A busca constante por produtividade, desempenho e sucesso profissional tem levado cada vez mais pessoas ao limite físico e emocional.
Em consultórios de Psiquiatria, cresce o número de pacientes que chegam exaustos, ansiosos e com dificuldades para reconhecer que estão adoecendo.
Para a psiquiatra Dra. Juliana Fonseca, esse cenário reflete uma mudança importante no estilo de vida contemporâneo e exige mais atenção à saúde mental.
Formada em Medicina pela Unigranrio, Dra. Juliana realizou sua especialização em Psiquiatria ao longo de três anos no Hospital São Marcos, no interior de São Paulo.
Posteriormente, concluiu uma pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental e atualmente cursa o Mestrado em Ensino em Saúde no Einstein.
O interesse pela Medicina surgiu ainda na infância.
Além da afinidade com as ciências biológicas e do desejo de cuidar de pessoas, ela cresceu em uma família com forte tradição médica, cercada por conversas sobre hospitais, pacientes e a rotina da profissão.
Durante a graduação, o contato direto com os pacientes confirmou que havia escolhido o caminho certo.
Hoje, sua atuação envolve o diagnóstico e tratamento de transtornos psiquiátricos em crianças, adolescentes e adultos.
Entre as condições mais frequentes estão ansiedade, depressão, transtorno bipolar, transtornos de personalidade, transtornos alimentares e transtornos do neurodesenvolvimento.
Nos últimos anos, porém, um tema tem ganhado destaque em sua prática clínica: o sofrimento relacionado ao trabalho.
“Tenho acompanhado um número crescente de pessoas com quadros de burnout, ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental associados às exigências e aos desafios do trabalho contemporâneo”, afirma.
Segundo a médica, uma das situações mais comuns observadas no consultório é a dificuldade que muitas pessoas têm em reconhecer o próprio sofrimento.
Frequentemente, os pacientes questionam se seus sintomas realmente representam um problema ou se estão exagerando.
Essa dúvida acaba atrasando a busca por ajuda especializada.
Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas submetidas a rotinas extremamente desgastantes.
São indivíduos que acordam cedo, dormem tarde, passam grande parte do dia trabalhando e encontram pouco espaço para atividade física, lazer, descanso ou convivência familiar.
“Muitas vezes, o único momento de recuperação acontece nos finais de semana”, observa.
“Muitas pessoas seguem funcionando no limite até que o corpo e a mente sinalizem, por meio do adoecimento, que algo precisa mudar.”
Além da sobrecarga emocional, a Psiquiatria ainda convive com diversos mitos que dificultam o acesso ao tratamento.
Um dos mais comuns é a crença de que a depressão estaria relacionada à falta de fé ou à ausência de religiosidade.
Embora a espiritualidade possa representar uma importante fonte de apoio para muitas pessoas, Dra. Juliana reforça que a depressão é uma condição médica complexa, influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais.
Outro equívoco frequente envolve os medicamentos psiquiátricos.
Muitas pessoas acreditam que eles alteram a personalidade ou provocam dependência obrigatoriamente.
“O objetivo do tratamento é justamente reduzir sintomas que estão causando sofrimento e prejuízo, permitindo que a pessoa volte a viver de forma mais próxima de quem realmente é”, explica.
Ela também destaca que a Psiquiatria moderna não se resume à prescrição de medicamentos.
Dependendo do quadro, o tratamento pode incluir psicoterapia, mudanças de hábitos, reorganização da rotina, atividade física ou uma combinação dessas estratégias.
Quando o assunto é prevenção, a médica ressalta que grande parte dos cuidados está relacionada ao estilo de vida.
Alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos, sono adequado e redução do consumo de álcool, cigarro e outras substâncias nocivas são medidas importantes para a preservação da saúde mental.
A atividade física merece atenção especial.
Segundo a especialista, o ideal é encontrar uma modalidade que gere prazer e possa ser mantida de forma consistente ao longo do tempo, com recomendação média de três a cinco horas semanais.
Outro fator fundamental é o manejo do estresse.
“O organismo humano está preparado para lidar com situações de estresse agudo, mas não para permanecer constantemente em estado de alerta.”
As conexões sociais também exercem papel importante. Cultivar relacionamentos saudáveis, fortalecer vínculos afetivos e sentir-se pertencente a uma comunidade são fatores protetores relevantes.
O contato com a natureza também tem sido associado à redução do estresse e à promoção do bem-estar emocional.
Dra. Juliana chama atenção ainda para os riscos da desinformação nas redes sociais.
Com o aumento da produção de conteúdos sobre saúde mental, muitas pessoas acabam recorrendo ao autodiagnóstico ou tentando conduzir o próprio tratamento sem orientação profissional.
Embora relatos pessoais possam gerar identificação, eles não substituem uma avaliação médica individualizada.
“O diagnóstico correto e o acompanhamento contínuo são fatores que influenciam diretamente os resultados do tratamento.”
Ela observa que ainda existe uma cultura de interromper o acompanhamento assim que ocorre uma melhora inicial dos sintomas, o que pode aumentar o risco de recaídas e comprometer a recuperação a longo prazo.
Entre os avanços mais relevantes da Psiquiatria atual, a médica destaca a psiquiatria intervencionista, incluindo tratamentos com escetamina e técnicas de estimulação cerebral para casos específicos e resistentes, sempre após avaliação criteriosa.
Outro destaque é a Medicina do Estilo de Vida, abordagem que utiliza mudanças sustentáveis relacionadas à alimentação, atividade física, sono, manejo do estresse e conexões sociais como parte do tratamento.
Os benefícios, segundo ela, vão além da saúde mental e frequentemente contribuem para o controle de doenças como hipertensão, diabetes e alterações do colesterol, reforçando a ligação entre corpo e mente.
Por fim, a psiquiatra defende o trabalho interdisciplinar entre médicos, psicólogos, nutricionistas e outros profissionais da saúde, além da importância de buscar especialistas qualificados, com formação reconhecida e atuação baseada em evidências científicas.
“Mais do que experiência ou reputação, é importante encontrar um profissional comprometido com a ciência, com a atualização constante e com um cuidado individualizado”, conclui.