
A possibilidade de realizar cirurgias com apoio remoto, antes restrita a testes e situações específicas, começa a ganhar espaço no Brasil. Com a incorporação de procedimentos robóticos na cobertura dos planos de saúde, a telecirurgia entra no radar como uma alternativa capaz de ampliar o acesso a especialistas e a tratamentos complexos.
A mudança ocorre após a aprovação, pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), da cobertura para a prostatectomia radical assistida por robô, cirurgia para retirada total da próstata, geralmente indicada em casos de câncer. A decisão seguiu recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), e as operadoras tiveram um prazo de 180 dias para adaptação, fazendo de abril o início da oferta.
Com esse avanço, especialistas já utilizam suporte remoto em procedimentos e avaliam a aplicação da telecirurgia como parte da prática médica.
Segundo Eder Mattos, gerente nacional de educação em cirurgia robótica da Hospcom, a tecnologia tem impacto direto na segurança e na precisão dos procedimentos.
“Com cirurgia robótica, o risco de complicações cai para cerca de 15%. Antes, podia ultrapassar 90%. A principal vantagem é reduzir o risco de disfunção erétil e incontinência urinária. A cirurgia ocorre numa região muito delicada. Com maior precisão e melhor visão, o risco de lesão desses nervos é menor. Hoje o robô está presente em várias especialidades. Urologia, ginecologia, cirurgia geral, oncológica, cardíaca, entre outras. Existem cerca de 84 robôs em desenvolvimento no mundo para diferentes aplicações. Hoje no Brasil são quatro modelos de robô que fazem a cirurgia de próstata, incluindo o Toumai, distribuído com exclusividade no país pela Hospcom”, explica.
Cirurgia à distância já é realidade em testes
A realização de cirurgias com suporte remoto já foi testada em diferentes contextos. Um dos exemplos citados foi um procedimento experimental realizado entre Brasil e Angola, a cerca de 14 mil quilômetros de distância.
De acordo com o especialista, existem diferentes formatos dentro desse modelo.
O que muda com a cirurgia robótica
Na prática, a tecnologia não substitui o médico, mas amplia sua capacidade de atuação. O cirurgião opera por meio de um console conectado ao robô, mantendo controle total dos movimentos.
O sistema permite maior precisão, correção de tremores e visualização ampliada em até dez vezes, com imagem em três dimensões. Isso possibilita identificar estruturas delicadas, como nervos e vasos, com mais clareza.
Quando questionado sobre o futuro da tecnologia, Eder Mattos reforça o papel do profissional no processo.
"Não acredito em autonomia total. A IA deve apoiar, sugerir caminhos e melhorar a técnica, mas sempre será necessário controle humano", afirma.
Tecnologia e expansão no Brasil
O avanço da cirurgia robótica acompanha um movimento global de desenvolvimento tecnológico. Atualmente, há dezenas de sistemas em desenvolvimento no mundo, com aplicações em diferentes especialidades médicas.
No Brasil, a expansão ainda acontece de forma gradual, influenciada principalmente por fatores como custo, infraestrutura hospitalar e capacitação de equipes.
Plataformas e novos sistemas cirúrgicos
Entre os sistemas disponíveis está o robô cirurgião Toumai™, utilizado em procedimentos minimamente invasivos. A tecnologia oferece visão em 3D em alta definição e instrumentos que reproduzem os movimentos do cirurgião com precisão.
Na prática, isso pode resultar em incisões menores, menor perda de sangue, redução da dor e recuperação mais rápida, fatores que impactam diretamente o tempo de internação e o retorno às atividades.
Segundo especialistas, plataformas desse tipo representam uma evolução importante dentro da cirurgia moderna, especialmente pela combinação entre precisão técnica e menor invasividade.
Acesso e desafios
Apesar dos avanços, a ampliação do acesso à cirurgia robótica ainda enfrenta desafios, principalmente relacionados ao custo e à disponibilidade da tecnologia em diferentes regiões.
A expectativa, no entanto, é que a incorporação progressiva aos planos de saúde e o desenvolvimento de novos sistemas contribuam para ampliar o acesso ao longo dos próximos anos.
O futuro da cirurgia
A possibilidade de operar à distância, aliada à evolução da robótica e da inteligência artificial, aponta para um cenário em que a localização do paciente pode se tornar menos determinante no acesso a especialistas.
Ainda em fase de expansão, a telecirurgia deve avançar gradualmente, acompanhando a evolução tecnológica e a adaptação das estruturas de saúde.
