O Janeiro Roxo chama a atenção para uma doença que, apesar dos avanços da medicina, ainda representa um importante desafio de saúde pública no Brasil: a hanseníase. O país permanece entre os que registram maior número de casos no mundo, o que reforça a necessidade de informação qualificada, diagnóstico precoce e enfrentamento do preconceito histórico associado à doença.
Segundo a dermatologista Elisabeth Lima, especialista em hanseníase pela Sociedade Brasileira de Hansenologia, a campanha tem papel fundamental nesse processo. “O Janeiro Roxo é muito importante porque a hanseníase ainda é uma realidade no Brasil, que permanece entre os países com maior número de casos no mundo. A campanha amplia a informação correta, combate mitos históricos e estimula a população a reconhecer sinais precoces da doença. Qualquer pessoa pode ter a doença, então, quanto maior o conhecimento, mais cedo ocorre o diagnóstico, o que reduz a transmissão, evita incapacidades físicas e diminui o estigma social associado à hanseníase”, afirma.
Mesmo com diagnóstico e tratamento disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a hanseníase ainda persiste como problema de saúde pública. “Isso acontece por fatores como diagnóstico tardio, desconhecimento da população, dificuldade de acesso aos serviços de saúde em algumas regiões e estigma social. Além disso, o longo período de incubação da doença faz com que os sintomas demorem a ser reconhecidos, permitindo a transmissão silenciosa por anos antes do diagnóstico”, explica a especialista.
Sintomas
Entre os sinais e sintomas que não devem ser ignorados estão as alterações na sensibilidade da pele. “Os sinais mais importantes são manchas na pele com alteração da sensibilidade, dormência ou formigamento, áreas da pele que não sentem calor, frio ou dor, caroços ou placas avermelhadas, queda de pelos em algumas regiões e diminuição da força nas mãos ou nos pés. A dormência persistente é um alerta central e nunca deve ser ignorada”, destaca a dermatologista.
Diagnóstico
O diagnóstico da hanseníase é essencialmente clínico e deve ser realizado por profissionais de saúde capacitados. “O diagnóstico é feito a partir do exame da pele e dos nervos periféricos. Em alguns casos, exames complementares podem auxiliar. O diagnóstico precoce é decisivo porque permite iniciar o tratamento antes que ocorram lesões nos nervos, prevenindo deformidades, incapacidades físicas permanentes e interrompendo a cadeia de transmissão da doença”, afirma Elisabeth Lima.
Tratamento
A boa notícia é que a hanseníase tem cura. “O tratamento é feito com a poliquimioterapia única (PQT-U), uma combinação de antibióticos fornecida gratuitamente pelo SUS. Após o início do tratamento, o paciente deixa de transmitir a doença geralmente nas primeiras doses, podendo manter vida social, familiar e profissional normalmente, desde que siga corretamente o esquema prescrito”, explica.
Quando o diagnóstico é tardio ou o tratamento é abandonado, as consequências podem ser graves. “O atraso no diagnóstico pode levar a lesões irreversíveis nos nervos, resultando em perda de sensibilidade, deformidades, dificuldades motoras e incapacidades permanentes. O abandono do tratamento aumenta o risco de complicações, recaídas e manutenção da transmissão da doença na comunidade, além de piorar a qualidade de vida do paciente”, alerta.
Preconceito
Apesar de ser uma doença curável, o preconceito ainda é um dos maiores desafios no enfrentamento da hanseníase. “Infelizmente, o preconceito ainda existe e é um dos maiores desafios. O estigma pode levar ao isolamento social, sofrimento emocional, abandono do tratamento e atraso na busca por atendimento médico. E o preconceito existe tanto por parte das pessoas que convivem com o paciente quanto do próprio paciente com ele mesmo. Combater o preconceito é tão importante quanto tratar a doença, pois a hanseníase é curável e não deve ser motivo de exclusão”, reforça.
Transmissão
Em relação aos familiares e pessoas que convivem com pacientes diagnosticados, a especialista destaca a importância do acompanhamento. “A hanseníase é transmitida principalmente pelas vias respiratórias, eliminadas pelo nariz e pela boca da pessoa doente ao falar, tossir ou espirrar. O risco existe principalmente para contatos domiciliares próximos e prolongados, especialmente quando o paciente ainda não iniciou o tratamento. Por isso, é fundamental que familiares e conviventes sejam avaliados pelas equipes de saúde, recebam orientações, realizem o teste rápido da hanseníase, o ML-Flow, e, quando indicado, a vacinação com BCG. Após o início do tratamento, o risco de transmissão torna-se mínimo”, conclui.