou até meses", afirma o infectologista Alberto Chebabo, da UFRJ.

Os números da prefeitura, atualizados até a última quinta-feira, dizem que 6.035 pessoas começaram a ter sintomas da doença no mês passado e testaram positivo. De acordo com os mesmos dados, óbitos ocorridos em julho tinham sido 393. Em relação a todo o período de pandemia, os casos representavam apenas 8,2% do total, e as mortes, 4,6%. Contudo, histórias como a de Thiago reforçam que os riscos continuam à espreita.

Na geografia do coronavírus , Campo Grande, onde o comerciante mora, registrou a maior quantidade de casos com início dos sintomas em julho (250). Com 71 óbitos, a área de planejamento onde fica o bairro, a AP 5.2, foi a que teve mais mortes ocorridas no mês passado — enquanto que, nas estatísticas de toda a pandemia, é a sexta colocada no ranking das dez subdivisões da cidade. Apesar disso, é comum ver gente circulando na região sem máscara, inclusive em meio a multidões como a que tomava o calçadão de Campo Grande na tarde da quinta-feira passada.

"Meu caso serve de alerta para essas pessoas", afirma Thiago, hoje já recuperado.

Preocupação no Centro

Aglomerações também têm sido comuns na Tijuca, segundo bairro em números totais de casos iniciados em julho (236). Nas imediações da Praça Saens Peña, as cenas da quinta-feira assustavam, de tão lotadas de pedestres e camelôs que estavam nas calçadas. Mas, quando analisada a proporção dos que adoeceram em julho, é o Centro que preocupa. Até as atualizações da semana passada, tinham sido 206 casos, 19,7% dos 1.047 que o bairro tinha registrado desde março — mais que o dobro da média da cidade, e muito acima dos registros de Copacabana (7,05%), Barra da Tijuca (7,41%) e Bangu (8,3%), alguns dos bairros que mais acumulam confirmações da Covid-19.

"Talvez esteja ligado à volta da circulação de pessoas relacionada à abertura de parte do comércio", afirma Tânia Vergara, presidente da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio .

Na região, segundo dados do CyberLabs, o isolamento social chegou a picos de 92% no início da pandemia . Na última semana de julho, ficou em 55%. É um Centro, hoje, de contrastes. O burburinho na Avenida Rio Branco e no Largo da Carioca vai, aos poucos, sendo retomado. Áreas residenciais, como a Rua Riachuelo, por vezes tem fila de gente para entrar no supermercado. Mas há trechos como o Arco do Teles, a Orla Conde e a própria Praça Quinze que ainda não são sombra do que já foram, de tão vazias.

"A cada dia percebo que tem mais gente na rua. Mas o movimento ainda está fraco, não chega à metade de antes", afirma a ambulante Rosália Carvalho, de 42 anos, que tem um carrinho de pão de queijo próximo ao Edifício Avenida Central.

Sem baixar a guarda

Outros bairros também têm proporções de casos em julho acima da média, como Anil (16,3%), Santa Teresa (14,5%) e Andaraí (14,5%). Já a Secretaria municipal de Saúde (SMS) ressalta a necessidade de atenção a bairros das zonas Norte e Oeste com áreas de maior vulnerabilidade social. E destaca que, naqueles locais com mais registros de casos acumulados desde o início da pandemia, os padrões agora são de estabilidade.

É o exemplo de Ipanema, com apenas 57 casos com sintomas iniciados em julho. Ainda assim o morador do bairro Dario Concentino, de 55 anos, adoeceu. Tinham sido quatro meses em isolamento, saindo de casa só para necessidades urgentes, como ir ao mercado. Mês passado, ele resolveu retornar a uma única atividade: a academia.

"Foi pôr o pé para fora de casa e, mais ou menos uma semana depois, comecei a ter febre, tosse e perdi completamente o olfato", conta.

Aos 27 anos, Danilo Freitas, morador de Realengo, acreditava que, passada a fase mais crítica da pandemia, nem contrairia mais a doença. Dois amigos com quem teve contato, no entanto, testaram positivo. Dias depois, era ele quem começava a se sentir mal.

"Engana-se quem acha que é hora de relaxar no uso de máscara e no isolamento social", diz Danilo, que não teve acesso ao teste da Covid, mas recebeu uma confirmação da doença por critério clínico.

Hoje passível de estar fora dos dados oficiais, casos como o dele devem ser contabilizados a partir de uma nova norma técnica da Secretaria de Estado de Saúde, em que esse tipo de diagnóstico entrará para as estatísticas. Com isso, a SMS informa que está revendo as confirmações da doença na cidade. E diz que, para melhorar o conhecimento sobre o número de pessoas já expostas à Covid-19, ampliou a população alvo para realização de testagem rápida em suas unidades de Atenção Primária, assim como aumentou a oferta do exame pelo método RT- PCR e passou a oferecer o exame de sorologia Covid-19.

Já quanto ao movimento em bairros como a Tijuca, a Guarda Municipal diz que atua diariamente, com a operação especial “Blitz da Vida”. Até 6 de agosto, foram 201 autuações em casos flagrantes de aglomeração .

Riscos na Região Serrana do estado

No interior do estado, há cidades com mais de 40% dos casos de coronavírus com sintomas iniciados em julho. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES), das 1.563 pessoas que testaram positivo até o último sábado em Nova Friburgo, na Região Serrana, 742 (47,5 %) adoeceram no mês passado. Em Teresópolis, são 42,8%, ou 1.235 das 2.885 confirmações. Em bandeira vermelha, Friburgo mantém restrições ao comércio, que só funciona de segunda a sexta, das 12h às 18h, com um cliente para cada funcionário.

Já em Teresópolis, 27 dos casos iniciados em julho resultaram em morte. A Serra é uma das quatro regiões de saúde do estado que estão classificadas na bandeira laranja, de risco moderado.

As demais são o Noroeste Fluminense, a Baía da Ilha Grande e a Baixada Litorânea — esta regrediu da amarela (risco baixo) com a evolução de casos e mortes em meados de julho.

Pelo boletim de domingo do consórcio de veículos de imprensa, formado por “O Globo”, EXTRA, G1, “Folha de S.Paulo”, Uol e “O Estado de S. Paulo”, que reúne informações das secretarias estaduais de Saúde, o Estado do Rio contabiliza 178.850 casos e 14.080 mortes desde o início da pandemia da Covid-19 .

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