Orelha foi encontrado gravemente machucado e foi submetido à eutanásia
Reprodução | Redes Sociais
Orelha foi encontrado gravemente machucado e foi submetido à eutanásia


A morte do cachorro Orelha, ocorrido em Santa Catarina, gerou comoção nacional e reacendeu o debate sobre maus-tratos contra animais no Brasil. Conhecido e cuidado coletivamente por moradores da região, Orelha era parte viva da comunidade da Praia Brava, bairro de Florianópolis. No dia 04 de janeiro, ele foi encontrado gravemente ferido após sofrer agressões e foi submetido à eutanásia devido à violência da qual foi vítima.

O caso, investigado pela Polícia Civil, envolve adolescentes suspeitos e levantou discussões que vão além da responsabilização legal, alcançando temas como educação, empatia, violência precoce e o papel da sociedade na proteção dos animais. A repercussão do episódio transformou Orelha em símbolo de indignação coletiva e de um apelo por justiça, reforçando a urgência de refletir sobre limites, responsabilidades e humanidade.

Mais do que um episódio isolado de crueldade, o caso de Orelha evidencia a necessidade urgente de refletir sobre o papel da educação familiar na formação ética e emocional de crianças e adolescentes. Atitudes violentas não surgem no vazio: elas se constroem, muitas vezes, em ambientes onde limites não são claros, a empatia não é ensinada e a responsabilidade pelos próprios atos é relativizada.

Psiquiatra Eduardo Ferreira Santos
Arquivo pessoal
Psiquiatra Eduardo Ferreira Santos



Conversei com o psiquiatra e psicoterapeuta Eduardo Ferreira Santos, autor de mais de seis livros sobre temas relacionados à psiquê humana. Segundo ele, os filhos da Geração Y (Millennials), nascidos entre 1981 e 1996, foram criados por pais que não souberam impor limites, por medo das críticas. Um traço comum a muitos desses filhos é o egocentrismo e a falta de valores e noção do certo e do errado. “São pequenos tiranos, que acham que podem tudo.  Falta de limite com perversidade gera fatos como o que vemos atualmente”, analisa o médico, que trabalhou por 30 anos como supervisor no Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

O advogado Alexandre Beltrão Braga com Júnior, Dona, Gino, Ratinho e Geno
Arquivo pessoal
O advogado Alexandre Beltrão Braga com Júnior, Dona, Gino, Ratinho e Geno

 Para me aprofundar no tema, fui buscar o ponto de vista de alguém que conhece o assunto de perto. Alexandre Beltrão Braga é advogado de Direito Animal e apresenta um programa que se chama “Bom dia Bicho! Se engajou no assunto a partir das enchentes do Rio Grande do Sul, em maio de 2024, onde permaneceu por seis meses na linha de frente. Reorganizou abrigos para mais de três mil cães e promoveu encontros dos pets com os tutores responsáveis e adoções por todo o país. Para ele, a existência de Orelha dependia exclusivamente do limite ético da sociedade ao redor. E quando esse limite falhou, a violência se impôs. “Se o sistema hesita em reagir com a seriedade necessária, a injustiça se aprofunda. Em situações de violência extrema contra animais, a resposta do Estado não pode se limitar a advertências simbólicas. Medidas como acompanhamento psicossocial rigoroso e responsabilização civil dos responsáveis legais são juridicamente possíveis e socialmente necessárias. Não se trata apenas de conduta dos menores suspeitos, mas do comportamento de adultos que tentam relativizar, silenciar ou encobrir a gravidade do ocorrido”, conclui o advogado.

“A responsabilização não é vingança. É compromisso coletivo com a interrupção de ciclos de violência. Isso não é moda. Não é exagero. É civilização” - Alexandre Beltrão Braga

Por fim, quero evidenciar o amor que a consultora de marketing e ESG, Estela Lobo, tem pelos animais. Acolheu três cães que sofreram maus-tratos e foram abandonados e por sorte cruzaram o caminho dela. Nina estava perdida e estava com cinomose, doença que atinge animais que não foram vacinados. Viveu com Estela por nove anos. Bento foi encontrado pelo Instituto AdoteDog acorrentado a uma árvore, sem água ou comida e com as patas queimadas pelo calor do chão. Ele viveu com a consultora por cinco anos. O Black foi encontrado por ela amarrado numa calçada perto da Avenida Paulista e adotado por uma família que ela conseguiu pra ele em Santos.

Vale ressaltar que maltratar animais é crime no Brasil, de forma clara e expressa no artigo 32 da Lei nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais), que define como crime: Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais, sejam eles silvestres, domésticos ou domesticados.

Quando pais ou responsáveis tentam acobertar atos de violência cometidos por seus filhos contra animais, o problema deixa de ser apenas o ato infracional do adolescente e passa a revelar uma falha ética grave na educação adulta. Proteger um filho não significa livrá-lo das consequências de seus atos, mas ajudá-lo a compreender a gravidade do que fez, assumir responsabilidade e reparar o dano. O acobertamento, seja por omissão, intimidação de testemunhas ou distorção dos fatos, alerta para um exemplo perigoso: a de que a violência pode ser relativizada quando convém. Esse comportamento não apenas compromete o desenvolvimento moral do jovem, como também contribui para a naturalização da crueldade e para a repetição de condutas violentas no futuro. Ao tentar silenciar a justiça, o adulto abandona seu papel educativo e se torna parte do problema que deveria combater.

E eu não estou só falando da morte do Orelha.

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