Psiquiatra alerta que saúde mental não é modismo nem pode ser tratada de forma simplificada
Acervo pessoal
Psiquiatra alerta que saúde mental não é modismo nem pode ser tratada de forma simplificada

Ansiedade, burnout e estresse crônico passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano, mas isso não significa que sejam compreendidos corretamente. A popularização do tema trouxe visibilidade, porém também gerou um risco: o de tratar fenômenos distintos como se fossem variações de um mesmo problema. Na prática clínica, essa confusão pode atrasar diagnósticos, banalizar sintomas e comprometer os resultados do tratamento.

Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que o Brasil está entre os países com maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo, afetando cerca de 9% da população. Ao mesmo tempo, o burnout foi oficialmente reconhecido como um fenômeno ocupacional, diretamente ligado ao estresse crônico no ambiente de trabalho. Já o estresse crônico, embora muitas vezes subestimado, é um estado fisiológico prolongado que impacta diversos sistemas do organismo e aumenta o risco de adoecimento ao longo da vida.

Segundo o psiquiatra Dr. Adiel Rios, reconhecido entre os principais especialistas do país no tratamento do transtorno bipolar e das desregulações emocionais, o ponto central está na diferenciação adequada desses quadros. “O estresse é uma resposta natural do corpo às demandas da vida. Ele acelera, prepara e, em curto prazo, pode até ajudar. O problema começa quando esse sistema não desliga”, explica.

Quando o estresse persiste por semanas ou meses, instala-se o estresse crônico, caracterizado por um estado contínuo de alerta. O corpo passa a funcionar como se estivesse sempre sob ameaça. O sono deixa de ser reparador, a irritabilidade se torna frequente, surgem dores musculares, cefaleias, alterações gastrointestinais, queda de memória, dificuldade de concentração e perda de prazer. A ciência descreve esse processo como sobrecarga do sistema de adaptação, um desgaste acumulado que tem consequências clínicas reais.

O burnout, embora também envolva estresse, tem uma origem específica: o contexto de trabalho. Não se trata apenas de cansaço profissional. É quando o trabalho passa a corroer a identidade da pessoa. A exaustão não melhora com o fim de semana. Surge o distanciamento emocional, o cinismo e a sensação persistente de incompetência. “O profissional deixa de se reconhecer no que faz. Pessoas viram tarefas, tarefas viram fardos”, resume o psiquiatra. A Organização Mundial da Saúde define o burnout como resultado do estresse crônico mal manejado no trabalho, e não como falha individual.

A ansiedade clínica, por sua vez, não depende exclusivamente do ambiente. Ela se manifesta como um padrão persistente de antecipação de ameaças, com preocupação excessiva e difícil de controlar, que invade pensamentos, emoções e o corpo. É comum que os sintomas físicos confundam os pacientes: palpitações, falta de ar, aperto no peito, tremores, tensão no pescoço e na mandíbula, náuseas, intestino desregulado, tonturas, formigamentos e insônia persistente. Muitos percorrem diversas especialidades médicas antes de compreender que o corpo está reagindo a um cérebro em estado constante de alerta.

Um ponto decisivo para diferenciar uma “fase difícil” de um quadro clínico é a persistência e o impacto funcional. “A fase difícil costuma melhorar com descanso, férias ou reorganização pontual. O adoecimento não. Ele persiste, se intensifica e reduz a funcionalidade. A pessoa passa a viver no modo sobrevivência”, explica o especialista. Quando descansar não restaura e viver exige esforço contínuo, o organismo está pedindo intervenção.

Estudos científicos, especialmente meta-análises (pesquisas que reúnem e analisam resultados de múltiplos estudos de alta qualidade) demonstram que confundir esses diagnósticos está associado a piores desfechos clínicos. Tratar burnout como ansiedade ignora o ambiente de trabalho que mantém o adoecimento. Tratar ansiedade como “apenas estresse” banaliza um transtorno que exige abordagem específica. Soluções genéricas, nesses casos, tendem a falhar.

Dentro desse contexto, o Dr. Adiel Rios faz uma crítica à forma como o tema saúde mental é, por vezes, abordado publicamente, em especial no chamado Janeiro Branco. Para ele, reduzir o cuidado a campanhas pontuais ou mensagens motivacionais pode transmitir a falsa ideia de que o sofrimento psíquico se resolve com força de vontade ou conscientização sazonal. “Saúde mental não é campanha de mês, não é slogan e não é cor. Psiquiatria e psicologia hoje caminham juntas, baseadas em ciência, evidência e cuidado contínuo”, afirma.

O cuidado envolve pilares como sono regulado, rotina minimamente previsível, vínculos sociais, movimento corporal e redução de excessos. Mas, quando há queda de funcionalidade, o acesso precoce a profissionais qualificados é fundamental. “A mente adoece o ano inteiro. O cuidado precisa ser permanente. Tratar saúde mental com seriedade é, hoje, um compromisso ético com a vida”, conclui.

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