Feminização facial: conheça as cirurgias usadas em mulheres trans
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Feminização facial: conheça as cirurgias usadas em mulheres trans

Nesta semana, a atriz e cantora Linn da Quebrada surpreendeu seus fãs ao publicar fotos com o rosto cheio de cicatrizes depois de procedimentos de feminização facial, cirurgia plástica de afirmação de gênero. O processo é realizado em mulheres transgêneros para deixar os traços do rosto mais feminino.

Criada nos anos 80, a cirurgia de feminização facial consiste num grupo de procedimentos cirúrgicos derivados da cirurgia plástica e craniofacial com o objetivo de alterar características masculinas de uma face. O tratamento é individual podendo ser feito uma, três, cinco cirurgias, ou quantas forem necessário para diminuir os traços masculinos daquela paciente. Porém, é importante ter o acompanhamento de um médico especializado.

A cantora Ana Vitória, conhecida como MC Trans, sempre se achou muito bonita e não tinha problema nenhum com o próprio rosto, porém sentia-se que não se encaixava em nenhum grupo. Ela não se dava com os homens por ser feminina, mas as mulheres também a rechaçavam por não ser “completamente mulher". Aos 20 anos, num Domingo de Páscoa, foi espancada na Central do Brasil, no Rio. Seu rosto ficou completamente desfigurado pelos socos que levou por “ser quem eu era na rua”.

Ela começou a ter disforia pelo seu rosto, termo usado para pessoas que não conseguem se identificar com a imagem veem no espelho e que pode levar a quadros psicológicos graves e até mesmo suicídio. Muitas mulheres trans desenvolvem esse quadro por conta da cobrança da sociedade em transformar mulheres trans em pessoas mais femininas, com traços físicos mais suaves e delicados que se assemelham ao rosto de uma mulher cis, ou seja, cuja identidade de gênero corresponde ao gênero que lhe foi atribuído no nascimento.

"Nesse desespero de sair desse padrão, me tornar mais feminina, poder me maquiar sem olhares atravessados na rua, ou que as pessoas apontassem para mim e me vissem como algo que eu não era, recorri à cirurgia", conta Ana Vitória.

Há dois meses, ela fez aos procedimentos cirúrgicos de feminização facial. Ela aumentou as maçãs do rosto, diminuiu o tamanho da testa, reduziu o osso do queixo e estreitou a faixa do maxilar, o que deu um contorno mais arredondado ao rosto — os homens têm um rosto mais quadrado, com o maxilar mais emoldurado.

"Eu me olho no espelho e não me lembro das agressões, do desespero, das crises de pânico. Me dei essas cirurgias de presente. Hoje, aos 35 anos, eu transcendo a perspectiva de vida de uma mulher trans no Brasil. Sou uma sobrevivente por chegar até aqui e apenas hoje eu me sinto linda, bonita e completa. Não existe mais disforia", diz a cantora, emocionada.

Segundo o cirurgião José Carlos Martins, fundador da Transgender Center Brazil, clínica especializada em cirurgias de transição, a face da paciente é dividida em três terços: superior, médio e inferior. A partir dessas áreas, é analisado o que pode ser feito e quais os tipos de cirurgia são aplicáveis.

"No terço superior da face, podemos fazer uma frontoplastia (um dos procedimentos mais feitos em mulheres trans) que é o desgaste dos ossos do crânio para diminuir a testa e afundá-la, pois o homem tem essa região óssea mais projetada e a mulher mais escondida. Também é feito uma orbitoplastia, que além de abrir a região do globo ocular, ganha um contorno mais suave aos olhos. E para encerrar há o arqueamento das sobrancelhas, visto que as mulheres tem as duas mais curvilíneas e os homens tem elas mais retas", explica o médico.

Martins, que também é autor do livro “Transgêneros, Orientações médicas para uma transição segura”, diz que no terço médio da face é possível aumentar a maçã das bochechas por meio de uma lipoenxertia, quando se coloca gordura na região no intuito de ampliar a região. Também é possível diminuir o espaço entre o nariz e a boca, onde no homem é a área do bigode, e encurtar o lábio superior, deixando a boca mais fina e feminina, procedimento chamado de lip lifting.

Para completar a tríade e gerar uma simetria mais delicada, há mulheres que optam por fazer rinoplastia para afinar o nariz.

"O rosto humano tem uma série de fatores masculinos e femininos. Se o queixo é projetado mais para frente, se o nariz é mais fino, se as sobrancelhas são arqueadas e etc... Todo ser humano tem fatores masculinos e femininos. Há mulheres cis belíssimas que têm um nariz mais grosso, de homem e optam por fazer a rinoplastia para consertar", diz Martins.

Ainda fazem parte das cirurgias de feminização facial a reconstrução do contorno facial. Enquanto a maioria dos homens tem um maxilar mais desenhado, quadrado, forte e o queixo acentuado, as mulheres têm o que os médicos chamam de V Line (linha V), com o queixo mais fechado, voltado para baixo e o maxilar mais reto.

