
O avanço da inteligência artificial na medicina vem transformando a forma como doenças são monitoradas, identificadas e acompanhadas. Na pediatria, sensores inteligentes, análise de dados e plataformas digitais já começam a auxiliar médicos na identificação precoce de alterações respiratórias, padrões de sono e sinais relacionados à saúde mental infantil. Ao mesmo tempo, especialistas alertam que o desenvolvimento saudável das crianças continua dependendo de fatores que a tecnologia não consegue substituir.
Em 2026, o debate ganhou força com a regulamentação do ECA Digital (Lei nº 15.211/25) no Brasil, legislação voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual. O tema surge em um momento em que ferramentas baseadas em IA passam a fazer parte da rotina de famílias, escolas e serviços de saúde.
Para o pediatra Dr. Antonio Carlos Turner, coordenador técnico da rede de clínicas Total Kids, a tecnologia representa um avanço importante na prevenção e no acompanhamento clínico, mas exige atenção aos impactos emocionais, comportamentais e digitais na infância.
“Não tratamos mais apenas a doença instalada. Já utilizamos sensores de IA que monitoram padrões biométricos, sono e atividade física de forma ininterrupta. Isso nos permite antecipar diagnósticos de asma, infecções e até alterações de saúde mental antes mesmo dos primeiros sintomas clínicos aparecerem”, explica.
Nos últimos anos, o uso de inteligência artificial na saúde cresceu de forma acelerada em diferentes países. Relatórios internacionais apontam que ferramentas baseadas em IA vêm sendo utilizadas para análise de exames, previsão de riscos clínicos, monitoramento remoto e identificação precoce de doenças crônicas.
Ao mesmo tempo, especialistas destacam que o excesso de exposição digital e o volume de dados produzidos por crianças passaram a gerar novas preocupações relacionadas à privacidade, comportamento e desenvolvimento emocional.
Segundo Antonio Carlos Turner, a interação constante com ambientes digitais cria um histórico permanente de dados que pode acompanhar crianças e adolescentes por muitos anos.
“É preciso entender que a interação digital gera um ‘eco’, um rastro de dados que pode perseguir a criança até a vida adulta. Por isso, o ECA Digital é tão importante, já que obriga o Estado e as empresas a terem responsabilidades na prevenção dos impactos do mundo virtual. Mas a higiene digital, sobretudo, deve começar em casa, sob a orientação do pediatra”, afirma.
O conceito de “higiene digital” vem sendo cada vez mais discutido por especialistas em saúde infantil e comportamento. A expressão envolve hábitos relacionados ao uso saudável da tecnologia, incluindo limites de tela, supervisão de conteúdo, proteção de dados e equilíbrio entre atividades digitais e experiências presenciais.
Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) apontam que o uso excessivo de telas na infância pode impactar sono, concentração, desenvolvimento emocional e habilidades sociais, especialmente nos primeiros anos de vida.
Para o pediatra, a tendência é que a IA continue crescendo como ferramenta de suporte médico, mas sem substituir aspectos humanos considerados fundamentais no cuidado infantil.
“A medicina cada vez mais vai usar a IA para processar grandes volumes de dados, como o histórico clínico, liberando o médico para o que a máquina jamais fará, que são o diagnóstico humanizado, o afeto, o acompanhamento acolhedor e o apoio às famílias”, destaca.
O especialista acredita que, nos próximos anos, médicos precisarão atuar não apenas no tratamento físico das crianças, mas também na orientação das famílias sobre saúde emocional e uso equilibrado da tecnologia.
“A IA será nosso novo ‘estetoscópio digital’, mas a cura e o desenvolvimento saudável da criança continuarão dependendo de três pilares: afeto, limites e presença”, conclui Antonio Carlos Turner.
