
A ideia de “pensar positivo” ganhou tanta força nos últimos anos que acabou gerando um efeito colateral: a positividade tóxica, aquela tendência de se pressionar para manter uma atitude positiva mesmo diante de situações que exigem entendimento e reflexão. Pesquisas mostram que ignorar emoções negativas não as elimina, apenas as desloca para o inconsciente, onde podem gerar mais estresse e desgaste psicológico.
Estudos de James J. Gross, psicólogo americano e referência em regulação emocional, mostram que suprimir emoções aumenta a ativação fisiológica do corpo, não reduz o desconforto e, pelo contrário, torna as pessoas menos capazes de lidar com problemas de forma eficaz. Fingir que um problema não existe não é um sinal de força emocional, mas é um obstáculo para decisões lúcidas.
Treinar a mente, portanto, não significa negar o que não funciona — mas aprender a observar e incluir o que está dando certo. Pesquisas em psicologia cognitiva indicam que o cérebro tem um viés natural para detectar ameaças, o chamado negativity bias, que é a tendência humana de dar mais atenção, lembrar com mais vividez e ser mais influenciado por eventos, informações ou estímulos negativos em comparação com os positivos. Isso faz sentido do ponto de vista evolutivo, mas pode distorcer a percepção quando não é equilibrado. O treino mental, então, envolve desenvolver a capacidade de notar elementos positivos reais, e não imaginários, para contrabalançar esse viés.
É nesse ponto que a gratidão ganha relevância científica. Estudos de Robert Emmons e Michael McCullough mostram que práticas simples de gratidão — como registrar diariamente coisas pelas quais se é grato — aumentam bem-estar subjetivo, reduzem sintomas de depressão leve e melhoram padrões de sono. O efeito não vem de “atrair vibrações”, mas de reorganizar a atenção: a gratidão amplia a percepção do que está funcionando e fortalece recursos internos importantes, como motivação, estabilidade emocional e resiliência.
Ela não apaga problemas, mas ajuda a criar o equilíbrio necessário para enfrentá-los. Ver o que funciona não é negar o que não funciona; é impedir que o cérebro enxergue o mundo apenas pelas frestas da dificuldade.
Combinar honestidade emocional com práticas de foco positivo saudável — como gratidão, autocompaixão e análise realista da situação — é muito mais eficaz do que a obrigação de estar bem o tempo todo. Não dá para fingir que as emoções negativas não nos atingem, mas ter clareza para não se perder nelas é o que ajuda a manter a nossa mente saudável e, consequentemente, todo o restante do corpo. Eu costumo dizer que devemos sair da ilusão e olhar a vida com presença e verdade. A autenticidade é o que nos garantirá um legado.