A líder de desenvolvimento de negócios, Yu Golfetti, 29 anos, em maio de 2021, depois de guardar dinheiro por quatro anos, realizou dois processos de feminização facial. Ela raspou o osso frontal para diminuir a testa e raspou o pomo de Adão, o famoso gogó, característica masculina. Segundo ela, não enxerga os dois atributos se encaixando na visão de feminilidade dela.

"A sociedade pede e cobra que mulheres tenham esse padrão de feminilidade. É por isso que tanto mulheres trans como cis acabam se submetendo a diversas cirurgias para se encaixar nesse padrão. Para mulheres trans, existe ainda a questão da “passabilidade”, que é o quão cis você consegue parecer para a sociedade. Por mais tóxica que seja essa característica, ela é “necessária” para não sermos totalmente excluídas. Se passamos por uma imagem mais próxima da cis, essa chance é menor", afirma Golfetti.

Ela afirma que, após a cirurgia, se sente muito mais feliz e não tem mais vergonha de se olhar no espelho. Entretanto, ela diz não saber se faria outra cirurgia do tipo. "Tenho uma aceitação do meu rosto muito melhor agora do que meses atrás".

Estima-se que o valor para fazer uma feminização facial completa, como a que MC Trans fez, custe em torno de R$ 40 a 70 mil reais. Apesar do preço, o crescimento dos procedimentos é evidente. Na clínica de Martins, por exemplo, são feitas de 16 a 20 cirurgias por mês durante quatro dias da semana. As buscas pelas cirurgias triplicaram nos últimos anos tendo um aumento de quase 150%.

Cirurgias não invasivas

Há também procedimentos de feminização que são menos invasivos e mais em conta feitos a partir de toxina botulínica e bioestimuladores de colágenos. A dermatologista Bianca Viscomi afirma que é extremamente importante o profissional não deixar o rosto da paciente estigmatizado ou caricato.

"O profissional precisa ajudar essas pessoas a se encontrarem dentro de uma estética trans, e não fazer procedimentos e tratamentos mutilantes a todo custo para tentar chegar a um rosto parecido com o de uma mulher cis. Elas precisam se enxergar na própria imagem", diz.

Segundo Viscomi, que é autora de um estudo inédito no Brasil sobre procedimentos de feminização não invasivos, o processo pode começar pela tecnologia a laser capaz de diminuir e remover os pelos da barba. De acordo com a necessidade de cada paciente, pode ser aplicada a toxina botulínica para modular a musculatura da face e deixar o rosto região mais delicado e feminino.

Os bioestimuladores de colágeno ajudam a melhorar a qualidade da pele e auxiliam no reposicionamento das estruturas do rosto. Enquanto os preenchedores a base de ácido hialurônico promove mudanças anatômicas, como: aumento dos lábios, preenchimento das bochechas, desenhar o contorno arredondado do rosto e modificar a convexidade da testa.

"A maioria das mulheres trans, segundo estudo americano de 2016, preferem fazer procedimentos faciais do que corporais. Elas conseguem se identificar melhor com a imagem projetada no espelho e a disforia, consequentemente, diminui", afirma a dermatologista.

Masculinização facial

Se na classe médica não há dúvidas quanto à existência da feminização, não se pode dizer o mesmo da masculinização facial. Especialistas afirmam que os procedimentos realizados no rosto de um homem trans podem ser feitos por um homem cis facilmente, além de que o hormônio masculino, a testosterona, ingerida pelo grupo, é responsável pela maioria do trabalho de “masculinizar” o rosto de um trans.

"É uma disputa desonesta. A maioria das alterações fica a cargo da testosterona. Ela vai engrossar a voz, a pele, deixa a musculatura mais forte, os pelos vão crescer. Em 90% dos casos, o homem trans está pronto. Dá para fazer um preenchimento no maxilar, uma harmonização facial, mas são tratamentos que todo homem cis também faria. Já o estrógeno, hormônio feminino, faz pouca mudança em relação as características femininas", afirma o cirurgião e autor José Carlos Martins.

Entretanto ainda há casos em que apenas a testosterona não resolve. O enfermeiro Caio Batista, 29 anos, toma o hormônio há pelo menos oito anos e, apesar de acreditar já ter traços masculinos, quer ter uma maior definição.

"Eu pretendo realçar o meu maxilar, deixá-lo mais forte e quadrado. Mais visível. É importante para a nossa vivência, pois não há nada melhor do que você se olhar no espelho e ver como você se percebe e se imagina. Para o nosso processo psíquico é gratificante".

Transfobia no Brasil

A transfobia é crime no Brasil desde 2019, entretanto, pelo 13º ano consecutivo, o país é o que mais mata pessoas trans no mundo. Conforme o relatório de 2021 da Transgender Europe (TGEU), que monitora dados globalmente levantados por instituições trans e LGBTQIA+, 70% de todos os assassinatos registrados aconteceram na América do Sul e Central, sendo 33% no Brasil, ou seja, 125 mortes.

De acordo com o documento da Transgender Europe, 96% das pessoas assassinadas em todo o mundo eram mulheres trans. A expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil hoje é de 35 anos, o mesmo da Idade Média no mundo.

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