
Uma brasileira em viagem pela Europa enfrentou um momento crítico de saúde após ser medicada com amoxicilina, um antibiótico de uso comum. Dias após o início do tratamento, a mulher começou a apresentar manchas vermelhas pelo corpo, inchaço generalizado e febre alta de cerca de 40 °C, alternando entre temperaturas elevadas e estados febris.
O quadro preocupante evoluiu por aproximadamente uma semana, até que foi finalmente reconhecido como uma reação medicamentosa grave chamada Síndrome DRESS (Drug Reaction with Eosinophilia and Systemic Symptoms).
Embora rara, essa condição pode ser potencialmente fatal, especialmente quando não é diagnosticada rapidamente.

O que é a Síndrome DRESS?
A Síndrome DRESS é uma reação adversa medicamentosa grave e de início tardio, que ocorre como resposta imunológica anormal a um medicamento. Diferentemente de uma alergia imediata, como urticária ou choque anafilático, ela se desenvolve tipicamente duas a seis semanas após o início da medicação, o que pode dificultar a identificação da causa.
O termo DRESS significa “Reação a Drogas com Eosinofilia e Sintomas Sistêmicos” e é caracterizado por uma combinação de erupção cutânea extensa, febre, alterações hematológicas e comprometimento de órgãos internos.
Por que a DRESS é perigosa?
Ao contrário de reações alérgicas leves, a DRESS envolve o sistema imunológico de forma sistêmica. Os sintomas incluem não apenas dermatite e febre, mas também linfadenopatia (inchaço dos gânglios), eosinofilia (altos níveis de certos glóbulos brancos no sangue) e alterações na função de órgãos como fígado, rins, pulmões e coração.
Estudos clínicos indicam que a síndrome pode levar a comprometimento hepático grave, insuficiência renal, e complicações pulmonares ou cardíacas, e tem uma taxa de mortalidade estimada em cerca de 10%, mesmo com diagnóstico e tratamento adequados.

Quais medicamentos podem desencadear DRESS?
Embora qualquer medicamento possa, em teoria, desencadear uma reação adversa, certos grupos são mais frequentemente associados à DRESS:
- Anticonvulsivantes aromáticos como carbamazepina, fenitoína e lamotrigina;
- Alopurinol, usado no tratamento da gota;
- Antibióticos, incluindo alguns do tipo sulfonamida e, em casos raros, antibióticos comuns como vancomicina ou minociclina;
- Outras drogas como anti-inflamatórios e agentes antituberculose também podem estar envolvidos.
Embora a amoxicilina seja um antibiótico amplamente utilizado e geralmente considerado seguro, relatos clínicos mostram que, em casos raros, pode também ser associada a reações de hipersensibilidade severas como a DRESS.

Sintomas mais comuns da Síndrome DRESS
A DRESS é chamada de “síndrome sistêmica” porque os sintomas não se limitam à pele. Os sinais mais típicos incluem:
Erupção cutânea extensa
A erupção geralmente aparece como manchas vermelhas ou rash maculopapular que pode cobrir grande parte do corpo e, em alguns casos, evoluir para formas mais graves de dermatite.
Febre alta e persistente
A febre superior a 38 °C é um dos primeiros sinais de alerta e pode persistir por dias, como foi observado no caso da brasileira na Europa.
Alterações hematológicas
Eosinofilia (aumento de eosinófilos) e linfócitos atípicos são características laboratoriais comuns e fazem parte dos critérios diagnósticos.
Comprometimento de órgãos internos
Os órgãos mais afetados incluem o fígado (hepatite), rins (nefropatias), pulmões (pneumonite) e coração (miocardite). Comprometimento hepático é uma das principais causas de mortalidade associada à DRESS.

Linfadenopatia
O inchaço dos gânglios linfáticos, especialmente em várias cadeias, é outro sinal importante.
Como a DRESS é diagnosticada?
O diagnóstico de DRESS é desafiador porque seus sintomas podem imitar outras doenças, como infecções virais ou outras reações alérgicas. Por isso, médicos frequentemente utilizam critérios clínicos e laboratoriais reconhecidos internacionalmente, como o RegiSCAR score, que ajuda a diferenciar possíveis, prováveis ou diagnósticos definitivos de DRESS com base em múltiplos parâmetros clínicos e laboratoriais.
Exames comuns incluem hemograma completo (para avaliar eosinofilia), testes de função hepática e renal, e avaliação de sintomas sistêmicos. A história de uso de medicamentos nas semanas anteriores também é um elemento fundamental.
Tratamento: o que os médicos recomendam?
A ação mais importante no tratamento da DRESS é a suspensão imediata do medicamento causador. Assim que a reação é suspeita, o fármaco deve ser interrompido, mesmo que ainda faltem resultados laboratoriais conclusivos.

Corticosteroides sistêmicos
Nos casos moderados a graves, corticosteroides como prednisona ou metilprednisolona são frequentemente usados para suprimir a resposta imunológica exagerada. A dose é reduzida gradualmente ao longo de semanas ou meses para evitar recaídas.
Internação e monitoramento
Pacientes graves muitas vezes necessitam internação hospitalar para monitoramento contínuo dos órgãos afetados e tratamento de suporte, que pode incluir hidratação, antipiréticos e o manejo de complicações.
Terapias adicionais
Em casos refratários ou com intensa inflamação, alguns especialistas podem recorrer a ciclosporina, imunoglobulinas intravenosas ou mesmo tratamentos imunossupressores alternativos, sempre sob rigoroso acompanhamento médico.
Prevenção e cuidados futuros
Não existe uma forma garantida de prevenir a DRESS, mas algumas medidas podem reduzir o risco ou acelerar o reconhecimento:
- Histórico cuidadoso de alergias medicamentosas antes de prescrever fármacos de alto risco;
- Monitoração médica frequente nos primeiros dois meses após iniciar medicamentos com maior probabilidade de causar reações graves;
- Educação do paciente para relatar imediatamente sintomas como manchas na pele, febre persistente ou mal-estar intenso.
Após a recuperação, muitos pacientes são aconselhados a evitar permanentemente o medicamento suspeito e, em alguns casos, realizar testes alérgicos sob supervisão médica especializada para determinar quais drogas devem ser evitadas no futuro.
DRESS é rara, mas o risco é real
A síndrome DRESS é considerada uma condição rara, com incidência estimada entre 1 em 1.000 e 1 em 10.000 exposições medicamentosas, dependendo do tipo de medicamento e da população estudada.
Porém, quando ocorre, a consequência pode ser grave, incluindo danos a órgãos essenciais e risco de morte, tornando essencial a atenção médica imediata diante dos sintomas descritos.