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Reprodução: iG Minas Gerais
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Alvo de repetidas críticas por parte de estados e municípios pela demora nas entregas de vacinas contra a Covid-19, o Ministério da Saúde rebateu, nesta sexta-feira, a alegação da  Prefeitura do Rio de que a suspensão da segunda dose da CoronaVac na cidade resultou de um atraso no envio do imunizante produzido pelo Instituto Butantan. A pasta reforçou que não tem pendência de envios de D2 da CoronaVac para a cidade e alerta que não garantirá doses para os que descumprirem o que foi pactuado nas reuniões do governo federal com estados e municípios.

"Ao contrário do que foi divulgado pela prefeitura do Rio de Janeiro, a falta de doses não é por atraso de entrega pelo Ministério da Saúde. A pasta, inclusive, tem, semanalmente, ampliado as entregas de vacinas contra a Covid-19", diz o ministério, por nota. "A pasta informa, ainda, que não possui pendência de segunda dose para o RJ. Todo o quantitativo necessário para aplicação da segunda dose da Coronavac foi disponibilizado ao estado. Por isso, é importante que todas as unidades da federação cumpram as orientações pactuadas no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19".

Além disso, o ministério diz que "não garantirá doses para os que descumprirem o estabelecido entre representantes da União, estados e municípios. Se todos seguirem as orientações, não faltará doses para concluir a imunização da população brasileira".

O comunicado foi enviado à reportagem em resposta a um questionamento sobre o estoque atual de CoronaVac na cidade do Rio. Nesta sexta-feira, o GLOBO mostrou que, ao longo do último mês, o município redirecionou para a aplicação de D1 cerca de 191 mil doses desse imunizante originalmente reservadas para a segunda, de acordo com a Secretaria municipal de Saúde (SMS). A pasta reconhece que essas doses estavam previstas para serem distribuídas, a título de segunda injeção, nas próximas quatro semanas, conforme orientação do Ministério da Saúde e da Secretaria estadual de Saúde (SES). A distribuição da segunda dose da CoronaVac na cidade, interrompida nesta quinta-feira, segue suspensa pelo segundo dia seguido.

Em nota, a SMS diz que "a cidade do Rio de Janeiro organiza seu calendário para aplicar as doses de vacina no menor tempo possível" e "conforme os contratos do Ministério da Saúde, não reservando vacinas para a segunda dose por mais de uma semana". Com isso, a pasta afirma conseguir "manter o maior número de pessoas imunizadas no menor tempo possível".

Segundo o comunicado enviado pela secretaria na noite desta quinta-feira, o encerramento do ciclo vacinal das 191 mil pessoas que ainda não têm a garantia da segunda dose estaria assegurado caso o Ministério da Saúde já tivesse enviado a remessa mínima de 300 mil doses de CoronaVac que o Rio aguarda, ainda em estoque nos aposentos do governo federal. "O saldo de CoronaVac é insuficiente para a manutenção regular de aplicação da segunda dose das 4.312 pessoas agendadas para esta sexta-feira", escreve a pasta. Pouco depois de encaminhar a nota ao GLOBO, a SMS recebeu uma previsão de envio de cerca de 390 mil doses da CoronaVac a serem entregues ainda nesta sexta, o que permitirá a retomada da distribuição de D2 da vacina na manhã de sábado.

A divergência entre a prefeitura e o Ministério da Saúde quanto ao volume de entrega de doses pode afetar não só componentes elementares da campanha de vacinação no Rio, como a distribuição da segunda dose das vacinas no tempo adequado, mas também outros aspectos, como a aplicação da terceira dose em idosos. A Saúde anunciou uma nova dose de reforço na terceira idade em pessoas com 70 anos ou mais, garantindo vacinas suficientes para esse público. Já o município do Rio divulgou um calendário em que prevê a vacinação de todos aqueles que têm 60 anos ou mais.

Apesar da orientação do ministério, a SMS manteve seus planos iniciais e, nesta sexta-feira, reforçou o pedido para que o governo federal amplie a faixa etária elegível para a terceira dose. A intenção é levar a Saúde a se organizar para garantir a distribuição da dose de reforço nos termos da campanha elaborada pela prefeitura, mas o ministério ainda não sinalizou que atenderá à solicitação. Em consonância com o governo federal, a SES divulgou nesta semana um protocolo para a aplicação da terceira dose em idosos com 70 anos ou mais, embora faça coro ao Rio no pleito pela ampliação da faixa etária contemplada pelo novo reforço.

