
O aumento dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil vem pressionando empresas, especialistas e órgãos públicos a reverem a forma como saúde emocional é tratada dentro do ambiente corporativo. Em meio a esse cenário, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entra em vigor em 26 de maio de 2026, amplia as exigências relacionadas à saúde mental no trabalho e passa a obrigar empresas de todos os portes a identificarem, monitorarem e gerenciarem os chamados riscos psicossociais.
Os números ajudam a dimensionar a gravidade do problema. Em 2025, o Brasil registrou 534.904 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, maior número da série histórica iniciada em 2014, segundo dados do INSS e do Ministério da Previdência Social. O volume representa crescimento de 13,2% em relação a 2024 e gerou um custo superior a R$ 3,5 bilhões em benefícios pagos pelo sistema previdenciário.
Os dados mais recentes de 2026 apontam uma leve desaceleração, mas ainda em um patamar considerado preocupante. Com base em informações públicas do INSS e do Ministério da Previdência Social, o primeiro trimestre de 2026 registrou 105.874 afastamentos relacionados à saúde mental, queda de apenas 3% em comparação ao mesmo período de 2025. O número representa 12,9% de todos os auxílios-doença concedidos no país no período.
A ansiedade continua aparecendo como principal causa isolada de afastamentos.
O Rio Grande do Sul chama atenção dentro desse cenário nacional. O estado registrou 46.738 afastamentos por transtornos mentais em 2025 e aparece como o terceiro com maior número absoluto de casos no país. Quando os dados são analisados proporcionalmente à população, o estado figura entre os maiores índices nacionais, ao lado de Santa Catarina e Distrito Federal.
Especialistas apontam que fatores externos, incluindo os impactos emocionais e econômicos das enchentes de 2024, podem ter agravado ainda mais o quadro gaúcho. Segundo a psicóloga Denise Milk, especialista em saúde mental corporativa, a atualização da NR-1 representa uma mudança estrutural na forma como empresas passam a lidar com riscos emocionais dentro do ambiente de trabalho.
“Até então, o GRO, sistema que obriga as empresas a documentar e controlar riscos à saúde dos trabalhadores, se concentrava em ameaças físicas, químicas e biológicas. Com a atualização, os riscos psicossociais passam a integrar formalmente esse sistema”, explica.
Na prática, as organizações deverão mapear e documentar situações que afetam diretamente a saúde emocional dos trabalhadores.
Entre os fatores que passam a exigir acompanhamento estão:
- assédio moral, sexual ou de qualquer natureza;
- exposição a eventos violentos ou traumáticos;
- sobrecarga ou subcarga de tarefas;
- pressão excessiva por resultados;
- falta de autonomia e baixo controle sobre atividades;
- problemas de comunicação e gestão de mudanças organizacionais;
- baixo reconhecimento profissional;
- trabalho remoto ou isolado sem suporte adequado.
Segundo Denise Milk, a avaliação deverá ser baseada em evidências documentadas, utilizando ferramentas como pesquisas de clima organizacional, entrevistas, questionários, grupos focais e análise de indicadores internos, incluindo absenteísmo e rotatividade.
Os dados nacionais reforçam a urgência da medida. Levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) aponta que transtornos ansiosos responderam por cerca de 40% de todos os afastamentos relacionados à saúde mental em 2025. Em números absolutos, São Paulo lidera o ranking nacional com 149.375 afastamentos, seguido por Minas Gerais, com 83.321 casos.
Para Denise Milk, os sinais de um ambiente corporativo adoecido costumam aparecer antes dos afastamentos formais. “Aumento do absenteísmo, alta rotatividade e o fenômeno do presenteísmo, quando o trabalhador está presente, mas com saúde e produtividade comprometidas, são sinais importantes”, afirma.
Segundo a especialista, empresas também passaram a buscar ferramentas mais objetivas para identificar riscos emocionais antes que eles evoluam para afastamentos e crises mais graves. “Saúde mental no trabalho deixou de ser pauta de conscientização. Agora é também uma questão de conformidade legal e as empresas que ainda não entenderam isso precisam agir com urgência”, alerta Denise Milk.
A fiscalização da nova NR-1 será realizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego em duas frentes: análise documental e inspeções presenciais para verificar como as atividades são executadas na prática.
Nos primeiros 90 dias após a entrada em vigor da norma, será aplicado o princípio da dupla visita, permitindo que empresas notificadas realizem adequações antes de eventuais autuações, dependendo da gravidade da irregularidade identificada. Após esse período, o descumprimento poderá gerar multas e penalidades previstas na legislação trabalhista.
