
A sobrecarga enfrentada por mães de crianças autistas no Brasil tem revelado um quadro silencioso de adoecimento emocional. Especialistas afirmam que o sofrimento dessas mulheres não nasce da maternidade, mas da falta de acesso a direitos básicos como saúde, inclusão e apoio contínuo.
A frase da jornalista Débora Saueressig, mãe de um menino autista de 7 anos, sintetiza esse cenário: “O que adoece não é o filho — é a falta de acesso ao básico.” O relato, compartilhado por milhares de mães, reflete a rotina marcada por exaustão, culpa e solidão.
Diagnóstico é só o início da sobrecarga
A busca por diagnóstico costuma ser o primeiro obstáculo, seguido de negativas de planos de saúde, dificuldade de acesso a terapias e inclusão escolar restrita.
“Em alguns momentos, desistir parece uma opção”, contou Débora à coluna , diagnosticada tardiamente com autismo.
Dor que virou política pública
A trajetória de Sarita Melo evidencia as falhas do sistema. Após o diagnóstico da filha, Elisa, a primeira escola recusou matrícula e o plano de saúde negou terapias essenciais.
A partir dessas experiências, Sarita iniciou uma mobilização nacional. A atuação resultou na Lei 14.454/2022, que derrubou o rol taxativo da ANS e ampliou a cobertura de terapias baseadas em evidências. Ela também colaborou com a Anvisa para agilizar a liberação de medicamentos controlados usados em tratamentos neurológicos.
“Enquanto buscávamos 40 horas de terapia, enfrentávamos burocracias que atrasavam o desenvolvimento da criança e adoeciam as mães”, afirma.
Cientificamente comprovado: o estresse é extremo
As pesquisas mostram que a sobrecarga não é exagero, é física.
• CDC (2025): 1 em cada 31 crianças está no espectro.
• IBGE: 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de TEA.
• Waisman Center: mães de autistas apresentam níveis de cortisol semelhantes aos de soldados em combate.
• JADD (2024): 45% das mães/cuidadoras apresentam sintomas depressivos clinicamente relevantes.
• PLOS One (2023): apoio social adequado reduz ansiedade e depressão, mas é escasso no Brasil.
• IBGE (2022): brasileiras dedicam 21,3 horas semanais a cuidados e tarefas domésticas; quase o dobro dos homens.
Para a psiquiatra Dra. Neusa Agne, o quadro é estrutural.
“Sem rede de apoio, políticas públicas ou acompanhamento clínico, essas mulheres vivem em estado contínuo de ativação. Isso altera o eixo do estresse e mantém o cortisol elevado.”
Sobrecarga com recorte de gênero, raça e classe
A advogada Vanessa Ziotti, autista e mãe de trigêmeos autistas, reforça que a responsabilidade do cuidado ainda é tratada como obrigação privada, recaindo quase sempre sobre mulheres, especialmente as negras e de baixa renda.
“O cuidado não é um favor. É um direito. Quando o Estado não garante suporte, perpetua desigualdade, violência e negligência.”
Caminhos possíveis dependem de políticas públicas
Para Saueressig, o avanço passa por uma rede articulada entre saúde, educação e assistência.
“Sem acesso integral às terapias, acompanhamento psicológico para mães e reconhecimento do cuidado como um trabalho, não existe inclusão real.”
Ela defende formações contínuas para escolas e serviços de saúde. “Sem preparo técnico e empatia, esses espaços continuam sendo ambientes de exclusão.”
Sarita destaca o impacto direto do suporte:
“Quando o acesso chega, a criança melhora e a mãe também. O que destrói essas mulheres não é o amor, mas o peso de lutar pelo básico.”
