OMS reconhece fim da transmissão do HIV de mãe para filho no Brasil
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OMS reconhece fim da transmissão do HIV de mãe para filho no Brasil

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente que o Brasil alcançou a eliminação da transmissão vertical do HIV, quando o vírus passa da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação. O reconhecimento coloca o país entre as nações que conseguiram reduzir esse tipo de transmissão a níveis extremamente baixos e sustentados, considerados irrelevantes do ponto de vista da saúde pública global.

Na prática, o título não significa que o risco tenha sido zerado, mas sim que os índices se mantêm abaixo de 2% entre gestantes vivendo com HIV, patamar considerado de sucesso pela OMS. Para o infectologista Leandro Curi , o resultado é fruto de uma estratégia consistente de cuidado materno-infantil ao longo de décadas.

Dezembro vermelho: mês da conscientização sobre prevenção do HIV
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“Não quer dizer que zerou completamente as transmissões verticais, mas elas estão em taxas muito, muito baixas, consolidadas internacionalmente como praticamente não transmissíveis. O Brasil caminha, na prática, para zerar esse tipo de infecção”, afirma Curi ao Portal iG.

Segundo o médico, o reconhecimento internacional reflete a robustez do sistema de saúde brasileiro, especialmente no acompanhamento do pré-natal.

“A cobertura pré-natal com testagem para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis segue alta. Isso permite diagnóstico precoce e tratamento imediato, o que é decisivo para evitar a transmissão”, explica.

Dovato terá a combinação de dois medicamentos usados no combate ao HIV
Breno Esaki/Agência Saúde DF
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Um dos pilares desse avanço é a distribuição universal e gratuita de antirretrovirais pelo SUS, disponível para qualquer pessoa diagnosticada com HIV.

“Com o uso correto dos medicamentos, a pessoa não transmite o vírus, nem para o bebê nem para parceiros. A gestante tratada adequadamente não coloca em risco sua saúde, a do bebê ou a de terceiros”, destaca Curi.

Além do tratamento durante a gestação, o protocolo brasileiro prevê medidas no parto e no pós-parto.

HIV e AIDS
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HIV e AIDS


“Durante a gravidez e o parto há tratamento específico, e após o nascimento a criança também utiliza medicação por um período e passa por acompanhamento médico rigoroso até a confirmação de que está livre do HIV”, detalha o infectologista.

Para o Dr. Igor Marinho, médico infectologista e diretor médico da Clivan Vacinas, o reconhecimento da OMS valida não apenas os resultados clínicos, mas também a qualidade das políticas públicas brasileiras.

“Significa que o país conseguiu reduzir esse tipo de transmissão a níveis extremamente baixos e sustentados ao longo do tempo, abaixo dos limites definidos internacionalmente para caracterizar um problema relevante de saúde coletiva”, afirmou ao Portal iG.

Segundo Marinho, o marco só foi possível graças a um conjunto de ações estruturadas no âmbito do SUS.

“O acesso universal ao diagnóstico, aos exames de monitoramento e à terapia antirretroviral, inclusive durante a gestação, foi central. A testagem obrigatória no pré-natal, o uso de testes rápidos e o início imediato do tratamento, independentemente da contagem de CD4, foram determinantes para alcançar altas taxas de supressão viral”, explica.

O protocolo brasileiro de prevenção da transmissão vertical é baseado no controle da carga viral materna.

“Quando a gestante está com carga viral indetectável, o parto vaginal é seguro. Caso a carga viral seja detectável ou desconhecida, a cesariana pode ser indicada. Após o nascimento, o recém-nascido recebe profilaxia adequada e acompanhamento até a definição do status sorológico”, detalha Marinho.

No Brasil, onde há acesso seguro a fórmulas infantis, a amamentação é contraindicada para mulheres vivendo com HIV, eliminando uma das principais vias de transmissão pós-natal.

Apesar do reconhecimento, os especialistas alertam que a vigilância não pode ser relaxada.

“Casos ainda podem ocorrer, sobretudo quando há diagnóstico tardio, falhas no pré-natal ou interrupção do tratamento. A eliminação pressupõe vigilância contínua, não a inexistência absoluta de novos casos”, ressalta Marinho.


Leandro Curi reforça o alerta. “A transmissão vertical é uma tragédia evitável. Um paciente infectado dessa forma precisará tratar o HIV por toda a vida. Se a gente baixar a guarda, os números podem voltar a subir. É uma vitória da saúde pública, mas que exige atenção permanente”, conclui.

O reconhecimento da OMS consolida o Brasil como referência internacional no enfrentamento do HIV e evidencia que, com políticas públicas sólidas, acesso equitativo ao cuidado e acompanhamento contínuo, é possível proteger mães e bebês de uma infecção que, por décadas, foi considerada inevitável.

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