Aprovação de medicamentos à base de cannabis dá esperança a pacientes

Com a aprovação do Canabidiol Vermed, subiu para oito o número de remédios liberados para importação pela Anvisa

Canabidiol é extraído da Cannabis, planta que também é usada como substância psicotrópica
Foto: Pixabay
Canabidiol é extraído da Cannabis, planta que também é usada como substância psicotrópica

No início do mês, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu a autorização para a importação do Canabidiol Verdemed, medicamento feito à base de cannabis medicinal, para o Brasil.

A solução contém 23,75 miligramas por mililitro (mg/mL) de canabidiol (CBD), com até 0,2% de tetraidrocanabidiol (THC), e é fabricada na Colômbia - a oitava aprovada pela agência. Agora, é possível que ele seja comercializado para pacientes de todo o país.

A norma vigente no Brasil afirma que o canabidiol pode ser prescrito "quando estiverem esgotadas outras opções terapêuticas disponíveis no mercado". Envolta em uma polêmica causada, segundo os médicos, pelo desconhecimento das propriedades medicinais da planta, a substância dá esperança no tratamento de diversas doenças no país.

Em 2018, Paulo Henrique Costa sofreu um traumatismo craniano encefálico. Depois de muitos tratamentos e tentativas de uma evolução no quadro, a família, por orientação médica, passou a utilizar uma válvula, acompanhada da medicação à base de cannabis.

"A medicação foi uma indicação da neurocirurgiã que era vinculada à uma associação, pelos quadros de convulsão e na questão motora, para auxiliar no processo de mobilidade, já que ele ficou muito tempo acamado", lembra a esposa, Roseli Martins Bento Costa.

O processo de compra foi facilitado pela associação. O tratamento com esses medicamentos ainda é muito caro, já que não é possível plantar ou produzi-los em território brasileiro.

Paulo foi submetido a outros remédios, mas nenhum que tivesse resultado parecido. "Eles não eram muito eficazes, ele continuava tendo tremores, pouca mobilidade. Percebíamos que ele ficava mais adormecido, sem muita responsividade", conta Roseli.

A vida da família mudou com o tratamento. "A cannabis foi uma divisora de águas em nossas vidas. Ver ele andando, falando, comendo, é gratificante. Quero que outras pessoas possam sentir a felicidade que sinto".

A neurocirurgiã que sugeriu o canabidiol ao casal Paulo e Roseli foi Patrícia Montagner, fundadora da WeCann Academy, comunidade global de estudos em medicina endocanabióide. Ela comemora a decisão da Anvisa, e afirma que a demanda por esses produtos cresce a cada dia.

"Os pacientes despertaram para o potencial terapeutico dessa planta. Ter mais possibilidades, medicamentos registrados e devidamente qualificados para compra nas farmácias é de extrema importância. Esperamos que, com o tempo, mais opções cheguem ao mercado e o custo dessas medicações baixe", diz.

Além do preço, os pacientes esperam que outras barreiras sejam superadas no Brasil. As resoluções da Anvisa limitam-se a regulamentar prescrição, exposição e importação. O plantio para pesquisa e produção de medicamentos foi barrado.

O Poder Legislativo poderia decidir a favor ou contra a produção para esse fim, mas o PL 399/15, de autoria do deputado federal Fábio Mitidieri (PSD-SE) e delibera sobre o assunto está parado há cinco anos na Câmara. Neste ano, instituições tiveram liminares de cultivo cassadas e retomadas por decisões judiciais.

"Muita gente tem uma ideia errada, um preconceito que envolve a substância por causa da associação do óleo do canabidiol, usado em consultório, com o uso recreativo e terapêutico da cannabis. São coisas completamente diferentes", explica a Dra. Gabriella Santos Oliveira, neuropediatra do Hospital Cruz Verde, que lidera o tratamento de crianças com a substância.

"As pessoas acham que vai ser usado de forma indiscriminada, sem indicação. O PL não tira a questão de que é uma medicação, utilizado sob prescrição médica. Nenhuma dessas críticas tem embasamento", afirma ela, que aponta uma tentativa de politização da pauta.

