
Mesmo com avanços nas discussões sobre saúde masculina, muitos homens ainda encontram dificuldade em falar sobre emoções, fragilidades e medo, sobretudo quando o tema envolve o câncer de próstata. A resistência, segundo especialistas, é resultado de tabus sociais profundamente enraizados e de um modelo de masculinidade que, historicamente, associa vulnerabilidade à perda de força.
De acordo com o psicólogo Edilson José Ferreira de Oliveira, esse silêncio emocional é um reflexo direto da forma como os homens foram ensinados a lidar com seus sentimentos. “A ideia de que demonstrar emoção fragiliza a masculinidade ainda é muito presente. Esse tabu impede muitos pacientes de buscar ajuda e até de falar sobre seu sofrimento”, explicou à coluna.
A psicóloga e pós-doutora Valeska Zanello, referência em estudos sobre masculinidade e saúde mental, destaca em seu livro que comportamentos comuns — como evitar o choro — são culturalmente incentivados em homens. Em "Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação", ela aponta como expressões emocionais simples são desencorajadas, criando dificuldades até para ações básicas de prevenção. Trazer essa lógica para o Novembro Azul explica por que tantos homens evitam consultas, exames e conversas sobre a própria saúde.
Essa expectativa de autocontrole absoluto se intensifica diante de um diagnóstico de câncer de próstata. Segundo o psicólogo Edilson Ferreira, não é raro que pacientes manifestem ansiedade, medo e até vergonha, especialmente devido a preconceitos associados à doença e à sexualidade masculina. “Há um abalo na autoestima e um medo significativo relacionado à mortalidade. Sem apoio emocional adequado, muitos entram em negação, o que prejudica o engajamento no tratamento”, afirma.
Papel do psicólogo
O papel do psicólogo nesse processo é central. Durante o tratamento, o acompanhamento ajuda o paciente a ressignificar a dor emocional, reconstruir sentido de vida e enfrentar o impacto psicológico da doença. “O bem-estar emocional influencia diretamente a evolução clínica. Acolhida, informação e escuta ativa são pilares que evitam a negação e fortalecem a adesão terapêutica”, destaca Edilson.
A família também exerce papel importante, desde que não invada a autonomia do paciente. Tratar o homem como alguém frágil ou dependente, segundo o especialista, pode reforçar estigmas e aumentar o sofrimento. O apoio mais eficaz é aquele que preserva sua singularidade sem criar rótulos ou expectativas irreais.
Entre as preocupações mais frequentes está o impacto do tratamento na autoestima e na sexualidade. Nesse ponto, terapias individuais ou em grupo ajudam a acolher medos e desconstruir tabus. “A ansiedade e o estresse podem intensificar a impotência sexual. Por isso, trabalhar emoções e ampliar o diálogo é fundamental”, aponta o psicólogo.

psicólogo Edilson José Ferreira de Oliveira
Para muitos pacientes, o câncer se torna também um momento de reflexão e reorganização emocional. O diagnóstico pode despertar questões sobre propósito, tempo e autocuidado, e transformar-se em um ponto de virada, desde que acompanhado por profissionais preparados. “Reprojetar a vida, redefinir ritmo e expectativas, e ressignificar a experiência são caminhos possíveis e saudáveis”, afirma Edilson.
Após o tratamento, manter a saúde mental envolve reconhecer limites, buscar rede de apoio, cuidar da alimentação, movimentar o corpo e preservar vínculos afetivos. O acompanhamento psicológico e multiprofissional segue sendo uma das formas mais eficazes de prevenir o medo constante da recidiva.
