Rio
Gabriel de Paiva/Agência O Globo
Alteração na análise fez com que a média móvel de óbitos subisse por mais um dia no Rio de Janeiro

Uma mudança no critério para a confirmação do diagnóstico da Covid-19 tornou-se tema central no debate sobre o aumento do  número de casos e mortes pelo novo coronavírus no Rio. Desde o início do mês, a notificação da doença, antes feita apenas mediante o teste molecular (RT-PCR), passou a ser mais abrangente, aceitando também avaliações clínicas e exames de imagem, por orientação do Ministério da Saúde.

O governo do estado e a prefeitura dizem que a alta nos óbitos, nos últimos dias, é reflexo da aplicação dos novos parâmetros. A distorção entre as estatísticas oficiais e o discurso do poder público — assegurando que os indicadores estão estáveis ou em queda — lança dúvidas sobre o quadro real da pandemia no Rio .

Com as novas regras, o estado registrou nesta terça-feira (25), pelo sexto dia seguido, alta na média móvel de mortes : 119 óbitos por dia, um aumento de 89% em relação a 14 dias atrás. Em 24 horas, foram 168 óbitos, e o total chegou a 15.560 mortes desde a chegada do coronavírus no estado.

Já a Secretaria municipal de Saúde registrou nesta terça 9.404 óbitos na cidade e 87.748 casos da doença. Em 24h, foram 88 mortes e 584 casos. Isso acontece porque, de acordo com a pasta, o município tinha cerca de 1.100 óbitos em investigação, que caíram para 200 após as alterações.

Pesquisador da Fiocruz e coordenador do InfoGripe, programa que monitora casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, Marcelo Gomes analisa a mudança dos critérios.

"É uma faca de dois gumes. Por um lado, a maior sensibilidade do diagnóstico é positiva considerando que poderemos ter um número mais próximo da realidade. Mas é difícil usar a curva de casos para acompanhamento de tendência", afirma.

"Mundo real"

Epidemiologista e professor da Uerj, Guilherme Werneck acredita que o quadro da Covid-19 é estável, porém, alerta que os novos critérios atrapalham a avaliação: "a mudança fez elevar o número de mortes. Nesse momento, isso está prejudicando a avaliação da situação atual da doença. Os casos recentes estão misturados com os antigos. O atraso chegava a mais de sete semanas. Como o critério mudou, estão pegando casos antigos para confirmar".

Integrante do Comitê Científico da prefeitura e conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), Sylvio Provenzano admite que a alta de óbitos nos últimos dias pode interferir no processo de flexibilização .

"Essa mudança pode, de certo modo, impactar as políticas de abertura, que seguem, entre outros parâmetros, os números de casos e óbitos, mas estaremos nos baseando em um quadro muito mais real do que o que tínhamos antes", diz.

A pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo afirma que as novas diretrizes vão mostrar o “mundo real” do coronavírus no estado e sugere a avaliação de outros parâmetros para monitorar o avanço da doença.

"Pode-se analisar a taxa de ocupação de leito hospitalar , por exemplo. Se houve aumento, isso representa algo que deve ser considerado. O número de mortes é um indicador, mas há outros", afirma.

Segundo a Secretaria municipal de Saúde, há 881 leitos exclusivos para Covid-19 na cidade. Deste total, 251 são de UTI. A taxa de ocupação de vagas de UTI para Covid-19 na rede SUS — que inclui leitos de unidades municipais, estaduais e federais — no município é de 68%. Já a taxa de ocupação nos leitos de enfermaria é de 51%.

Superintendente de Vigilância em Saúde da prefeitura, Patrícia Guttmann afirma que houve um aumento da taxa de ocupação, que não tem relação direta com a elevação do número de casos: "percebemos que houve um aumento da procura após o fechamento 26 leitos de UTI do Hospital São José, em Duque de Caxias. Com mais vagas, a orientação é internar casos menos graves".

Danilo Klein, chefe de gabinete da Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, do governo estadual, afirma que ainda é cedo para entender o que aconteceu nas últimas semanas: "a inclusão de exames radiológicos e também dos testes rápidos e sorológicos fez aumentar o número de casos da doença, mas ainda é cedo para saber o que o isso significa. Não sabemos se haverá uma segunda onda e, com certeza, não estamos nela".

Epidemiologista da Fiocruz, Diego Xavier diz, no entanto, que as medidas de flexibilização provocou surtos locais e defende que a população tome cuidado ao retomar as atividades: "não adianta achar que a doença foi embora. A doença não foi embora e os dados nos mostram isso".

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