Bolsonaro e Marcelo Queiroga, novo ministro da Saúde
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Bolsonaro e Marcelo Queiroga, novo ministro da Saúde

RIO - Pressionado para deixar o comando do Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello dará lugar ao cardiologista Marcelo Queiroga, quarto nome na pasta desde o início da pandemia. Com o país passando pelo pior momento da disseminação do coronavírus – são 17 dias seguidos com recordes na média móvel de mortes –, o futuro ocupante da pasta vai enfrentar uma série de desafios políticos e sanitários para conter o avanço da Covid-19 e controlar a situação.

No aspecto político, medidas impopulares, como o lockdownem determinadas regiões e outras restrições, estão em jogo e complicam o alinhamento do discurso das autoridades municipais e estaduais com o presidente, além do pedido de abertura de uma CPI para investigar a atuação do governo federal na pandemia. No campo da saúde, os problemas são ainda mais graves: o país renova os recordes de óbitos a cada semana e os impasses sobre o plano de vacinação atrasam a imunização pelo país.

Acelerar a campanha de vacinação

Até agora, o Brasil vacinou apenas 4,59% da população contra a Covid-19 com a primeira dose, de acordo com dados colhidos até a noite de domingo. Os números, levantados pelo consórcio de veículos de imprensa, também indicam que somente 1,69% da população brasileira foi vacinada com as duas doses, recomendadas para os principais imunizantes distribuídos no Brasil.

Os principais gargalos do plano de vacinação brasileiro são a falta de vacinas disponíveis, os problemas logísticos e a burocracia para a compra e importação de outras vacinas à disposição no mercado. Em um dos últimos atos no cargo, Pazuello anunciou a compra de 100 milhões de doses de vacinas da Pfizer e 38 milhões da Johnson.

Comunicação sobre distanciamento social

Com praias, shows e eventos clandestinos lotados no pior momento da pandemia, alinhar a comunicação do Ministério da Saúde e do governo federal com objetivo de aumentar os índices de distanciamento social segue como um desafio um ano após os primeiros casos registrados no Brasil. Durante o percurso, Bolsonaro fez inúmeros discursos contra as medidas de distanciamento social, como quando comparou o toque de recolher em vigor no Distrito Federal com um "estado de sítio".

Em São Paulo, a vigilância sanitária estadual viu a média mensal de denúncias de aglomeração e não uso de máscara mais que dobrar em 2021. Só em janeiro e fevereiro deste ano foram 7.066 as reclamações recebidas pelo 0800 criado para concentrar essas queixas 24 horas por dia.

Conciliar campanhas de vacinação contra Covid-19 e Influenza

Um desafio inédito para o Ministério da Saúde está cada vez mais próximo: o início da campanha de vacinação contra a gripe. São mais de 80 milhões de pessoas indicadas a se imunizar contra a influenza, sendo a maioria idosos, profissionais de saúde, professores e indígenas, grupos prioritários semelhantes ao da Covid-19. As principais preocupações são as estratégias logísticas, armazenamento, organização dos locais de aplicação, controle de períodos necessários de espera entre as doses e, principalmente, pela comunicação com os públicos-alvo, para que eles não deixem de comparecer.

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Relação com Bolsonaro

O alinhamento sobre as medidas de combate à Covid-19 com Jair Bolsonaro tem se mostrado um dos maiores desafios para quem comanda a Saúde. Ainda em abril de 2020, com apenas um mês de enfrentamento ao vírus, Luiz Henrique Mandetta foi demitido pelo presidente. À frente do cargo, Mandetta colecionou embates públicos com Bolsonaro por defender a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e de outras autoridades médicas para assegurar o isolamento da população como medida preventiva para alastramento do vírus.

Antes de completar um mês no cargo, o sucessor de Mandetta, o médico Nelson Teich, pediu exoneração da pasta. Sem apoio da área técnica do ministério e alvo de críticas dentro e fora do governo por defender medidas de isolamento, uso de máscaras e se posicionar contra o uso de cloroquina no tratamento de pessoas infectadas, a relação com Bolsonaro chegou ao limite.

Ao defender medidas de preservação da economia e redução dos danos sociais após a pandemia, Bolsonaro insiste na ideia de “tratamento precoce” com medicamentos não são indicados para prevenir a doença e nem tratar casos leves e trava o avanço de medidas concretas para frear a Covid-19.

Afinidade com o Congresso

Os últimos meses da gestão de Pazuello no Ministério da Saúde foram marcados por um desgaste intenso com parlamentares. No Senado, um grupo de 30 senadores já reuniu assinaturas para solicitar a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a apurar ações e possíveis omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia. O documento, de iniciativa do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), menciona o colapso no sistema de saúde do Amazonas, em janeiro, e afirma que é preciso analisar com urgência a "grave omissão do governo federal”.

O pedido está nas mãos do presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) que, por enquanto, afasta as possibilidades de abertura da CPI. Em entrevista ao programa "Roda Viva", da TV Cultura, Pacheco afirmou que "faltou agilidade" para assegurar vacinas, mas que confia no cronograma apresentado pelo Ministério da Saúde, de vacinar todos os brasileiros até o fim do ano.Em outra ponta, no domingo, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) listou a “capacidade de diálogo político com os inúmeros entes federativos” como um dos fatores necessários para o bom desempenho do ministro da Saúde.

Relação com secretários de Saúde

A ameaça de colapso no sistema de saúde em vários estados, além da lentidão e erros do Ministério da Saúde na distribuição das vacinas contra a Covid-19 levaram a relação de Pazuello com secretários ao desgaste máximo. Entre os problemas, em fevereiro, a pasta trocou remessas de vacina enviadas para o Amazonas e Amapá. Uma confusão logística – especialidade de Pazuello no Exército – fez com que o Amapá recebesse 78 mil doses da vacina, que seriam destinadas ao Amazonas, que só recebeu 2 mil doses.

“Ele erra muito. Tem uma série de coisas que poderiam ter sido diferentes. De Manaus às vacinas. Não é só culpa dele. Ele tentou resolver a Coronavac lá atrás, o presidente não deixou. Ele começou bem, mas eu diria pelos secretários que boa parte já perdeu a paciência”, declarou o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Carlos Lula, em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”.

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