Cresce a violência contra profissionais de enfermagem
Divulgação/ Coren MT
Cresce a violência contra profissionais de enfermagem

A violência contra profissionais de enfermagem tem se tornado uma grave preocupação no sistema público de saúde. Enfermeiros, técnicos e auxiliares relatam agressões físicas, verbais e até ameaças constantes em seus locais de trabalho. Sejam eles em hospitais, prontos-socorros ou unidades básicas de saúde. Segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), os casos de violência cresceram significativamente nos últimos anos, especialmente após a pandemia de covid-19.

A reportagem do iG conversou com a Cláudia de Cássia Gonzaga Luz, que é funcionária pública e agente de saúde há pelo menos 30 anos, em Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais. Ela faz triagem de pacientes que vão fazer endoscopia, realizar raio-x e também a entrega de resultados de exames, como biópsias. Em seus relatos, alguns episódios que já foram até casos de polícia.

"Eu vejo uma falta de empatia muito grande do paciente em relação a gente. Nós somos a linha de frente no atendimento público e cada vez mais as pessoas estão impacientes e agressivas. Somos intimidados também pelos acompanhantes. Eu trabalho com uma equipe que faz encaixe de raio-x e os técnicos trabalham sozinhos dentro da sala, dando conta de cuidar de pacientes especiais, cadeirantes, crianças e até pacientes com autismo. O salário deles não chega a R$1.518,00 e todos são muito cobrados e estão extremamente sobrecarregados", relatou Cláudia.

Os técnicos de enfermagem estão cada vez mais sobrecarregados
Divulgação/Cofen
Os técnicos de enfermagem estão cada vez mais sobrecarregados


A profissional relembrou um episódio de ameaça que viveu há 2 meses atrás, quando uma paciente chegou acompanhada da mãe de 82 anos para entregar uma biópsia. No dia, Cláudia estava cuidando de uma fila enorme que aguardava atendimento, quando a mulher atravessou todos e jogou os vidros de biópsia em cima dela, fazendo com que eles caíssem abertos no chão e proferiu muitas falas em tom de ameaça e ofensas. 

"Um técnico de raio-x foi injustiçado, após uma paciente prestar uma falsa denúncia contra ele alegando assédio. Eu estava dentro da sala, eu vi tudo e o defendi. A mulher chamou até a polícia e ele ganhou o processo, mas acabou desistindo de trabalhar na área e mudou de profissão", relembrou Cláudia.

Casos de violência sempre existiram?

O enfermeiro e professor Pedro Palha, diretor da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, especialista em Saúde Pública, explica que a violência na enfermagem sempre existiu. Vale lembrar que o profissional de enfermagem geralmente é o primeiro contato de quem chega a um local de atendimento. De acordo com Palha, existem três tipos de agressões.

“A violência física, a violência verbal e a violência psicológica. No caso da enfermagem, por ser uma profissão majoritariamente feminina, existem questões de gênero que também definem o tipo de violência que é impetrado contra esses profissionais", reforçou.


Quando esse cenário pode mudar?

A presença de segurança nas unidades contribui para conter essa violência, mas elementos inibidores, além da presença física, podem ajudar em postos de atendimento, com o uso de tecnologias. É urgente a criação de políticas públicas que garantam segurança dentro das unidades de saúde. Câmeras de vigilância, equipes de apoio psicológico e campanhas de conscientização são medidas consideradas fundamentais. A categoria está unida com objetivos pontuais.

“Primeiro, é o mapeamento que está sendo feito em relação às diferentes formas de violência que são impetradas contra a classe da enfermagem. Segundo, a redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais.  Terceiro, a implementação, de fato, do piso salarial da enfermagem; e quarto, a melhoria do dimensionamento de recursos humanos de enfermagem dentro do sistema de serviços de saúde”, explicou Pedro Palha.

Impacto emocional na vida dos profissionais

O aumento da demanda por atendimento, a falta de estrutura nos serviços públicos e a sobrecarga emocional dos pacientes e familiares têm sido apontados como fatores que contribuem para esse cenário.

“Há uma banalização da violência. Os profissionais estão exaustos e, ao mesmo tempo, vulneráveis. A agressão passou a ser vista como parte do cotidiano”, afirma o Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo.

Imagens de profissionais de saúde sendo agredidos, não pode se tornar comum
Divulgação/SindSaúde
Imagens de profissionais de saúde sendo agredidos, não pode se tornar comum


Os efeitos desse ambiente hostil vão muito além do momento da agressão. Muitos profissionais relatam sintomas de ansiedade, depressão e síndrome de burnout. Além disso, há registros de afastamentos e pedidos de demissão, o que agrava a falta de pessoal e compromete ainda mais a qualidade da assistência prestada.

Enquanto isso, quem cuida continua precisando de cuidado. A enfermagem enfrenta uma dupla jornada: salvar vidas e lutar por respeito.

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