Há uma coincidência pouco discutida entre a biologia feminina e o mercado de trabalho.
A menopausa costuma ocorrer, em média, por volta dos 52 anos, justamente quando muitas mulheres alcançam o auge da experiência profissional, acumulando maturidade técnica, rede de relacionamentos, autoridade e espaço para assumir posições de liderança.
No entanto, é exatamente nesse momento que uma transição hormonal natural pode começar a impactar não apenas a saúde, mas também a trajetória profissional e financeira.
Durante muito tempo, esse efeito foi tratado apenas como uma percepção individual. Hoje, ele já pode ser medido.
Um estudo conduzido por pesquisadores da University College London, em parceria com universidades de Bergen, Stanford e Delaware, acompanhou mulheres após o diagnóstico da menopausa e identificou uma redução média de 4,3% na renda nos quatro anos seguintes ao início da condição.
No quarto ano, a perda chega a aproximadamente 10%.
Os pesquisadores classificaram esse fenômeno como “penalidade da menopausa”.
Para efeito de comparação, o impacto corresponde a cerca de metade da já conhecida “penalidade da maternidade”, termo utilizado para descrever a redução de renda observada em muitas mulheres após terem filhos.
Segundo os pesquisadores, a questão não está relacionada à perda de competência profissional.
O principal fator observado foi a mudança de comportamento no mercado de trabalho.
Muitas mulheres acabam reduzindo a jornada, recusando promoções ou até deixando seus empregos em razão dos sintomas enfrentados durante essa fase.
Para a médica Dra. Isabel Martinez, CEO do Climex, os efeitos que mais comprometem a vida profissional nem sempre são os mais conhecidos.
“A onda de calor virou o sinal público da menopausa, mas o que de fato corrói o desempenho é mais discreto: a insônia que rouba o sono noite após noite, o cansaço que não passa e, sobretudo, a névoa mental, o chamado brain fog”, explica.
Segundo a especialista, estima-se que cerca de 60% das mulheres nessa fase enfrentem dificuldades de concentração, lapsos de memória, redução da fluência verbal e a sensação frustrante de não conseguir encontrar a palavra certa durante uma conversa ou reunião importante.
A médica explica que existe uma base biológica para essas alterações.
O estradiol, hormônio que sofre uma queda importante durante a menopausa, atua diretamente em áreas cerebrais relacionadas à memória, atenção e linguagem, como o hipocampo e o córtex pré-frontal.
Mas, para Dra. Isabel, a parte mais cara da conta não está apenas nos sintomas físicos ou cognitivos.
Ela se esconde justamente no intervalo entre o surgimento dos sintomas e a compreensão do que está acontecendo.
Uma mulher que sempre construiu sua reputação profissional com base na clareza de raciocínio, na capacidade de liderança e na rapidez para tomar decisões passa, de repente, a esquecer nomes, perder o fio de uma apresentação ou precisar reler diversas vezes o mesmo texto.
“Como ninguém lhe contou que aquilo é hormonal, ela conclui o que parece óbvio: estou perdendo a capacidade. A frustração vira insegurança. A insegurança vira ansiedade. E a ansiedade, num ciclo perverso, piora a própria névoa”, afirma.
Essa dimensão psicológica costuma ser uma das mais invisíveis e menos discutidas da menopausa.
No Brasil, um levantamento realizado pelo Talenses Group apontou que 74% das mulheres enfrentam os desafios físicos e emocionais dessa fase em silêncio, muitas vezes por medo de discriminação, julgamento ou até demissão.
Segundo a médica, pesquisas internacionais mostram que a maioria das mulheres considera o tema “pessoal demais” para ser abordado no ambiente corporativo.
Como consequência, muitas acabam enfrentando os sintomas sozinhas e, em alguns casos, deixam seus empregos antes mesmo de receber qualquer apoio ou orientação.
A situação se torna ainda mais delicada quando a menopausa se soma ao etarismo.
