
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou seu primeiro guia específico para orientar a prevenção e o tratamento da obesidade entre crianças e adolescentes. O documento recomenda uma abordagem integral, com atenção a fatores biológicos, comportamentais, sociais e ambientais. A iniciativa ocorre em meio ao avanço do problema no mundo e reforça a importância da atuação conjunta de famílias, escolas, profissionais de saúde e governos.
Em 2024, aproximadamente 400 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos apresentavam excesso de peso no mundo. Desse total, 170 milhões viviam com obesidade, segundo dados da própria OMS. A prevalência global da condição nessa faixa etária passou de 2%, em 1990, para 8%, em 2024.
No Brasil, o cenário também exige atenção. Dados divulgados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 2025, apontam que a prevalência de excesso de peso entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos dobrou entre 2000 e 2022, passando de 18% para 36%. No mesmo período, a obesidade triplicou, de 5% para 15%.
Uma revisão sistemática brasileira publicada em 2026, que reuniu 82 estudos científicos, identificou excesso de peso em 35,3% das crianças e 28,5% dos adolescentes. As prevalências de obesidade foram de 16,5% e 8,5%, respectivamente.
Para Joseane Nobre, coordenadora do curso de Nutrição do Centro Universitário UniMetrocamp Wyden, o enfrentamento da obesidade infantil precisa considerar as condições em que crianças e adolescentes vivem. Por isso, a prevenção não deve se concentrar exclusivamente no peso corporal.
“A obesidade na infância e na adolescência é uma condição multifatorial. A alimentação, a prática de atividade física, o sono, a rotina familiar, as condições socioeconômicas e o ambiente em que a criança vive influenciam diretamente a saúde. Por isso, a prevenção precisa ser construída de forma contínua, com orientação adequada e mudanças possíveis de incorporar ao cotidiano”, avalia a especialista.
Educação alimentar começa em casa
A formação dos hábitos alimentares ocorre ao longo da infância e recebe influência direta do comportamento dos adultos e das opções disponíveis em casa e na escola.
O consumo frequente de alimentos ultraprocessados, associado à baixa ingestão de frutas, verduras, legumes e outros alimentos in natura ou minimamente processados, pode contribuir para o desenvolvimento de problemas de saúde.
Nesse contexto, a educação alimentar e nutricional ajuda a estimular escolhas equilibradas desde os primeiros anos de vida. A proposta não se limita à restrição de determinados alimentos.
Também envolve ampliar a variedade da alimentação, respeitar os sinais de fome e saciedade e construir uma relação saudável com a comida.
“É fundamental que a criança tenha contato com diferentes alimentos e participe, dentro das suas possibilidades, das experiências relacionadas à alimentação. Quando a família compartilha refeições, oferece opções variadas e dá o exemplo, contribui para a construção de hábitos que podem acompanhar essa criança por toda a vida. A orientação nutricional deve ser individualizada e respeitar cada fase do desenvolvimento”, explica Joseane.
A rotina também precisa contemplar oportunidades para brincar e praticar atividades físicas, tempo adequado de sono e redução do comportamento sedentário. A disponibilidade de alimentos saudáveis e a participação da escola são outros fatores importantes.
A especialista ressalta que as estratégias de prevenção devem considerar as dificuldades enfrentadas por cada família. O acesso à alimentação adequada e a espaços seguros para atividades físicas, por exemplo, interfere nas possibilidades de mudança.
“Não basta dizer que uma criança precisa comer melhor ou se movimentar mais. É necessário compreender quais são as barreiras enfrentadas por aquela família, se há acesso a alimentos adequados, espaços seguros para atividades físicas e acompanhamento de saúde. A prevenção precisa ser acolhedora, acessível e livre de estigmas”, afirma.
Acompanhamento pediátrico identifica riscos
O acompanhamento regular do crescimento e do desenvolvimento permite identificar precocemente alterações relacionadas ao excesso de peso.
Para Eucilene Kassya Barros, médica pediatra e professora do Instituto de Educação Médica (Idomed), a avaliação deve considerar diferentes indicadores, e não apenas o peso.
“Precisamos considerar a idade, o sexo, a altura e, principalmente, a evolução da criança nas curvas de crescimento. É importante compreender que a obesidade não é uma questão estética. Estamos falando de uma condição que pode comprometer a saúde, inclusive durante a infância”, explica.
A obesidade infantil pode estar associada a alterações da pressão arterial, resistência à insulina, diabetes tipo 2, alterações do colesterol e doença hepática associada à disfunção metabólica. Problemas respiratórios, como a apneia do sono, também estão entre as possíveis consequências.
Além dos efeitos físicos, o preconceito relacionado ao peso pode prejudicar a autoestima, a saúde mental e o convívio social de crianças e adolescentes. Bullying e exclusão reforçam a necessidade de um atendimento respeitoso, sem julgamentos.
A pediatra recomenda que as famílias mantenham as consultas de rotina e não esperem o aparecimento de sintomas ou complicações para buscar atendimento.
Nas consultas de puericultura, os profissionais avaliam medidas e indicadores de crescimento, além de hábitos alimentares, sono, atividade física e contexto familiar.
Guia da OMS defende tratamento contínuo
Na avaliação de Eucilene, o lançamento do primeiro guia específico da OMS para a obesidade em crianças e adolescentes representa um marco para a saúde infantil.
A médica destaca que as recomendações reforçam a necessidade de intervenções estruturadas, que envolvam alimentação, atividade física e mudanças de comportamento.
“Um dos pontos mais importantes é o reconhecimento de que o tratamento precisa ser integral, individualizado e contínuo. A OMS recomenda intervenções estruturadas que envolvam alimentação, atividade física e mudanças de comportamento, sempre considerando a realidade da criança e de sua família”, destaca.
O acompanhamento também deve considerar a saúde mental e envolver diferentes profissionais.
Segundo a pediatra, a obesidade é uma doença crônica e multifatorial, influenciada por aspectos genéticos, biológicos, ambientais, comportamentais e sociais.
Por isso, o cuidado não deve se limitar a intervenções pontuais ou a metas de perda de peso.
“Precisamos considerar a melhora da saúde metabólica, da qualidade do sono, da disposição física, da autoestima e da relação da criança com a alimentação e com o próprio corpo. Reconhecer a obesidade como doença crônica significa reconhecer que ela tem direito a cuidado, acompanhamento e tratamento adequado, sem julgamentos”, afirma.
A médica também aponta a importância das políticas públicas e do acesso aos serviços de saúde. Para ela, o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde e do Sistema Único de Saúde (SUS), além da integração entre saúde, educação e assistência social, são medidas necessárias para ampliar a prevenção e o tratamento.
“Uma criança não pode depender exclusivamente das condições financeiras de sua família para ter acesso à prevenção e ao tratamento da obesidade. Cuidar da obesidade infantil também é uma questão de equidade e de justiça social”, conclui.