Por que brincar segue essencial para o desenvolvimento infantil
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Por que brincar segue essencial para o desenvolvimento infantil

Há uma atividade que crianças de todas as culturas, em todos os tempos, praticam instintivamente e que a ciência continua confirmando como uma das mais sofisticadas ferramentas de desenvolvimento humano disponíveis na infância.

Brincar não é o intervalo entre as coisas sérias. É, em si, uma das coisas mais sérias que uma criança pode fazer.

A American Academy of Pediatrics afirma que o brincar é essencial para o desenvolvimento porque contribui para o bem-estar cognitivo, físico, social e emocional da criança.

Estudos apontam que o brincar estimula a plasticidade neural, a criatividade e a construção de esquemas cognitivos próprios da infância, desenvolvendo habilidades de linguagem, empatia, cooperação e pensamento crítico.

O problema é que esse tempo está diminuindo e as consequências começam a aparecer.

O que a ciência diz

Brincar é a linguagem universal da infância.

É a partir das brincadeiras que as crianças se expressam, interagem com o mundo e consigo mesmas, convivem com o diferente, conhecem e desenvolvem suas habilidades e despertam o olhar criativo.

Essa dimensão vai além do desenvolvimento lúdico.

O brincar vai além do entretenimento: é uma via pela qual a criança descobre a si mesma, interage com o meio e desenvolve competências cognitivas fundamentais, como raciocínio lógico, compreensão científica, leitura, produção textual e noções de sociedade.

Para pesquisadores da área, o problema não é apenas a redução do tempo de brincadeira, mas o que ocupa esse espaço.

A exposição precoce e prolongada a dispositivos eletrônicos reduz o tempo de interações familiares, das brincadeiras e do sono, essenciais nessa fase da vida.

Os dados brasileiros são reveladores: em 2024, 44% das crianças entre 0 e 2 anos já utilizam a internet e entre aquelas de 3 a 5 anos, o percentual chega a 71%.

A Organização Mundial da Saúde recomenda limites de tempo de tela que são frequentemente ultrapassados, levando a atrasos no desenvolvimento da linguagem e habilidades sociais.

O brincar estruturado como ferramenta terapêutica

Se para crianças com desenvolvimento típico o brincar já é considerado essencial, para aquelas com condições do neurodesenvolvimento ele se torna ainda mais estratégico e a demanda por recursos especializados cresce na mesma proporção.

No Brasil, o Censo 2022 do IBG E identificou cerca de 2,4 milhões de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ampliando a necessidade de ferramentas voltadas ao desenvolvimento cognitivo, motor e sensorial.

O mercado global de brinquedos sensoriais, produtos desenvolvidos para estimular um ou mais sentidos e utilizados em clínicas, escolas e residências, deve crescer de US$ 2,46 bilhões em 2026 para US$ 6,16 bilhões até 2035, segundo levantamento da Business Research Insights, com taxa média anual de crescimento de 11%.

Foi observando essa lacuna no dia a dia dos atendimentos que a psicóloga Ângela Rodrigues, com mais de dez anos de experiência em desenvolvimento humano e TEA em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, desenvolveu uma linha de kits terapêuticos estruturados.

Ex-fundadora e diretora de uma clínica multidisciplinar especializada na região, ela identificou que os recursos disponíveis no mercado não acompanhavam as necessidades reais do contexto terapêutico.

"Muitos profissionais utilizavam materiais genéricos durante as terapias, mas isso nem sempre era suficiente. Sentia a necessidade de recursos mais estruturados, pensados para o desenvolvimento da criança dentro do contexto terapêutico", diz Ângela.

A resposta foi criar kits que combinam atividades sensoriais, cognitivas e comportamentais, organizadas de acordo com metas específicas de desenvolvimento.

Além dos materiais utilizados pelas crianças, os kits incluem formulários de acompanhamento que permitem registrar a evolução dos pacientes ao longo do processo.

"A proposta é oferecer ferramentas que ajudem terapeutas e famílias a acompanhar o progresso da criança de forma mais objetiva, facilitando ajustes nas intervenções quando necessário", explica.

Da clínica ao mercado global

Os kits foram desenvolvidos e testados ao longo de anos de prática clínica e hoje integram o projeto Skill Builders World USA, empresa fundada por Ângela nos Estados Unidos com foco em desenvolvimento humano baseado em propriedade intelectual.

Atualmente, ela busca investidores e parceiros estratégicos para ampliar a produção e a comercialização da solução em escala internacional.

A iniciativa encontra respaldo nos números do setor.

Segundo levantamento da Business Research Insights, 67% dos pais e terapeutas consideram os brinquedos sensoriais importantes para apoiar crianças com dificuldades de processamento sensorial.

O estudo aponta ainda que 46% dos lançamentos do segmento em 2024 foram direcionados ao público autista ou desenvolvidos com materiais não tóxicos.

Pesquisadores recomendam que educadores e famílias adotem práticas lúdicas orientadas, que considerem tempo, contexto e facilitação qualificada como partes integrantes do processo educativo.

A conclusão é direta: quando o brincar é intencional, seus benefícios se amplificam.

Quando é suprimido, o custo aparece no consultório, na escola e no desenvolvimento ao longo da vida.

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