Muitas profissionais relatam que, ao redor dos 50 anos, basta o tema surgir em uma conversa para aumentar o receio de serem vistas como menos produtivas ou menos aptas para assumir cargos de liderança.
“Saem do jogo não por falta de competência, mas por falta de amparo”, resume a especialista.
Quando o olhar se amplia para os impactos econômicos, os números impressionam.
Dados da Clínica Mayo estimam que os sintomas da menopausa geram perdas anuais de aproximadamente US$ 1,8 bilhão em produtividade nos Estados Unidos.
Quando os custos médicos são incluídos, esse valor sobe para cerca de US$ 26,6 bilhões por ano.
Em escala global, as perdas relacionadas à produtividade ultrapassam US$ 150 bilhões anuais.
No Brasil, um estudo do Instituto Esfera estimou prejuízos superiores a R$ 2 bilhões por ano decorrentes de afastamentos do trabalho relacionados à menopausa e ao climatério.
O dado ganha ainda mais relevância ao considerar que cerca de 29 milhões de brasileiras vivem atualmente essa fase da vida.
“Por trás desses bilhões existe uma constatação importante: estamos deixando de aproveitar profissionais justamente em uma das fases mais maduras de suas carreiras. Em vez de aproveitar toda essa experiência, acabamos aumentando custos sociais e previdenciários. Estamos dispensando inteligência institucional no momento em que ela está mais madura”, destaca Dra. Isabel.
A própria médica afirma ter vivido essa experiência.
“Foi essa travessia que me convenceu de que o que falta à maioria das mulheres não é força para enfrentar a menopausa. O que falta é consciência sobre o que está acontecendo com elas”, relata.
Por isso, além da atuação clínica, ela participa de palestras e programas corporativos voltados à conscientização sobre o tema.
“Quando sou convidada a falar em empresas, a primeira coisa que faço não é apresentar dados. Eu compartilho a minha própria experiência. Porque o dado abre a cabeça, mas é a história que quebra o silêncio”, afirma.
Segundo ela, o principal objetivo dessas conversas é ampliar a autoconsciência das mulheres.
“Quando uma mulher entende que aquilo que atribuía ao estresse, ao excesso de trabalho ou a um suposto declínio pessoal tem nome, tem causa e tem caminho, ela deixa de se culpar e passa a decidir. É nesse momento que a melhora se torna possível”, explica.
A médica destaca que esse processo não significa conduzir todas as mulheres para uma mesma solução, mas ajudá-las a compreender melhor a própria realidade.
Segundo ela, cada experiência com a menopausa é única e exige uma abordagem individualizada.
“Não conduzo ninguém a um destino pronto. Meu papel é ajudar cada mulher a enxergar o terreno que está atravessando e encontrar, com o acompanhamento adequado, o seu próprio caminho. Quando existe informação, acolhimento e orientação, ela consegue tomar decisões mais conscientes sobre sua saúde, sua carreira e sua qualidade de vida”, afirma.
Para a especialista, o trabalho também precisa envolver as empresas.
Ela defende que informar equipes, preparar lideranças para abordar o tema sem constrangimento, revisar políticas de flexibilidade e criar canais de acolhimento são medidas de baixo custo e alto impacto.
“Organizações que compreenderam essa realidade descobriram algo importante: o custo da omissão é maior do que o custo da ação”, afirma.
Um estudo da Korn Ferry citado pela médica mostra que o apoio percebido por parte da liderança está entre os fatores mais relevantes para a retenção dessas profissionais, independentemente do gênero do gestor.
Para Dra. Isabel Martinez, a menopausa não representa o fim da vida produtiva de uma mulher.
“A menopausa é uma transição. Como toda transição, pode custar caro quando atravessada na ignorância e no isolamento, mas custa muito menos quando existe informação, acolhimento e suporte adequado. A diferença não está na biologia. Está na consciência”, conclui.
Segundo a médica, ampliar essa consciência entre mulheres, empresas e sociedade é fundamental para evitar perdas de talento, de renda, de produtividade e, principalmente, de confiança em uma fase da vida que ainda permanece cercada por desinformação e silêncio.