Internet agrava distúrbios de dieta e imagem, dizem especialistas
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Internet agrava distúrbios de dieta e imagem, dizem especialistas

Uma nova hashtag tem ganhado força nas redes sociais e apavorado os médicos. Em pouco tempo, #TudoQueEuComoEmUmDia e suas variações passaram a reunir milhões de vídeos de meninas filmando e narrando as refeições restritas que fazem em 24 horas. Disfarçada de brincadeira, a tendência opera sob uma lógica cruel de difusão e incentivo a dietas mirabolantes, que sem comprovação científica ou acompanhamento profissional podem desencadear transtornos alimentares sérios em troca do contorno “ideal”.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que cerca de 4,7% da população brasileira sofre de transtornos alimentares. Entre os adolescentes, o índice chega a espantosos 10%. A incidência é maior entre o público feminino, com sete a oito mulheres para cada homem diagnosticado com quadros como os de bulimia, anorexia, transtorno alimentar restritivo evitativo (TARE) e compulsão.

"As redes e a mídia têm um efeito muito danoso para algumas pessoas, especialmente adolescentes, que ainda estão em formação", afirma o psiquiatra Fábio Salzano vice-coordenador do Ambulim, o programa de tratamento de transtornos alimentares do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo (USP). "Eles não têm maturidade para discernir que, às vezes, uma imagem no Tik Tok ou no Instagram é extremamente difícil de ser reproduzida de maneira natural e saudável."

Influências tóxicas

A influenciadora digital, atriz e apresentadora Dora Figueiredo, de 28 anos, é uma dessas pessoas. Com mais de 750 mil seguidores no Instagram (e outras centenas de milhares do Twitter e TikTok), ela internalizou, desde muito nova, que a magreza era um pré-requisito para ser bonita, elegante e bem-sucedida.

As redes sociais, um namoro tóxico e até mesmo a relação com a família contribuíram para ativar diversos gatilhos que a levaram a desenvolver problemas como depressão, ansiedade, anorexia, bulimia e compulsão alimentar.

"Eu tinha por volta de 15 anos quando comecei a tomar anticoncepcional e engordei um pouquinho. Só que eu me via muito maior do que era de fato. Achava que estava gorda, que comia demais, sendo que pesava uns 48kg e tinha 1,70 m de altura. Quando algum médico dizia que meu IMC [índice de massa corporal] estava muito abaixo do mínimo saudável, eu me recusava a aceitar. Falava para mim mesma que nunca vestiria mais que [manequim] 38 ou pesaria mais que 60 kg", diz Figueiredo.

Segundo especialistas, os transtornos mais comuns entre jovens são a anorexia, em que o paciente sente a necessidade de manter um peso abaixo do padrão e tem uma visão distorcida do próprio corpo; compulsão alimentar, quando ingere grande quantidades de alimentos de uma só vez e com frequência; bulimia, que inclui quadros de compulsão, seguidos de medidas para perder peso, como vomitar ou ingerir laxantes e purgativos; e o TARE, que pode ser mais comum em crianças e se caracteriza pela não ingestão de certas comidas, causando restrições.

Quadros alterados

Um estudo da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, mostrou que quem sofre de anorexia pode manter um peso normal, embora o corpo esteja enfraquecido e mostre alterações de frequência cardíaca e pressão arterial. Havendo alguma desconfiança por parte da família, o recomendado é buscar avaliação médica.

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"Transtornos alimentares podem trazer complicações clínicas, como mudanças endócrinas, complicações metabólicas, alterações ósseas e hidroeletrolíticas (levando a risco de arritmias, por exemplo)", explica Mariana Dimitrov, pós-doutoranda na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Em casos extremos, também podem levar à morte. a taxa de mortalidade na anorexia gira em torno de 5% a 6%. Já a taxa de mortalidade da bulimia varia de 0,5% a 2%, mas o índice de suicídios entre pacientes com o transtorno é maior, diz a especialista.

Segundo Salzano, o problema tem raízes multifatoriais, incluindo questões genéticas, familiares, socioculturais e também de personalidade. Ele explica que também existem consequências no cérebro, em neurotransmissores como adrenalina, dopamina e serotonina.

"À medida que a pessoa perde muito peso, ela vai deixando de ingerir nutrientes, principalmente na anorexia. E isso faz também com que ocorra um déficit de fabricação desses transmissores cerebrais, o que, por sua vez, facilita com que a pessoa entre num processo obsessivo, que favorece com que ela queira perder cada vez mais peso", explica o médico.

Quem vê a desenvoltura da influencer Dora Figueiredo nas redes não imagina que ela só começou a falar sobre seus transtornos alimentares com a própria terapeuta há uns três ou quatro anos. Foi depois de uma relação extremamente tóxica e um término de namoro traumático que ela entendeu — e aceitou — que precisava de ajuda. Hoje em dia, ela conta que está bem, se cuidando, mas que isso não significa que os transtornos não a afetam mais. É algo que “te acompanha para o resto da vida”, ela diz.

"Para sair desse ciclo de ódio com meu próprio corpo, eu tive que chegar ao fundo do poço e dar um impulso de volta. Mas é um trabalho diário, você precisa estar sempre atenta aos gatilhos que te deixam mal. Hoje, pelo menos, entendo que ficar perseguindo padrões me toma não só tempo de vida, como felicidade. E eu não posso deixar para ser feliz só quando eu estiver pesando tantos quilos. Eu quero ser feliz hoje."

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