
A orientação relacional é um conceito que propõe olhar para os vínculos afetivos e sexuais a partir da forma como cada pessoa vive o amor, o desejo e a intimidade. Em vez de tratar a monogamia como único modelo possível, a ideia parte do princípio de que nem todo mundo se relaciona da mesma forma e que esse desencontro pode gerar sofrimento, frustração e sensação de inadequação.
Desenvolvido pela psicóloga e sexóloga Marina Rotty, o conceito ganhou suporte empírico a partir de um estudo recente realizado com 173 participantes adultos. A pesquisa foi conduzida de forma online, por meio de um questionário estruturado de autorrelato, investigando experiências emocionais, interrupções da prática de não monogamia consensual, retornos posteriores, percepções sobre a vivência em relacionamentos não monogâmicos consensuais e transformações subjetivas na forma de perceber os vínculos.
Na prática, a proposta busca compreender que não existe apenas um jeito “certo” de se relacionar. “É uma tendência que cada um de nós costuma ter quando começamos relacionamentos com exclusividade afetiva/sexual ou não”, resume Marina Rotty, ao definir a orientação relacional como uma dimensão ligada à identidade de cada pessoa. A ideia amplia a conversa sobre amor porque considera que vínculo, desejo e segurança emocional não se organizam do mesmo modo em todo mundo.
Em outra formulação, ela explica que a orientação relacional ajuda a reconhecer o próprio jeito de amar e que viver um modelo que ignora essa dimensão pode se tornar exaustivo a longo prazo.
Ao aprofundar o conceito, Marina Rotty diferencia orientação relacional de preferência, escolha ou comportamento amoroso. Segundo ela, essas dimensões não são equivalentes.
“O conceito é a soma de três fatores: DNA, personalidade e cultura em que a pessoa está inserida. Se fosse apenas DNA, seria determinismo. Se fosse só personalidade, seria comportamento. Se fosse só cultura, seria preferência. Quando a gente une a complexidade desses três fatores, temos a Orientação Relacional. A pessoa ainda terá a liberdade de escolher de que forma quer se relacionar com os outros, mas agora está ciente de que não se trata só do DNA que carrega, da personalidade dela ou da cultura em que vive. Ou seja, não é só determinismo, nem só comportamento, nem só preferência. Em resumo, a orientação relacional é a consciência do modo como a pessoa se relaciona com mais coerência com quem ela é.”
A especialista também chama atenção para o impacto emocional vivido por pessoas que permanecem em modelos de relacionamento que não correspondem à própria forma de construir vínculos. Segundo ela, muitos acabam sustentando relações que geram sofrimento por pressão social e medo de exclusão.
“Há quem prefira sofrer em silêncio do que ser elas mesmas em público.”
Para Marina Rotty, é justamente esse conflito entre identidade afetiva e expectativa social que o conceito tenta nomear. A proposta busca oferecer uma leitura mais ampla sobre vínculos e sobre a forma como cada pessoa constrói amor, compromisso e liberdade.
O tema também é abordado no livro Orientação Relacional: O Amor do Seu Jeito, previsto para junho de 2026. Na obra, Marina aprofunda o conceito e amplia a reflexão sobre as formas contemporâneas de se relacionar. Segundo a autora, o objetivo é reforçar que não existe um único jeito correto de amar, mas diferentes maneiras de viver vínculo, desejo e compromisso.
Nesse contexto, a orientação relacional surge como uma ferramenta para compreender o amor a partir da experiência real de cada pessoa e não exclusivamente de modelos impostos socialmente.