"Agora eu tenho uma vida"

O canabidiol mudou também a vida de Taiane Boaventura, mãe de Isabelly, que nasceu com microcefalia. Ao iG, Taiane relatou que teve muitos problemas ao controlar a agressividade da filha enquanto as várias medicações prescritas não surtiam efeito algum.

"Quando a Isabelly nasceu, a médica disse que ela não poderia andar, falar, que iria vegetar em uma cama. Nunca acreditei muito nisso. Com seis meses ela engatinhou, com onze, andou. Os problemas começaram depois que ela completou um ano, e precisou começar a medicação", narra.

"Tive problemas com mães em creches. Ela era agressiva, mordia e batia nas crianças. Tomou remédios, tentamos homeopáticos, manipulados, nunca vi resultado. Mas há cinco meses com o canabidiol, já vejo muitos efeitos. A primeira coisa que melhorou foi o sono", afirma ela, que relembra um episódio onde foi chamada na escola e, ao chegar na sala do diretor, viu que a filha precisou ser contida por morder os colegas.

"Ela não dormia, agora tem um sono tranquilo. Não tinha paciência para TV e celular, agora passou a ficar mais tempo. E principalmente, melhorou o comportamento com outras crianças. Antes não brincava com ninguém, agora é convidada para brincar, consigo deixar ela mais a vontade, ela interage".

O medicamento também fez muita diferença para a própria Taiane. "Ela vai duas vezes por semana [à escola] e eu não estou tendo problemas. Não vou falar que ela não é mais impaciente, ainda é agitada, mas depois do canabidiol eu tenho uma vida. Não conseguia nem ir ao mercado, porque se a Isa visse algo e eu não comprasse, ela se atirava no chão, se batia. E eu espero muito mais", conta.

Taiane precisou entrar na Justiça para continuar tendo acesso aos medicamentos por conta do alto custo. Ela aguarda a chegada dos frascos para dar andamento ao tratamento da filha, conforme a indicação médica.

Canabidiol não é maconha

Parte do preconceito sobre o tratamento com medicamentos à base do canabidiol existe por conta do uso recreativo da maconha. É preciso que fique claro que a única relação entre as duas coisas é a planta.

"A planta na forma de fumo muitas vezes tem origem e qualidade desconhecida. Todos sabemos que o fumo agride o sistema respiratório, então definitivamente não é uma via de administração considerada saudável. E além disso, quem usa de forma recreativa não tem supervisão médica. Difere em tudo", ensina a Dra. Patrícia.

"Não tem segurança de que o produto não está contaminado por fungos, bactérias, metais pesados, pesticidas. Não tem estratégia terapêutica, totalmente diferente de um produto seguro, qualificado, laboratorialmente testado, com a finalidade de controlar sintomas", completa.

Patrícia aponta o preconceito e a falta de conhecimento como principais responsáveis pelo lobby contrário ao tratamento. "Tanto autoridades públicas quanto boa parte da comunidade médica desconhecem as diferenças entre uso recreativo e medicinal. Ignorância, preconceito, resistência. E é educação! Tem muita ciência para explicar o que estamos fazendo. É sentar no Google e pesquisar artigos científicos sobre a planta".

Com a populariação do assunto e dos tratamentos, os próprios pacientes estão buscando pelos medicamentos nos consultórios. Para isso, no entanto, é preciso achar um profissional que esteja habituado a prescrevê-los, conforme ensina a Dra. Gabriella.

"O primeiro passo é procurar um profissional que esteja habituado a trabalhar com o problema de saúde e também com o canabidiol, ele vai ser capaz de avaliar a sua situação e te indicar o melhor tratamente, seja com a cannabis ou não", afirma.

Se prescritos, os remédios à base de canabidiol devem ter receita azul. O desafio é encontrar um especialista adepto ao tratamento: segundo a Dra. Patrícia, dos cerca de 500 mil médicos do país, apenas 0,5% os receitam.