BBC News Brasil

Vacina contra covid: se não doarem agora, vão desperdiçar doses, diz Unicef ao G7
Sima Kotecha e Francesca Gillett - Da BBC News
Vacina contra covid: se não doarem agora, vão desperdiçar doses, diz Unicef ao G7

Milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 podem acabar sendo desperdiçadas se países ricos deixarem para última hora a doação de seus excedentes a países mais pobres, alertou nesta terça-feira (8) o Unicef, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a infância.

A Unicef, que participa dos esforços de distribuição das vacinas do consórcio Covax, defendeu que essa distribuição seja antecipada e se mantenha constante ao longo de 2021, uma vez que países mais pobres não terão estrutura para aplicar uma quantidade muito grande de doses de uma só vez.

O apelo foi dirigido ao G7, grupo das economias mais desenvolvidas do mundo — Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos —, que vai se reunir em uma conferência neste final de semana.

"A conferência é uma oportunidade vital para que vocês (países) acordem ações que levem as vacinas para onde elas são mais necessárias, com rapidez", diz a carta aberta (em inglês) divulgada pela organização, que também é assinada por celebridades como a cantora Billie Eilish, o ex-jogador de futebol David Beckham e a atriz Priyanka Chopra Jonas, que são embaixadores da Unicef.

"Análises da Unicef apontam que países do G7 terão em breve doses suficientes para doar 20% de suas vacinas entre junho e agosto — mais de 150 milhões de doses — sem que haja atrasos significativos a seus planos atuais de vacinar suas populações adultas", prossegue a carta.

"Pedimos que façam essas doações urgentes até agosto e estabeleçam um plano para escalonar as doações à medida que seus estoques aumentarem. Estimativas apontam que até 1 bilhão de doses possam estar disponíveis para doação até o final do ano."

Segundo o Unicef, a iniciativa Covax, criada para democratizar a distribuição de vacinas pelo mundo, conta com 190 milhões de doses a menos do que era esperado, "deixando pessoas vulneráveis perigosamente desprotegidas. Alguns países se comprometeram a doar vacinas mais adiante neste ano, mas essas doses são necessárias agora mesmo".

Billie Eilish, David Beckham e Priyanka Chopra Jonas
Getty Images
Billie Eilish, David Beckham e Priyanka Chopra Jonas estão entre as celebridades embaixadoras do Unicef que assinaram carta aberta pedindo que G7 doe vacinas ao resto do mundo

Os Estados Unidos são um dos que estão sob pressão a abrir mão de seu excedente de vacinas. Em 3 de junho, o governo Biden anunciou que doará 25 milhões de doses a dezenas de países — o Brasil está incluído e receberá parcela ainda indefinida. Essa primeira doação será complementada mais tarde por uma de 55 milhões de doses.

O Reino Unido também prometeu doar doses mais adiante neste ano. No entanto, o Unicef pede que esse esforço seja antecipado, para que países onde a vacinação ainda está mais lenta consigam acelerar sua imunização e, dessa forma, reduzir os riscos de que novas variantes mais resistentes do coronavírus continuem a surgir.

Você viu?

"A pandemia não vai terminar em lugar algum até que termine em todos os lugares, e isso significa vacinar todos os países, da forma mais rápida e igualitária possível", afirma o órgão da ONU. "O vírus ainda está avançando em muitos países e produzindo novas variantes com o potencial de nos colocar de volta onde começamos."

Temos que priorizar os adultos, diz chefe de vacinação da Unicef

Em entrevista à BBC, a chefe de vacinação do Unicef, Lily Caprani, disse que o ideal é que todos os países vacinem suas populações adultas no mesmo ritmo. "Então, estamos pedindo que países do G7 doem suas doses a países de renda inferior agora mesmo, enquanto estão vacinando suas próprias populações."

Segundo Caprani, se a doação de vacinas demorar e ficar para o fim deste ano, "a consequência indesejada é que os países (mais pobres) não conseguirão absorvê-las e aplicá-las (a tempo), e pode ser que elas acabem sendo desperdiçadas. Pode ser que vejamos milhões de doses inutilizadas e vencidas, o que será uma tragédia".

Queniano recebendo dose de vacina
Reuters
Unicef participa da distribuição de vacinas do consórcio Covax; acima, homem sendo vacinado no Quênia

Na semana passada, o secretário de Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, afirmou que o país priorizará a vacinação de crianças britânicas antes de ceder suas doses ao exterior — estratégia criticada por Caprani, que defendeu que a população adulta global, que tem maior probabilidade de adoecer do vírus, seja priorizada em relação às crianças.

"Em algum momento, sem dúvida, precisaremos vacinar os menores de 18 anos, mas a prioridade no momento é garantir que todos os grupos vulneráveis e prioritários ao redor do mundo sejam vacinados", declarou ela.

No início desta semana, mais de 100 ex-premiês, presidentes e chanceleres instaram países do G7 a pagarem por dois terços dos US$ 46,6 bilhões necessários para vacinar países de renda baixa contra a covid-19.

Na conferência do G7 neste fim de semana, é esperado que o premiê britânico Boris Johnson proponha um plano no qual países mais ricos se comprometam a vacinar o restante do planeta até o fim de 2022.

    Veja Também

    Mais Recentes

      Comentários