Tim Andrews, de 66 anos, recebeu o rim de um miniporco enquanto esperava um órgão humano
Reprodução/Massachusetts General Hospital (MGH)
Tim Andrews, de 66 anos, recebeu o rim de um miniporco enquanto esperava um órgão humano

Um homem de 66 anos conseguiu ficar nove meses sem fazer diálise após receber um rim de porco geneticamente modificado nos Estados Unidos . O órgão funcionou por 271 dias até receber doação de rim humano.

O caso é o período mais longo que uma pessoa conseguiu ficar sem precisar de diálise após receber um rim de porco. Também foi a primeira vez que um paciente recebeu um rim humano depois de passar por esse tipo de transplante .

Tim Andrews tinha doença renal em estágio terminal, provocada pelo diabetes tipo 2, e fazia diálises há dois anos na fila por um transplante. Como a  espera por um órgão humano poderia ser longa, os médicos buscaram uma alternativa para manter o paciente sem precisar de diálise.

Segundo a United Network for Organ Sharing (UNOS), mais de 100 mil pessoas nos Estados Unidos aguardam um órgão para transplante, e 17 pessoas morrem todos os dias enquanto esperam por um órgão.

Foi então que a equipe decidiu usar um rim de porco como uma espécie de "ponte" até que um órgão humano estivesse disponível.

Tim caminha pelos corredores do hospital após o transplante, em janeiro de 2025
Reprodução/Massachusetts General Hospital (MGH)
Tim caminha pelos corredores do hospital após o transplante, em janeiro de 2025


Rim de porco foi modificado antes do transplante

O procedimento é chamado de xenotransplante , nome dado ao transplante de um órgão de um animal para uma pessoa. O rim usado veio de um miniporco criado em uma instalação especial, onde os animais são mantidos livres de agentes que podem causar doenças .

Antes do transplante, os pesquisadores fizeram 69 alterações no material genético do animal para reduzir as chances de que o sistema de defesa do paciente  reconhecesse o rim como estranho e tentasse destruí-lo.

Assim que acordei depois da cirurgia, aquela preocupação constante com a diálise desapareceu. Senti que minha energia e minha disposição tinham voltado. Foi um milagre. É difícil acreditar no que esses médicos e enfermeiros conseguiram fazer, e quero agradecer a eles por me darem uma nova chance de viver. Mas este transplante não é sobre mim. É sobre todas as pessoas que conheci na clínica de diálise e que vi enfrentando as mesmas dificuldades. Mais de 500 mil pessoas fazem diálise, e quero inspirá-las a nunca perder a esperança, porque é isso que este transplante representa. É uma luz de esperança. Tim Andrews, paciente do Massachusetts General Hospital.


Mesmo com essas alterações, os médicos perceberam uma reação leve de rejeição 14 dias após a cirurgia. Após três meses, a equipe reduziu a quantidade de medicamentos usados para controlar essa reação.

Seis meses depois do transplante, os médicos encontraram danos nas paredes dos vasos sanguíneos do rim. Andrews também precisou passar por uma cirurgia para retirar um acúmulo de sangue no tecido ao redor do órgão.

Xenotransplantação é uma técnica que usa órgãos de animais em transplantes para seres humanos
Reprodução/Massachusetts General Hospital (MGH)
Xenotransplantação é uma técnica que usa órgãos de animais em transplantes para seres humanos


Por volta de 220 dias depois da cirurgia, o homem teve uma infecção causada por uma bactéria . Os médicos, então, reduziram novamente os medicamentos usados para controlar o sistema de defesa do organismo.

Ainda surgiram inflamações em pequenos vasos sanguíneos. O rim deixou de funcionar e precisou ser retirado no dia 271 após o transplante. Até aquele momento, o paciente não precisou fazer diálise.


Paciente passou dois meses em diálise

Depois da retirada do órgão do animal, o homem passou 82 dias fazendo diálise até que, em janeiro de 2026, ele finalmente recebeu um rim humano de um doador .

Quase sete meses depois do novo transplante, os médicos não encontraram sinais de rejeição. Segundo os pesquisadores, o fato de Andrews ter recebido um rim de porco antes não dificultou o transplante do órgão humano. Os médicos também não encontraram ainda sinais de que agentes capazes de causar doenças tenham passado do animal para o paciente.

O caso foi relatado por pesquisadores liderados por Leonardo Riella, do Massachusetts General Hospital, em Boston, e publicado na revista científica The Lancet.

Para os pesquisadores, os resultados indicam que rins de porcos geneticamente modificados podem, no futuro, ajudar pacientes que aguardam um transplante humano.

A expectativa é que, caso pesquisas futuras confirmem a segurança e a durabilidade dos órgãos, eles possam deixar de ser usados apenas como uma solução temporária e continuar no paciente de forma permanente.

Nossa visão é que o xenotransplante possa ajudar a suprir essa lacuna — inicialmente como uma ponte para que os pacientes deixem a diálise enquanto aguardam um rim de doador humano e, potencialmente, à medida que estabelecermos segurança e durabilidade a longo prazo, como uma terapia definitiva por si só. Leonardo Riella, pesquisador do Massachusetts General Hospital.


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