A ideia de que a fertilidade permanece inalterada ao longo da vida ainda gera dúvidas, inseguranças e expectativas irreais entre casais que desejam engravidar.
Embora muitas mulheres consigam ter filhos naturalmente após os 35 anos e até mesmo depois dos 40, especialistas alertam que a fertilidade sofre mudanças progressivas com o passar do tempo, afetando tanto mulheres quanto homens.
No Brasil, a infertilidade atinge cerca de uma em cada cinco mulheres em idade reprodutiva.
Apesar disso, a discussão sobre dificuldade para engravidar ainda costuma recair quase exclusivamente sobre o universo feminino.
Segundo a médica Dra. Bruna Begossi, essa visão está longe da realidade.
“Muitas pessoas ainda acreditam que infertilidade é um problema da mulher, mas metade dos casos envolve fator masculino. Quando um casal enfrenta dificuldade para engravidar, o olhar precisa ser conjunto, porque fertilidade é construída por dois”, explica.
Entre os fatores que mais influenciam as chances de gestação está a idade da mulher.
A partir dos 35 anos, ocorre uma aceleração da redução da fertilidade, principalmente devido à diminuição gradual da quantidade e da qualidade dos óvulos.
“Existe uma queda mais evidente da fertilidade após os 35 anos, mas isso não significa que uma mulher de 36, 37 ou 40 anos não consiga engravidar naturalmente. O ponto é entender que as chances mudam progressivamente e merecem planejamento”, afirma Dra. Bruna Begossi.
A especialista ressalta que transformar a idade em uma sentença definitiva costuma gerar ansiedade desnecessária e pode prejudicar a tomada de decisões mais conscientes sobre o futuro reprodutivo.
Outro aspecto importante é a chamada reserva ovariana, que corresponde à quantidade e ao potencial dos óvulos disponíveis nos ovários.
Alterações nessa reserva estão entre as causas mais frequentes de infertilidade feminina.
“As causas ovarianas costumam representar uma parcela importante da infertilidade feminina. Entre elas, aparecem principalmente distúrbios ovulatórios, como a síndrome dos ovários policísticos e a baixa reserva ovariana”, explica.
Segundo a médica, receber o diagnóstico de baixa reserva ovariana não significa infertilidade absoluta.
A síndrome dos ovários policísticos também merece atenção especial.
Muitas mulheres apresentam ciclos menstruais irregulares sem perceber que podem existir alterações na ovulação que dificultam a gravidez.
“Muitas mulheres têm ciclos menstruais irregulares e não percebem que podem existir alterações ovulatórias interferindo na fertilidade. Quanto antes houver avaliação, maiores costumam ser as possibilidades de tratamento”, destaca.
Embora a fertilidade feminina receba mais atenção, a idade masculina também exerce influência importante.
Com o envelhecimento, podem ocorrer alterações na qualidade do sêmen, aumento da fragmentação do DNA espermático e mudanças que impactam a capacidade reprodutiva.
“Existe um mito de que apenas a mulher sofre impacto da idade. O homem também apresenta alterações relacionadas à fertilidade ao longo do tempo”, afirma.
Por isso, a investigação da infertilidade deve sempre incluir a avaliação do casal e não apenas da mulher.
Outro ponto frequentemente alimentado pelas redes sociais envolve a gravidez após os 40 anos.
Casos de celebridades e relatos de gestações tardias costumam gerar a impressão de que engravidar nessa fase é simples ou acontece naturalmente para todas as mulheres.
“Quando vemos histórias de gravidez tardia, muitas vezes não sabemos se houve tratamento, reprodução assistida, congelamento de óvulos ou outras estratégias. Isso pode criar uma falsa percepção de facilidade”, alerta a especialista.
Segundo a Dra. Bruna Begossi, a informação não deve servir para gerar medo, mas para ampliar a autonomia e o planejamento reprodutivo.
A fertilidade não funciona como um relógio que para de repente, mas como um processo gradual que merece atenção ao longo da vida.
Por isso, homens e mulheres que desejam ter filhos no futuro devem buscar orientação médica, realizar avaliações periódicas e compreender que planejamento reprodutivo, diagnóstico precoce e informação de qualidade são ferramentas fundamentais para decisões mais conscientes e seguras.