
Não tenho lugar de fala, mas não me calo diante de algo que já deveria ter sido extinto do nosso convívio. Imaginar que há pessoas que ainda são desconsideradas como seres humanos por terem a cor da pele diferente dos povos colonizadores é algo que me choca. Acontece isso com você?
Hoje, no Brasil, é o Dia da Consciência Negra. Mas, saibamos que esse Dia é menos de celebração e mais de conscientização e foi escolhido por marcar a morte de Zumbi dos Palmares, ocorrida em 1695. Zumbi foi símbolo de resistência contra a escravização e de busca pela liberdade.
Para minha perplexidade, 330 anos se passaram e ainda temos a necessidade e ter um feriado para promover a igualdade racial e combater o racismo estrutural. Lei de 2023 fez com que o Dia 20 de novembro se tornasse feriado nacional.
Perguntei para três pessoas que admiro muito o que essa data representa pra elas. Eliane Belchior, Maria Moraes e Jéssica Santos. Conheci Eliane quando dividimos o mesmo painel para falar de equidade, Maria foi nos bastidores de um TEDX e Jéssica, através de um curso que fizemos. Três mulheres pretas, poderosas, atuantes e inspiradoras.

Eliane fará 55 anos amanhã, é economista e acredita que falar de ancestralidade nesse dia deve ser um ponto de partida e não de chegada. Conta que a história das pessoas pretas não foi contada de forma correta nas escolas. Usa a voz para amplificar narrativas negras e promover a equidade racial, para que novas pessoas possam ocupar lugar de decisão. Acredita que hoje é uma oportunidade de minimizar os enfrentamentos do racismo estrutural, que ainda persiste. “Eu honro minha ancestralidade e cada pessoa preta que resiste com dignidade, inteligência e potência. Transformamos nossa dor em força, a invisibilidade em protagonismo e exclusão em presença”.

Maria Moraes, tem 41 anos e essa filha da Dona Ana é um orgulho pra mãe. Além de ser jornalista, ter feito pós-graduação em marketing digital e atuar como analista de desenvolvimento de produtos no mundo corporativo, ela é cofundadora de uma comunidade de mulheres negras que atuam na área dela e é líder do comitê de igualdade racial do Grupo Mulheres do Brasil. Ela contou para mim que: “ser uma pessoa negra no Brasil é existir em uma sociedade que foi estruturada para negar nossa humanidade e limitar nossos horizontes. É saber que não estamos diante de desigualdades ocasionais, mas de um projeto histórico que insiste em nos colocar à margem do trabalho, na educação, na política e até na forma como nossas dores são reconhecidas”.
Pois se isso não é triste, não sei o que é. Você que lê essa mensagem de alguém que tem lugar de fala e atua para dar voz aos que não conseguem se expressar, pode começar a replicar o que sentiu. E Maria continua, firme: “Quando penso nessa data eu insisto em dizer que não basta celebrar a presença negra, mas é preciso enfrentar as estruturas que nos afastam dos lugares onde as decisões são tomadas”.

Jéssica Santos, 35 anos, formada em gestão de eventos e pós-graduada em marketing e estratégias digitais, é uma empreendedora criada pela mãe e pelos avós paternos na periferia de São Paulo, que construiu a própria trajetória com a certeza de que o ponto de partida não define o destino. Fundou a Sankofa, empresa que organiza e realiza eventos especiais. O nome vem de uma palavra africana que significa “voltar ao passado para resgatar o que é essencial”, princípio que guia o trabalho dela. Aproveito para perguntar sobre a Data e Jéssica diz que cria, lidera e ocupa pra que as mulheres negras que virão depois encontrem um caminho menos pesado. “Quero para elas, aquilo que eu procurei durante anos: uma prova viva de que é possível e o Dia da Consciência Negra não é só uma data, é um lembrete de luta, de legado e de responsabilidade. É sobre honrar quem abriu a porta antes de nós e garantir que ela permaneça ampla pra todas que vierem”.