Até 40% dos internados em UTIs Covid-19 têm danos no coração, diz estudo
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Até 40% dos internados em UTIs Covid-19 têm danos no coração, diz estudo

Em novembro de 2020, o empresário Adelino Pereira, de 66 anos, testou positivo para Covid-19 — o resultado veio logo depois de ele voltar de uma viagem de pescaria a Roraima. Ficou cerca de um mês internado na UTI do Complexo Hospitalar de Niterói (CHN) com um quadro grave da doença e teve 50% dos pulmões comprometidos devido a um tromboembolismo pulmonar.

Essa não foi a única complicação que teve em decorrência do contágio pelo novo coronavírus. Pereira também teve uma miocardite, inflamação do músculo do coração, o miocárdio. Seu quadro clínico teve melhora significativa, mas desde então ele faz reabilitação cardiopulmonar no hospital.

O caso de Pereira corrobora uma pesquisa que vem sendo realizada pelo CHN e que teve dados preliminares divulgados este mês. Segundo o hospital, de 30% a 40% dos pacientes mais graves, que precisam de internação na UTI em decorrência da Covid-19, podem desenvolver danos cardíacos.

Os números do levantamento, realizado pelo laboratório de ecocardiografia, são relativos ao período entre março e junho de 2020, quando quase 40% dos pacientes nesta situação apresentaram sinais de disfunção sistólica (insuficiência cardíaca), 25% tiveram episódios de trombose venosa, 22% desenvolveram pericardite (inflamação do pericárdio, membrana que envolve e protege o coração) e 15% apresentaram miocardite, como Pereira.

Desde então, a média de doentes com acometimento vascular vem se mantendo, e um dos objetivos é fazer a comparação entre semestres, para verificar se novas cepas do vírus podem modificar este panorama.

"Senti muita falta de ar e mal-estar; perdi dez quilos enquanto fiquei internado", relata Adelino Pereira. "Tive alta, mas os exames ainda mostravam algumas alterações, e por isso o médico me orientou a fazer a reabilitação com acompanhamento de uma cardiologista e de um professor de educação física. Também estou fazendo caminhadas e atingi meu peso ideal".

O cardiologista João Tress, que coordenou a pesquisa, explica que o intuito foi buscar entre os pacientes com Covid-19 na UTI a relação da infecção respiratória com problemas no coração:

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"Chamava a atenção uma maior presença de complicações cardiovasculares, diferente do que acontece nas outras infecções respiratórias".

Indivíduos que já têm alguma comorbidade, como diabetes ou hipertensão arterial, correm maior risco de desenvolver as formas graves da doença e ter comprometimento cardiovascular. No entanto, a pesquisa revela que pacientes sem comorbidades também podem chegar a este quadro.

Hiperinflamação

De acordo com a cardiologista Ana Luiza Sales, coordenadora do Programa de Insuficiência Cardíaca e do Programa de Transplante Cardíaco do CHN, em geral pacientes que apresentam maior número de comorbidades manifestam quadros inflamatórios mais graves e têm pior sobrevida quando comparados aos demais pacientes com Covid-19.

"O acometimento do coração acontece nas fases mais tardias da infecção, principalmente depois de sete a dez dias, na fase conhecida como hiperinflamação", explica.

Ainda de acordo com a médica, existem pacientes ambulatoriais que não manifestam sintomas respiratórios graves quando infectados pela Covid-19, mas que apresentam algum grau de envolvimento cardiovascular. Esses pacientes podem ou não apresentar sintomas. O envolvimento cardiovascular, alerta, pode representar um risco à saúde, em especial se essa condição não for detectada, acompanhada e tratada adequadamente quando necessário.

Acompanhamento

Insuficiência cardíaca, arritmia, eventos trombóticos, doença coronariana e pericardite são algumas das possíveis manifestações do comprometimento cardiovascular pelo Sars-CoV-2.

Exame físico especializado, eletrocardiograma, ecocardiograma, angiotomografia de artérias coronárias, cineangiocoronariografia e ressonância magnética do coração são exames comumente usados na avaliação cardiológica pós-infecção por Covid-19.

"A população deve ser alertada para a possibilidade de acometimento cardíaco pelo coronavírus, em especial naqueles pacientes portadores de comorbidades. Por essa razão, após a infecção por Covid-19, recomenda-se que pacientes com e sem manifestações graves da doença busquem avaliação médica e se possível se consultem com um cardiologista, que fará uma avaliação individualizada visando a identificar precocemente a necessidade de exames complementares para auxiliar na verificação de possíveis sequelas cardiovasculares por essa virose. Uma vez identificadas essas cicatrizes no coração, esses pacientes devem ser acompanhados de perto por seus cardiologistas, já que as diferentes sociedades de cardiologia ainda não sabem ao certo o impacto prognóstico desses achados ao longo do tempo", salienta Ana Luiza Sales.

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