Quatro meses após pico em Manaus, ocorrência de síndrome respiratória volta a crescer
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Quatro meses após pico em Manaus, ocorrência de síndrome respiratória volta a crescer

O número de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), quadro clínico típico da Covid-19, parou de se reduzir em Manaus-AM , capital que passou pelas duas piores ondas da pandemia no país e antecipou a tendência do resto do país. Depois de atingir a marca de 67 casos por 100 mil habitantes no início do ano e cair para 8 em março, os números voltaram a subir e já estavam em 11 no fim do mês passado.

Apeser de ser uma retomada relativamente tênue, cientistas se dizem preocupados, porque a dinâmica de 2021 está repetindo o contorno que a doença teve em setembro de 2020, quando não se falava ainda em segunda onda. Segundo simulação matemática feita por pesquisadores do projeto InfoGripe, da Fiocruz, apesar da oscilação, há agora uma maior probabilidade de o número de casos aumentar do que de diminuir.

"Quando você tem um aumento sustentado por três semanas consecutivas, como é o caso agora, não pode mais chamar isso de repique, é uma retomada", diz Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz-Amazonas.

"No caso específico de Manaus , esse parece ser o terceiro recrudescimento durante a segunda onda. O primeiro foi no fim de setembro, e não recebeu muita atenção. Mas a partir daquele momento, em que a incidência de SRAG se estabilizou em patamares altos, teve início uma aceleração forte em dezembro e uma explosão de casos em janeiro", explica.

A SRAG é considerada pelos cientistas o melhor termômetro para monitorar a epidemia de Covid-19 , porque não depende da confirmação de diagnósticos da doença, que requer o resultado de testes que nem sempre são feitos e cujos resultados demoram a entrar no sistema. Como já se sabe que a maior parte dos casos da síndrome tem o coronavírus por trás, ela se tornou um indicador essencial para monitorar a epidemia no Brasil.

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Por causa da sazonalidade diferente na Amazônia , epidemias de gripe e outros vírus respiratórios normalmente começam antes ali do que no resto do país. Se for levado a sério o papel da capital amazonense como "sentinela" da epidemia, o dado é preocupante.

Segundo Marcelo Gomes, coordenador do Infogripe, um receio com os dados do último boletim do projeto é que há mais lugares que estão mostrando tendência similar à do Amazonas.

"Tem uns quantos estados que, no curto prazo, já mantém estabilização há algumas semanas, e em patamar bem alto. Esse caldo entorna fácil", escreveu o cientista em postagem nas redes sociais. "Estamos desde a semana 14 alertando para os sinais de possível interrupção da tendência de queda por conta do relaxamento precoce."

Segundo Orellana, a dinâmica de abertura da economia em Manaus , é a única explicação para a cidade estar em tendência de alta de novo na epidemia de Covid-19. Mesmo depois de já ter passado por duas ondas devastadoras, os governos estadual e municipal não adotaram cautela com medidas de distanciamento, e a adesão entre a população é baixa.


"Sexta, sábado e domingo foram três dias seguidos que tivemos com o comércio muito agitado na cidade. O prefeito liberou o lazer na praia da Ponta Negra, e o governador liberou eventos com até 100 pessoas", conta o pesquisador. "Quem anda na rua vê que a maioria das pessoas está sem máscara ou está com a máscara no queixo. Olhando para esse cenário, a expectativa que a gente tem para as próximas semanas é ver o contágio se estabilizando em níveis altos ou aumentando."

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