Mudança de discurso

A decisão de privilegiar a aplicação da primeira dose em detrimento da segunda vai de encontro a posicionamentos antigos do prefeito Eduardo Paes, que no passado já chegou a garantir que a cidade mantinha uma reserva permanente de vacina para evitar que a aplicação da segunda dose fosse interrompida. Em abril, quando o Ministério da Saúde liberou que os municípios usassem o estoque de D2 para a D1, Paes disse que o Rio “sempre tem uma gordura”:

|"A gente sempre tem uma cobertura, uma gordura que, mesmo que haja algum atraso, a gente não tem que parar o processo de vacinação", disse o prefeito na ocasião, segundo o G1.

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A SMS diz que mantém uma reserva técnica equivalente a uma semana de aplicação de segunda dose. Ela afirma ainda que "não considera tecnicamente correto" manter essas doses em estoque por mais de sete dias, após a confirmação de entrega de mais doses pelo Instituto Butantan ao Ministério da Saúde.

Nos ofícios de distribuição de vacinas, a Secretaria estadual de Saúde vem alertando os municípios a não redirecionar doses reservadas para a D2 da CoronaVac, já que não há previsão de repasse de frascos extras pelo Ministério da Saúde. Nesse contexto, o uso de CoronaVac para a aplicação da D1, suspenso em abril no município do Rio devido à redução na previsão de entregas do Instituto Butantan, foi retomado em junho. Entre os dias 18 e 19 daquele mês, o número diário de primeiras doses da CoronaVac aplicadas saltou de 345 para 7.640. Em 17 de agosto, a SMS chegou a aplicar 58.900 primeiras doses da vacina do Butantan num único dia.

Discrepância de estoque

Além disso, números oficiais levantam dúvidas sobre o destino de milhares de doses da CoronaVac reservadas para o Rio. Um levantamento do GLOBO a partir de dados do Ministério da Saúde e da Secretaria estadual de Saúde (SES) indica uma discrepância de 342 mil doses entre a quantidade de doses da vacina do Instituto Butantan recebidas pela cidade do Rio até agora e o número de doses do imunizante de fato aplicadas no município. A SMS diz que seu estoque atual de CoronaVac é de apenas 3.200 doses e atribui a diferença a possíveis atrasos na atualização dos registros de vacinados, provavelmente decorrentes de falhas no banco de dados nacional, o Sistema de Informações do Plano Nacional de Imunizações (SI-PNI).

Segundo o governo estadual, a cidade do Rio recebeu até agora 2.981.593 doses da CoronaVac. Contudo, de acordo com a mais recente atualização do LocalizaSUS, plataforma do Ministério da Saúde alimentada pelos municípios por meio do SI-PNI, o Rio aplicou até o dia 1º de setembro, véspera da interrupção da distribuição de segunda dose da CoronaVac na cidade, 2.639.312 doses da vacina produzida pelo Butantan. Uma diferença de 342.281 doses, que estariam todas disponíveis para aplicação imediata, apesar da suspensão da aplicação de segunda dose do imunizante nesta quinta-feira.

Conforme orientação da SES, 1.369.088 das doses de CoronaVac recebidas pelo Rio até agora eram destinadas à primeira dose. O restante, 1.612.505 doses, deveria ser reservado à segunda dose. No entanto, de acordo com o LocalizaSUS, o Rio aplicou, desde o início da campanha até esta quarta-feira, 1.525.540 primeiras doses de CoronaVac. Isso indica que, ao longo da vacinação, 156.452 segundas doses da vacina foram usadas como D1. Um número menor do que o informado pela SMS (191.059).

Segundo a pasta, as discrepâncias nas contas podem ainda ter acontecido no início da campanha, quando o Instituto Butantan passou a distribuir frascos multidoses (cinco ou dez doses por frasco). Assim, a depender do lote, o número de doses da CoronaVac realmente aplicadas pela cidade pode ter sido cinco ou dez vezes maior do que a contagem do governo federal.

O Ministério da Saúde ainda não respondeu à reportagem sobre a diferença entre os dados oficiais.

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