Famílias ucranianas se dirigindo até a fronteira com a Polônia
Viktor Moskaliuk/UNICEF
Famílias ucranianas se dirigindo até a fronteira com a Polônia

Para além de todos os prejuízos possíveis no contexto de uma guerra, como a recuperação da economia, da estabilidade e da estrutura do país, a Ucrânia terá que lidar com uma onda de manifestações psicológicas nos seus cidadãos quando a invasão russa acabar.

Após duas semanas desde o início da ofensiva, ainda não é possível saber onde ou como a guerra vai acabar, mas segundo a psicanalista Andréa Ladislau, as consequências podem resultar no desenvolvimento do estresse-pós-traumático (TSPT), que causa sofrimento intenso e prejuízo em diversos aspectos da vida.

"Normalmente, as pessoas que vivenciam esses traumas, uma guerra, ou um grande desastre, podem desenvolver o estresse-pós-traumático, um tipo de transtorno mental, psicológico, desenvolvido excepcionalmente nesses casos onde há uma ameaça externa. Ele deixa marca eterna no inconsciente do indivíduo, e ele começa a apresentar determinados gatilhos".

"Uma criança que hoje está na Ucrânia, passando por esses momentos, vendo bombardeios, vai ficar com essas imagens gravadas e recorrentes no inconsciente. Ao longo da vida, ela pode desenvolver gatilhos, e qualquer barulho pode arremeter a mente dela a esse transtorno vivenciado lá atrás", exemplifica ela, reiterando que o mesmo pode acontecer com pessoas já adultas, que podem apresentar sintomas físicos.

"A pessoa pode desenvolver um quadro de ansiedade generalizada, com muita necessidade de se isolar, dificuldades de sono, diversos sintomas desencadeados cada vez que a mente revive aquela situação que chamamos de 'evento traumatizante'", conta.

Cada individuio reage de uma maneira diferente ao evento traumatizante, segundo explica a especialista. Irritabilidade, oscilções de humor, perda de apetite ou compulsão alimentar também aparecem na lista de sintomas, bem como as alterações no ciclo do sono, a 'urticária emocional' e a queda de cabelo.

"Esse individuo pode apresentar também sonhos perturbadores, já que o inconsciente pode estar sempre trazendo imagens, os flashbacks. Vem enquanto a pessoa dorme, e começa a causar um sono perturbador. A pessoa não dorme direito, acorda a noite, e aí já não consegue dormir mais. Tem pesadelos constantes, tudo ligado ao evento traumatizante. Podemos destacar também a urticária emocional quando sempre a pessoa começa a se lembrar do processo traumatizante, sente coceira".

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Quem por algum motivo não pode deixar o país durante o conflito, como é o caso dos homens de 18 a 60 anos, convive com gatilhos diferentes. "A pessoa entra em um momento de desesperança, sabe que não vai poder sair dali e começa a se aproximar muito de um processo de finitude, que é 'amanhã, daqui a pouco, eu posso não estar mais aqui'", afirma.

"Esse tipo de pensamento se aproxima enquanto você está em meio ao caos. Se a pessoa não conseguir gerenciar as emoções, pode entrar em surto, um excesso de nervosismo. Ela pode simplesmente pode perder o prazer, o ânimo de viver, e até se entregar naquela situação. Acaba acumulando e alimentando sintomas muito mais irreversíveis do que de quem consegue escapar e buscar tratamento, com uma rede de apoio familiar."

Tratamento

O estresse-pós-traumático demanda um tratamento que pode liderado por psicanalista, psicólogos e psiquiatras, e até contar com o auxílio de medicamentos.

"Existe uma cura, mas o processo é longo, e demanda tratamento psicoterápico com profissional de saúde mental. Ele é quem ajudará a eliminar esses gatilhos. A pessoa não esquece que aconteceu, mas ele deixa de causar tantos impactos psicológicos a ponto dela conseguir viver de forma mais equilibrada", conta a psicanalista.

"É preciso fazer terapia e, em alguns casos, é necessário a utilização de medicamentos, receitados por um psiquiatra, para esse indivíduo consiga entrar em um equilíbrio e entender que aquele evento passou, que ela conseguiu sobreviver, e que aquilo não pode mais fazer parte da realidade a ponto que ela nao consiga mais viver bem."

** Filha da periferia que nasceu para contar histórias. Denise Bonfim é jornalista e apaixonada por futebol. No iG, escreve sobre saúde, política e cotidiano.

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