
O Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentou o uso do plasma rico em plaquetas (PRP) no tratamento de quatro condições ortopédicas: osteoartrite de joelho, discopatia lombar, epicondilite lateral do cotovelo e reparo meniscal. A decisão, publicada em 15 de julho, retira o procedimento da condição de tratamento experimental e estabelece critérios para sua utilização na medicina brasileira.
A mudança amplia o espaço para uma técnica que utiliza o próprio sangue do paciente como fonte de plaquetas. O objetivo é concentrar essas células e aplicá-las na região lesionada, buscando estimular processos de reparação dos tecidos e modular a inflamação.
A liberação, no entanto, não significa que o PRP seja indicado para qualquer pessoa com uma dessas doenças. A regulamentação exige diagnóstico, avaliação clínica individualizada, análise de exames complementares, investigação de possíveis contraindicações e definição dos objetivos do tratamento.
Para o ortopedista Leonardo Zanesco, especialista em ombro e cotovelo, a decisão representa um avanço porque reconhece o uso do procedimento em situações nas quais já existe produção científica sobre seus resultados.
“São todas condições degenerativas, ligadas ao desgaste. Todas elas também têm ciência sólida por trás. Outras provavelmente também se beneficiam, mas ainda faltam estudos para podermos afirmar.”
Como funciona o plasma rico em plaquetas
O plasma representa cerca de 55% do volume do sangue e atua no transporte de diferentes substâncias pelo organismo. Já as plaquetas são fragmentos celulares produzidos na medula óssea e conhecidos principalmente por sua participação no processo de coagulação.
No tratamento com PRP, uma amostra do sangue do próprio paciente é coletada e passa por um processo de centrifugação. O procedimento permite concentrar as plaquetas, que depois são aplicadas na região que será tratada.
De acordo com Zanesco, a proposta é atuar em duas frentes: estimular a regeneração dos tecidos e ajudar no controle da inflamação local.
Pesquisas recentes investigam os mecanismos envolvidos nessa resposta. Um estudo publicado em novembro de 2025 na revista International Journal of Molecular Sciences analisou os efeitos moleculares do PRP e suas aplicações clínicas, incluindo a influência sobre mediadores relacionados aos processos inflamatórios.
Ainda assim, os resultados dependem da condição tratada, do estágio da doença e das características de cada paciente. Por isso, a indicação não pode ser feita de maneira generalizada.
Tratamento não substitui fisioterapia ou cirurgia
Um dos pontos que merecem atenção é o papel do PRP dentro do tratamento. A técnica não deve ser entendida como uma solução isolada para problemas ortopédicos.
Na avaliação de Zanesco, fisioterapia e cirurgia, quando indicadas, continuam ocupando papel central no cuidado do paciente.
“A fisioterapia ou a cirurgia são os pilares do tratamento. O PRP não substitui nenhum dos dois, ele é um estímulo biológico que potencializa o resultado”, afirma.
Na prática, segundo o especialista, uma das utilizações mais frequentes é associada à fisioterapia. Nesse contexto, cada abordagem cumpre uma função diferente.
“A fisioterapia corrige a mecânica do movimento e o PRP entra com o estímulo biológico à cicatrização.”
A técnica também pode ser considerada em diferentes momentos do tratamento, conforme a avaliação médica. No entanto, parte relevante dos estudos disponíveis concentra-se na utilização do PRP após procedimentos cirúrgicos. Pesquisas também avaliam a possibilidade de aplicação antes de cirurgias.
Quem pode receber o PRP
A regulamentação do CFM estabelece que a indicação deve considerar as características individuais de cada paciente. Portanto, ter um diagnóstico de osteoartrite de joelho, discopatia lombar, epicondilite lateral ou lesão meniscal não significa, automaticamente, que a pessoa será candidata ao procedimento.
O primeiro passo é confirmar o diagnóstico e avaliar a extensão do problema. Depois, o médico deve analisar os exames complementares, verificar possíveis contraindicações e estabelecer qual é o objetivo terapêutico.
A recomendação também considera a resposta do paciente aos tratamentos convencionais. Em diretrizes internacionais recentes, o PRP aparece como possibilidade para determinados pacientes que continuam apresentando sintomas mesmo depois de medidas tradicionais.
Esse cuidado é importante porque o procedimento não elimina a necessidade de tratar a causa do problema. Em doenças relacionadas ao desgaste, por exemplo, fatores mecânicos, hábitos, fortalecimento muscular e reabilitação continuam fazendo parte da estratégia terapêutica.
Procedimento tem riscos e exige avaliação
Embora utilize material retirado do próprio paciente, o PRP não é isento de riscos. Segundo Zanesco, uma das reações mais comuns é o aumento temporário da dor nos primeiros dias após a aplicação. Em geral, o quadro tende a desaparecer espontaneamente.
Também existe risco de infecção, como ocorre em outros procedimentos de infiltração. Além disso, a técnica de aplicação é um fator relevante para a segurança.
“O risco mais relevante do PRP não é do produto em si, é da técnica. Nas mãos erradas, uma aplicação mal feita pode agravar a lesão. Por isso importa quem aplica.”
A resolução do CFM determina que a coleta do PRP seja realizada a partir do próprio sangue do paciente. A aplicação deve ocorrer em ambiente compatível com a complexidade do procedimento, que pode ser um consultório ou um hospital, conforme a situação.
A regulamentação representa uma mudança no reconhecimento do PRP pela medicina brasileira, mas não transforma o procedimento em tratamento universal. A decisão reforça a necessidade de avaliação individualizada e de integração com outras formas de cuidado.
Para o paciente, a principal mudança é que a técnica passa a ter respaldo regulatório para as quatro condições previstas na resolução. A indicação, porém, continua dependendo da análise médica e da definição de uma estratégia terapêutica adequada para cada caso.